Carreira

A carreira é na fazenda

Por que o CEO da SLC Agrícola, Aurélio Pavinato, aposta em treinamento intenso e monitora no campo o desempenho de sua equipe

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"O diálogo e a presença nas fazendas geram um maior comprometimento das equipes" aurélio pavinato, CEO da SLC Agrícola (Crédito: Divulgação)

Três vezes ao ano, o engenheiro agrônomo Aurélio Pavinato, 49 anos, CEO da SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de fibras e grãos no País, viaja de Porto Alegre, onde fica a sede do grupo gaúcho, para a região do Cerrado. Geralmente acompanhado de até sete diretores da companhia, ele toma um voo em avião fretado e vai conferir o trabalho realizado em 395 mil hectares de área de cultivo. São 14 fazendas de algodão, soja e milho, localizadas nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Maranhão e Piauí. “Essas viagens podem durar até três semanas”, diz Pavinato. Nesse tempo, a agenda é intensa. “Aproveitamos até o período de voo, quando avaliamos a fazenda de onde saímos e nos preparamos para a próxima parada”. O executivo está no grupo há 24 anos e se tornou CEO, em 2013, depois de ocupar vários cargos, incluindo o de diretor financeiro. Com capital aberto na BM&FBovespa desde 2007, a SLC faturou R$ 1,7 bilhão em 2016. No ano passado, no prêmio AS MELHORES DA DINHEIRO RURAL, ela foi a campeã em Gestão Corporativa na categoria Agronegócio Direto – Grandes Empresas.

Pavinato destaca a importância das viagens entre as suas principais tarefas como executivo. Por isso, ele não abre mão dessa rotina, mesmo com todas as inovações trazidas pela tecnologia, principalmente na comunicação, como as teleconferências e os grupos de WhatsApp. “O diálogo e a presença nas fazendas geram um maior comprometimento das equipes”, diz ele. A SLC conta com 2,3 mil funcionários fixos, dos quais 2,1 mil estão no campo, além da contratação de cerca de 900 temporários por safra, na época da colheita. Nos últimos anos, a substituição anual de mão de obra, que era de até 45% por período, caiu para 19%. “A permanência de cerca de 80% dos funcionários na empresa é um padrão aceitável”, afirma Pavinato. “Com isso, conseguimos treinar melhor as equipes e aumentar as promoções a cargos de direção e de coordenação, entre os nossos profissionais.” Prova disso é que 178 postos, dos 238 ocupantes desses cargos, foram preenchidos por promoções internas.53

De acordo com Marcelo Botelho, gerente da consultoria de recursos humanos Michael Page para o Norte e o Nordeste, manter os profissionais nas empresas é hoje um desafio para o agronegócio. “Por ser um mercado aquecido, mesmo nos períodos de crise, como agora, a movimentação da mão de obra é maior no agronegócio do que em outros setores da economia”, diz Botelho. Para ele, a SLC serve de exemplo como uma empresa que visa a manutenção de sua equipe. “Eles fazem com que os trabalhadores se sintam parte de algo maior do que uma empresa e percebam que existe uma série de princípios em sua base.” Não por acaso, cada vez mais, Pavinato tem incorporado como rotina na companhia os treinamentos visando também a qualidade de vida dos funcionários. Nos últimos cinco anos, a frequência de acidentes de trabalho caiu de 13 eventos por milhão de horas de atividade para 2,4 por milhão. “Há também um resultado econômico dessa redução”, diz ele. “Com afastamento do funcionário, cada acidente custa em média R$ 50 mil, segundo uma estimativa do mercado.” No ano passado, a meta na empresa era aplicar um mínimo de 50 horas de treinamento para os cargos com funções operacionais, mas acabou oferecendo 57 horas. Entre os profissionais de coordenação foram 107 horas de treinamento.

Pavinato diz que na SLC o investimento em pessoas mantém talentos indispensáveis à empresa. Ele próprio é um dos exemplos dos acertos da companhia. Em 1993, após terminar o curso de agronomia e o mestrado em ciência do solo na Universidade Federal de Santa Maria (RS), Pavinato foi contratado para criar uma área de planejamento agrícola. “Na época, a produção era em 24 mil hectares, área 15 vezes menor que a atual”, diz. “Lembro que o sonho eram propriedades com tamanho próximo de dez mil hectares, para termos escala de produção”. O sonho concretizado com sobra. Atualmente, cada unidade da companhia tem em torno de 50 mil hectares.

Para crescer junto com a empresa, Pavinato soube aproveitar as oportunidades. Por exemplo, a mudança da sede da SLC, que era em Horizontina (RS), onde a companhia nasceu, para Porto Alegre, nos anos 2000, abriu a possibilidade de um doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O curso foi na área de solos, tema que já havia norteado o seu mestrado. Mesmo nos últimos três anos, no comando da SLC, Pavinato conta que não deixou os estudos. Entre os cursos recentes estão o STC Executivo (Habilidades, Ferramentas e Competências, na sigla em inglês) e o PGA (Programa de Gestão Avançada), da Fundação Dom Cabral, de Nova Lima (MG). Nos dois casos, eles foram complementados no exterior, respectivamente nos Estados Unidos e na França. “Tive uma trajetória linear na empresa, primeiro com uma formação mais técnica, e depois com uma dedicação maior à administração da empresa”, afirma Pavinato. “Na SLC, acredito que os treinamentos podem abrir a possibilidade para que todos invistam no futuro.”