As melhores da Dinheiro Rural 2016

Forte para continuar crescendo

Saiba por que a campeã Coamo irá investir R$ 1 bilhão nos próximos quatro anos

Forte para continuar crescendo

em boas mãos: o agrônomo e presidente da Coamo, José Aroldo Gallassini, em frente ao moinho inaugurado no ano passado, e que pode processar até 500 toneladas de trigo por dia, diz que as novas gerações de associados estão sendo preparadas para o futuro

COOPERATIVAS

O sucesso da união entre a prudência, para garantir a segurança do faturamento de seus cooperados, e a ousadia, para expandir os seus negócios, mesmo em momentos difíceis da economia do País como os atuais, é o que tem sustentado nos últimos anos o excepcional desempenho da Coamo Agroindustrial Cooperativa, com sede no município paranaense de Campo Mourão. “No próximo ano, os cooperados vão receber rendimentos relativos a 2016, mesmo que tenha sido um período de perdas na agricultura”, diz José Aroldo Gallassini, presidente da cooperativa. “E devem ser bons rendimentos.” Aos 72 anos, dos quais 46 na Coamo, o engenheiro agrônomo Gallassini sabe o que está falando. Em 2015, ele levou a cooperativa a um feito espetacular: pela primeira vez em sua história, a receita da organização ultrapassou a barreira dos dois dígitos. Foram exatos R$ 10,6 bilhões, valor 22,8% acima de 2014. Em rendimentos devolvidos aos cooperados, na forma de lucro, foram R$ 320,3 milhões, montante 23,4% acima do ano anterior. Gallassini acredita que haverá sobras das operações realizadas em 2016, porque a expectativa também é de crescimento, com uma receita global que pode chegar a cerca de R$ 12 bilhões.

Não por acaso, a Coamo é a melhor do ano na categoria Cooperativas do prêmio AS MELHORES DA DINHEIRO RURAL em 2016, tendo as maiores pontuações em Gestão Financeira e Gestão Corporativa. A organização é uma potência na originação de grãos, como soja, milho, trigo, café e algodão. No ano passado, a produção dos agricultores associados também foi inédita e bateu mais um recorde histórico, com 7,02 milhões de toneladas de commodities agrícolas. O volume respondeu por 3,4% da produção brasileira de grãos e fibras da safra 2014/2015. Parte dela, que é industrializada e exportada, como farelos e óleos, por exemplo, foi vendida para mais de duas dezenas de países, entre eles Japão, China, Coreia do Sul, Rússia e Alemanha. No ano passado, a receita gerada com as vendas externas foi de US$ 1,17 bilhão para 3,49 milhões de toneladas de produtos, entre industrializados e “in natura.” A expectativa em 2016 é fechar o ano com 4,2 milhões de toneladas exportadas.

no mercado: de soja, para o consumo interno, a Coamo industrializa óleos e margarinas (acima). Já a exportação de produtos, incluindo in natura , deve ser de 4,2 milhões de toneladas
No mercado: de soja, para o consumo interno, a Coamo industrializa óleos e margarinas (acima). Já a exportação de produtos, incluindo in natura , deve ser de 4,2 milhões de toneladas

Com a produção colocada no mercado, a ousadia da Coamo está em aproveitar a capacidade de investimento para garantir um futuro melhor aos cooperados. Em 2015, a cooperativa inaugurou seu mais recente investimento, um moinho de trigo em Campo Mourão, com capacidade para processar 500 toneladas diárias do grão. O moinho fazia parte de um pacote de investimentos da ordem de R$ 465 milhões, aprovado em 2013. Em março deste ano, os cooperados decidiram colocar mais uma vez a mão no bolso. Desta vez, aprovando um aporte da ordem de R$ 1 bilhão para serem investidos em quatro anos, destinados à construção e à ampliação de unidades industriais e de entrepostos nos Estados de Mato Grosso do Sul e do Paraná. O projeto inclui também a ampliação de suas instalações voltadas à exportação no porto de Paranaguá (PR) e a compra de um terreno em Itapoá, no porto de São Francisco (SC), que pode ser uma opção futura para ampliar as vendas ao exterior. “Quem consegue investir em momento de crise, pode aproveitar melhor as oportunidades que virão após a turbulência”, afirma Gallassini.

