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Marcos Lisboa, presidente do Insper

Entrevista

“O melhor subsídio do governo para o agronegócio é investir em infraestrutura”

“O melhor subsídio do governo para o agronegócio é investir em infraestrutura”

Luís Artur Nogueira
Edição 16.12.2016 - nº 143

O agronegócio é recheado de exemplos de sucesso que deveriam ser copiados pelos demais setores da economia brasileira. Essa é a avaliação do presidente do instituto de ensino Insper, o economista Marcos Lisboa. O Insper tem promovido diversos estudos e debates para mostrar que os ganhos de produtividade é que determinam o sucesso ou o fracasso de um país. Um dos itens fundamentais é abrir mais a economia, processo ao qual o agronegócio foi exposto ao longo de décadas. “O agronegócio é uma história fascinante”, diz Lisboa, que foi secretário de política econômica do Ministério da Fazenda no Governo Lula. “É uma combinação de vantagens naturais, renovação tecnológica, pesquisa, empreendedorismo e competição.” Em entrevista à DINHEIRO RURAL, o economista defende a adoção de uma agenda de micro reformas que tenham foco na eficiência e deixem as empresas ruins quebrarem. Antes, porém, o mais urgente é arrumar o caos fiscal do País, premissa básica para o resgate da confiança dos investidores nacionais e estrangeiros.

Dinheiro Rural – Por que o agronegócio vem obtendo desempenhos superiores aos da economia brasileira, em média, há vários anos?

Marcos Lisboa – O agronegócio é uma história fascinante. É uma combinação de atributos. O Brasil tem vocação para a agricultura, mas não é só isso. É uma combinação de vantagens naturais, renovação tecnológica, pesquisa, empreendedorismo e competição. É essa combinação de eventos que permite esse desempenho notável do setor, que é exportador e compete com os produtos estrangeiros da mesma maneira que a indústria.

RURAL – Ou seja, a agronegócio enfrenta os mesmo gargalos que a indústria, mas consegue brilhar…

LISBOA – Exatamente. É uma história longa que começa nos anos 1970, quando o Brasil adota uma postura inovadora de apoiar pesquisa para adaptação de culturas. A soja no Centro Oeste, o café no cerrado mineiro etc. A tecnologia foi avançando desde essa época. No fim do Governo Sarney e no começo do Governo Collor, a grave crise fiscal forçou um corte abrupto dos subsídios à agricultura e a abertura da economia ao comércio exterior. O País estava mais pobre.

RURAL – Foi um período de transição difícil?

LISBOA – Muito difícil. Muitos setores e empresas não aguentaram a situação tanto na indústria quanto no agronegócio, que viveu um grande processo de consolidação. Por outro lado, quem sobreviveu teve ganhos de produtividade. O brasileiro passou a fazer o que os empreendedores faziam, ou seja, a comprar as melhores máquinas que existiam no mundo. Nos anos 2000, a agricultura brasileira continuou se desenvolvendo e se consolidando, e nós assistimos a uma série de melhorias na gestão. A sofisticação na gestão da agricultura permitiu ganhos de produtividade. O resultado é que, entre 1970 e o começo desta década, a agricultura cresceu a sua produtividade de 4% a 5% ao ano.

RURAL – Esse processo foi diferente na indústria?

LISBOA – Sim. Isso contrasta com o que ocorreu na indústria que, de meados da década passada para cá, pediu proteção, subsídios e vem decaindo. A indústria, que já representou 36% do PIB, hoje não passa de 9%. Em vez de uma agenda para o aumento de produtividade e para a integração na cadeia global de produção, a indústria do Brasil acabou optando pela proteção e o fechamento da economia.

RURAL – Essa diferença entre a agricultura e a indústria é ruim para o Brasil?

LISBOA – O problema do País é não conseguir ganhar produtividade de uma forma geral. É um sinal de que o País está ficando mais pobre. Por que a produtividade da indústria e do setor de serviços não consegue avançar?

RURAL – Falta tecnologia de ponta?

