Em busca da confiança

parceria: para o presidente da Cargill, Luiz Pretti, a produção no campo somente se sustenta se ela estiver conectada com todos os elos da cadeia

O presidente da americana Cargill Agrícola, Luiz Pretti, 57 anos e presidente da subsidiária brasileira desde 2012, gosta de mostrar números relativos ao desempenho da empresa. E eles não são poucos e nem miúdos. A Cargill, uma gigante mundial do setor de alimentos, é uma potência do agronegócio também no País. Depois de 51 anos por aqui, opera em 328 municípios espalhados por 15 Estados, possui 23 fábricas, cinco terminais portuários e dez mil funcionários. Atua como trading , distribuição, logística e possui serviços financeiros, indo até o varejo. No campo, 19,4 mil agricultores entregam seus produtos à empresa, como milho, soja, tomate, cacau e cana-de-açúcar. Em 2015, o volume originado, processado e comercializado foi de cerca de 28 milhões de toneladas de produtos. Desse total, 72% foi exportado para o mundo e 28% ficou no mercado interno. É difícil, por exemplo, encontrar um consumidor que desconheça marcas como o óleo Liza ou o molho de tomate Pomarola. No ano passado, a receita da Cargill chegou a R$ 32 bilhões, um aumento de 23% comparado ao ano anterior. O lucro líquido foi de R$ 416 milhões. “O que queremos é a confiança do consumidor de que estamos cumprindo o compromisso de levar a ele uma alimentação saudável, segura, sustentável e acessível”, diz Pretti. “Disso depende a nossa reputação”.

No prêmio AS MELHORES DA DINHEIRO RURAL, a Cargill é a campeã deste ano na categoria Gestão de Cadeia Produtiva, na qual é medida a relação da empresa com os seus elos do campo ao consumo. Para uma empresa chegar a todos os elos de uma cadeia, é preciso dominar com maestria a arte da gestão corporativa, diz José Luiz Tejon, coordenador do Núcleo de Agronegócio da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), que participou da escolha das premiadas (veja tabela abaixo), junto com o Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CAAS). “No mundo, a Cargill é uma empresa centenária e domina concretamente os princípios conceituais do que significa agribusiness”, diz Tejon. “Nos propósitos contemporâneos da Cargill está explicitado a missão de colocar suas inteligências a serviço de clientes. E claro, há uma forte determinação de sua liderança para fazer isso acontecer.” Da sede em Minnesota, nos Estados Unidos, a maior empresa privada de alimentos do mundo comanda um império que fatura US$ 134 bilhões e possui 143 mil funcionários.

educação continuada: cada litro de óleo recolhido em pontos de coleta deixa de poluir 35 mil litros de águas dos rios. Desde 2010, a Cargill já captou um milhão de litros de óleo usado
Educação continuada: cada litro de óleo recolhido em pontos de coleta deixa de poluir 35 mil litros de águas dos rios. Desde 2010, a Cargill já captou um milhão de litros de óleo usado

O Brasil é o segundo maior investimento global da Cargill. O primeiro são os Estados Unidos. Pretti afirma que pela dimensão da empresa no País, e pela dimensão do agronegócio brasileiro, dentro do modelo de governança da Cargill a subsidiária é uma referência. No Brasil, por exemplo, a companhia conta com um fortíssimo comitê de sustentabilidade, uma fundação atuante e ações regulares visando colocar a empresa como protagonista social. “Nossas ações são sempre para dar respostas sobre os nossos produtos”, diz Pretti.

No caso dos óleos de cozinha, com portfólio de marcas próprias que vão até o varejo, a Cargill tem uma parceria com supermercados para o recolhimento de produtos usados. Isso porque um litro de óleo ou gordura mal descartado pode contaminar até 35 mil litros de água. A Cargill criou o programa de coleta em 2010 e já conta com um milhão de litros recolhidos. No ano passado foram cerca de 420 mil litros em todo o País, evitando a contaminação de dez bilhões de litros de água, volume suficiente para abastecer a cidade de São Paulo por nove dias. “É um processo de educação. O consumidor descarta em pontos de recolhimento o óleo que quiser”, diz Pretti. “Pode ser óleo da Cargill, como pode ser o da Bunge, o da Unilever ou outra marca qualquer.” A empresa também atua no projeto da Moratória da Soja, pacto iniciado há dez anos entre entidades de produtores, ONGs e governo, para a adoção de medidas contra o desmatamento da Amazônia, além de patrocinar ações para a regularização do Cadastro Ambiental Rural (CAR) em propriedades fornecedoras de commodities.