Para Marcio Lopes de Freitas, presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), a credibilidade é fundamental nesse sistema de organização dos produtores, para agregar um maior número de associados e também para aumentar a participação das cooperativas no mercado. No País, do total de 6,5 mil cooperativas de vários setores da economia, 1,5 mil agremiações são agropecuárias e reúnem cerca de um milhão de cooperados. No caso da Coamo são 28,1 mil famílias integradas. “Por isso, vemos um esforço cada vez maior para aprimorar a governança e a gestão, além de aumentar o engajamento dos cooperados”, afirma Freitas. Ele sustenta que pela própria característica dessas organizações, baseadas no compartilhamento, a gestão cooperativa precisa de um viés econômico diferente de uma empresa. “As cooperativas precisam aumentar as oportunidades aos associados, porque não é possível pensar na sua saúde financeira de forma separada dos negócios de seus participantes”, diz Freitas. Ou seja, o avanço de uma cooperativa depende não somente de bons resultados econômicos, mas também da condição social e econômica de seus associados.

Nesse sentido a Coamo também vai bem. O nível de inadimplência dos agricultores junto à Credicoamo, a instituição financeira de crédito e seguro rural da cooperativa, está na faixa de 0,4%. Para comparação, um exemplo é a atual inadimplência nas linhas de recursos livres para pessoas físicas no País. De acordo com o Banco Central, no mês passado ela era 15 vezes maior, chegando a quase 6% dos tomadores de crédito. “A baixa inadimplência mostra que os produtores também estão capitalizados, o que nos dá mais segurança para avançar”, afirma Gallassini. Somente no primeiro semestre deste ano, a Credicoamo movimentou R$ 1,1 bilhão em operações de crédito.

indústria: a cooperativa possui dez fábricas, entre elas uma processadora da algodão (acima) , e deve inaugurar mais uma refinaria de óleo e uma esmagadora de grãos nos próximos cinco anos
Indústria: a cooperativa possui dez fábricas, entre elas uma processadora da algodão (acima) , e deve inaugurar mais uma refinaria de óleo e uma esmagadora de grãos nos próximos cinco anos

Na agroindústria, em busca de uma verticalização cada vez mais robusta e da agregação de valor, a maior parte dos investimentos, cerca de R$ 650 milhões, serão aplicados na construção de uma refinaria de óleo de soja e de uma esmagadora de grãos no município de Dourados (MS). Atualmente, o parque industrial da Coamo conta com dez indústrias, sendo duas esmagadoras de soja, uma refinadora de óleo, uma fábrica de margarina e outra de gordura hidrogenada, uma torrefadora de café, duas fiações de algodão e dois moinhos de trigo. Os entrepostos da Coamo estão em 68 municípios do Paraná, de Santa Catarina e de Mato Grosso do Sul. Desse total, na fase de investimentos, 25 serão modernizados e ampliadas as suas capacidade de recebimento, transporte, beneficiamento e secagem de produtos, distribuição de insumos e escritórios administrativos, além da construção de outros três em Mato Grosso do Sul, nos municípios de Sidrolândia, Itaporã e Dourados. “Participei desde a fundação da Coamo, como gerente-geral, e, em 1975, assumi a presidência”, diz Gallassini. “A sensação é de ver um filho criado, mas que ainda exige atenção.” A cooperativa criada por 79 associados, que começou a operar em um escritório de 50 metros quadrados, no qual cabiam poucas pessoas, hoje emprega 6,9 mil funcionários que receberam no ano passado R$ 405,5 milhões em salários. Em 2015, a organização possuía um patrimônio líquido de R$ 3,66 bilhões, além de contribuir com R$ 165 milhões em impostos municipais, estaduais e federal, valor 6,1% acima do ano anterior. Os dados da Coamo são gigantescos por uma única razão: seus associados conseguiram transformá-la na maior empresa exportadora do Paraná e na 21ª maior empresa exportadora do País.47

Mas, para continuar crescendo, os associados sabem que o futuro é desafiador. Além da formação de líderes para ocupar os cargos de direção da entidade, um dos focos atuais é a melhoria da gestão do negócio, que passa agora por um processo de reestruturação das gerências para aumentar a eficiência da cooperativa. Por exemplo, alguns setores, como a gerência de fornecimento aos cooperados, que estava sobrecarregada, foi dividida. “Era um departamento que precisava trabalhar com mercados muito diferentes, de máquinas a insumos”, afirma Gallassini. “Com a divisão, a ideia agora é ganhar agilidade nos processos.” Com refinamentos dessa natureza, embora desconverse com muita frequência, Gallassini vai pavimentando a estrada de sua aposentadoria, após quase meio século dedicado ao cooperativismo. “Não quero dar prazo, para evitar especulações”, diz Gallassini. “Mas estamos preparando internamente os nossos sucessores e tenho certeza de que serão capazes de manter o ritmo de crescimento da cooperativa no futuro.”