LISBOA – Não, nem tanto a tecnologia. Nós temos um ambiente institucional ruim. Há dados internacionais. Por que os Estados Unidos são mais ricos do que a Índia e China? Será que é porque têm mais indústrias, mais serviços, fazem mais iPads e menos cana-de-açúcar? Não. O principal fator não é a composição setorial. O que determina se um país é mais rico é a sua produtividade. Nos Estados Unidos, entre as empresas 10% mais eficientes em comparação com as 10% menos eficientes, a diferença entre elas é de duas vezes. Na Índia e na China, essa diferença é de cinco vezes. Conclusão: as melhores empresas americanas não são tão melhores que as piores. O problema é que na Índia e na China preserva-se uma massa de empresas pequenas ineficientes, a partir de medidas protecionistas. Isso reduz a produtividade média da economia.

RURAL – E no Brasil?

LISBOA – Aqui nós preservamos as empresas ineficientes e não deixamos que elas quebrem.

RURAL – Do total exportado pelo Brasil, 41% são minério de ferro, petróleo, carne, açúcar e soja. Essa pauta restrita a commodities é um problema?

LISBOA – Não necessariamente. Há países que são ricos com peso maior de commodities. O conceito de indústria está mudando muito. Produzir um iPad é uma montagem. Qual é o valor adicionado de se montar um iPad? Ou de montar um carro? A sofisticação, hoje, está muito mais na inteligência de desenhar o novo produto. A própria fronteira entre o que é indústria e serviço está cada vez mais tênue. A agricultura tem muita tecnologia. Pegue o caso da safrinha do milho. É impressionante. Deixou de ser safrinha e é do tamanho da safra de milho, dobrando a produção. Enfim, o que torna o Brasil mais pobre é o fato de nós fazermos de uma forma pior as diversas atividades da economia, dos serviços mais simples aos mais sofisticados. Somos menos eficientes e as causas são muitas.

“A agricultura tem muita tecnologia. A safrinha do milho deixou de ser safrinha, dobrando a produção”

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RURAL – Oferecer taxas de juros subsidiadas para o financiamento da safra agrícola é correto?

LISBOA – A agricultura brasileira já tem menos subsídios que nos demais países, mas eu sou um crítico de crédito subsidiado. Temos de melhorar as garantias para reduzir os juros. O melhor subsídio do governo para o agronegócio é investir em infraestrutura. Melhorar os portos. Como é que os nossos portos são tão ineficientes e tão caros? As nossas estradas, a nossa logística. Precisamos resolver da porteira para fora. Se nós conseguirmos resgatar a confiança nas regras do jogo, criar um marco regulatório estável, que dê confiança aos investidores de longo prazo, e que defina com clareza o papel das agências regulatórias, isso tem um impacto positivo sobre as demais atividades seja da indústria, seja da agricultura. O que é prejudicial para o País é a agricultura melhorar a atividade do campo, mas perder na estrada, perder no porto, perder no transporte.

DINHEIRO RURAL – A crise fiscal preocupa?

MARCOS LISBOA – Nós já estamos assistindo às consequências do descontrole das contas públicas no Brasil. Houve um processo grave, nos últimos oito anos, de expansão de diversas políticas sem que fosse observada a sua sustentabilidade. Houve um descontrole fiscal nos governos federal e estaduais. Somam-se a isso alguns problemas estruturais.

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RURAL – O governo Dilma destruiu o setor de etanol?

LISBOA – A intervenção do último governo em diversos setores foi desastrosa. Essa volta ao intervencionismo discricionário, que escolhe setores e que mexe em regras, é um prejuízo imenso ao País no longo prazo. Qual é a segurança que um empresário que quer investir no Brasil tem de que a regra vai valer? Foi o caso do etanol. Eu monto uma grande usina e amanhã vem o governo e intervém no preço da gasolina, muda tudo. Isso afeta a credibilidade do País e a confiança dos empresários. Essas intervenções oportunistas são muito ruins para a geração de emprego. E são intervenções incompetentes, que prejudicaram a produção de etanol , de óleo e gás, energia etc.

RURAL – O agronegócio pode ser considerado um exemplo do Brasil que dá certo?

LISBOA – A história do agronegócio também é a história de vários empreendedores de sucesso. Isso mostra o melhor do mercado funcionando. Empreendedores que saíram do Paraná, do Centro Oeste, que foram adaptar o café no cerrado mineiro. É essa combinação de um mercado aberto, competição, deixando o melhor da economia de mercado, empreendedores, que explica a fórmula do sucesso. Vários fracassaram e os que deram certam foram copiados. Há uma quantidade impressionante de histórias de sucesso no agronegócio. Essas histórias deveriam ser o exemplo para o País. Não a história de conseguir proteção via viagem a Brasília.

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