EXTENSÃO RURAL Mas a Cargill também atua dentro das propriedades, visando a ajuda técnica. “Caso o produtor deseje, estamos prontos”, diz Pretti. “Nós conhecemos a fundo as técnicas de plantio e podemos ajudar o produtor a melhorar o seu desempenho.” No caso do cacau, a empresa pode ajudar o produtor a se ajustar às regras da certificação suíça UTZ, destinada a produtos como cacau, café e chá. “Podemos ajudar o produtor na segurança, plantio, uso de agroquímicos, fertilizantes e como descartar embalagens”, diz Pretti.

investimentos: com uma forte presença em portos, como os de Miritituba e de Santarém, no Pará, a empresa começa a olhar agora para projetos ferroviávios, como o Ferrogrão
Investimentos: com uma forte presença em portos, como os de Miritituba e de Santarém, no Pará, a empresa começa a olhar agora para projetos ferroviávios, como o Ferrogrão

Os investimentos para manter o padrão dos produtos e a expansão do negócio são grandes. Aliás, esse é um setor vital na empresa. Em 2015, por exemplo, foram investidos R$ 200 milhões, e neste ano outro R$ 618 milhões, dos quais 70% se destinaram à logística portuária no Norte do País, em portos como os de Miritituba e Santarém, no Pará. “Estamos interessados também no projeto ferroviário Ferrogão, uma iniciativa ambiciosa para investidores de longo prazo, ligando o município de Sinop (MT), a Miritituba”, afirma Pretti. “As tradings suportariam esse investimento, com o compromisso de uso de seus serviços.” O custo estimado é de R$ 11,5 bilhões e o projeto integra o pacote das próximas concessões do governo federal.
Além desses investimentos, a Cargill tem na agulha outros R$ 600 milhões para projetos. O mais recente, realizado no mês passado, foi a compra da SGS Microingredients, com sede em Ponta Grossa (PR). Assim, a empresa passa a atuar na área de bioprodutos que podem substituir óleos derivados do petróleo, destinados à fabricação de perfumes, hidratantes e batons, por exemplo, a partir do processamento de milho. A Cargill assumiu a fábrica com capacidade para processar 56 mil toneladas anuais de óleos, na qual trabalham 80 funcionários. Eles se integraram imediatamente às regras da empresa, que tem um forte programa de monitoria gerencial. De acordo com Pretti, há dois anos não se registra um único acidente fatal em suas unidades. “Temos o compromisso de cuidar dos funcionários próprios e terceirizados, e disso não abrimos mão”, afirma. “Além de regras de segurança, uso de energia, água, exames periódicos de saúde, precisamos ter a certeza de que um funcionário sairá de sua casa e ao final do dia retornará.”48

Mas não é somente a seus funcionários que a Cargill se reporta. Uma das iniciativas sociais mais fortes é levada a cabo pela Fundação Cargill, instituição das mais antigas entre as empresas que atuam no País. Criada em 1973, a meta é atuar nas comunidades nas quais possui alguma unidade de negócio. No ano passado, 31 mil pessoas foram beneficiadas pela Fundação Cargill, a partir de 24 iniciativas em 35 cidades. O projeto de Grão em Grão, por exemplo, tem a missão de promover debates em escolas e entidades sociais, sobre alimentação saudável e segurança dos alimentos. “O Brasil pode produzir 215 milhões de toneladas de grãos nesta safra, um recorde”, diz Pretti. “Mas pode produzir também uma sociedade mais justa e sustentável, do produtor à mesa do consumidor. Nós somos parte desse movimento.”