As melhores da Dinheiro Rural 2016

A retomada da energia

Como Raízen, São Martinho e Vale do Verdão superaram a crise e se destacaram no setor

A retomada da energia

safra mais doce: as usinas devem produzir mais açúcar, embaladas pelos bons preços no mercado internacional

Uma recuperação lenta depois de um período de vacas magras, cuja fatura foi a falência de muitos produtores nos últimos anos. Esta seria a legenda da foto de um canavial que representasse hoje o setor sucroenergético no Brasil. Três representantes da indústria, ganhadores setoriais do anuário AS MELHORES DA DINHEIRO RURAL 2016, atestam que a retomada será vagarosa daqui para frente. Campeãs em um levantamento financeiro no setor de Açúcar e Biocombustíveis, a Raízen (líder em Conglomerados), o Grupo São Martinho (empresa de grande porte) e o Grupo Vale do Verdão (porte médio), estão no topo da pirâmide de uma indústria ainda muito vulnerável às políticas públicas e ao cenário internacional. “O setor está se reinventando, buscando novas variedades de cana, ajustando custos, apostando em cogeração de energia com o uso da palha, enfim, fazendo o seu dever de casa para voltar a crescer e gerar empregos”, afirma Antonio de Padua Rodrigues, diretor técnico da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica), entidade que representa 92,8% da moagem de cana-de-açúcar do País. O cenário é de resistência, porque o setor está em crise há cerca de oito anos. Só nas últimas três safras, 20 usinas fecharam as portas, sufocadas por dívidas. Pelas projeções da Unica, na atual safra as usinas devem moer cerca de 605 milhões de toneladas de cana, contra 618 milhões do ciclo anterior. Com um detalhe: o avanço da produção de açúcar frente ao etanol, por uma questão sensível ao bolso das usinas.

Em 2016 o preço do açúcar no mercado internacional subiu, convertido em reais, 52% em relação ao ano passado. Já o etanol anidro, usado na mistura com a gasolina, teve um aumento de 22% no mesmo período no mercado interno, segundo a consultoria Datagro. Luís Hen-rique Guimarães, diretor-presidente do Grupo Raízen, explica que o açúcar no mercado mundial passa por um período de alta, reflexo de um descompasso entre a oferta e a de-manda. “No caso da Raízen, a relação entre a produção de açúcar/etanol tem priorizado o açúcar. Na atual safra, a nossa proporção foi de 59% de açúcar e 41% de etanol.”

RETROVISOR Para entender as entranhas do setor, o sobe-desce de investimentos e preços, dois elementos são considerados chave pelos especialistas: a política pública do governo federal para os biocombustíveis e, consequência desta mesma política, a Petrobras. Fábio Venturelli, CEO do Grupo São Martinho, lembra que quando o petróleo estava acima dos US$ 100 o barril, ainda no primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, período de euforia com as descobertas do pré-sal, havia uma febre de investimentos no setor. “Lembro-me que no início dos anos 2000, as estimativas mundiais, com base em agendas sustentáveis para a diminuição de poluentes, eram de que a demanda seria de 146 bilhões de hectolitros de etanol (1 hectolitro equivale a 100 litros)”, afirma Venturelli. “Hoje, a demanda é pouco mais da metade desse valor.”

Perguntado sobre o que teria dado errado nessa onda de otimismo em pouco mais de uma década no Brasil e no mundo, algo que justificasse o freio na indústria, o executivo da São Martinho é taxativo: a crise global de 2008, deflagrada com a especulação imobiliária nos Estados Unidos, e a queda no preço do barril de petróleo para menos da metade do que valia, capitaneada pela Opep, que congrega os maiores produtores globais de petróleo. “Tudo isto, de certa forma, minou a rentabilidade dos produtores de etanol”, diz Venturelli. “Muitas empresas se endividaram, vendendo seu produto abaixo do custo, sem poder concorrer com a gasolina que tinha um preço monitorado pelo governo.”

A discussão sobre a política de preços dos combustíveis pela Petrobras é antiga, e ainda uma pedra no sapato dos produtores de etanol. Um exemplo desta rusga foi rememorada, quando o preço do petróleo desabou no mercado internacional. Depois de quase uma década represado artificialmente no mercado interno, a Petrobras resolveu enfim repassar parte desta queda de preços às distribuidoras brasileiras. O efeito colateral, porém, não agradou a opinião pública, já que em muitos Estados o preço da gasolina na bomba subiu, em vez de baixar. O vilão, no discurso de um punhado de analistas e representantes do próprio governo, seria o etanol anidro, que é misturado em 27% na gasolina. Com a estiagem e uma safra muito mais propensa à produção de açúcar do que de etanol, “era preciso achar um culpado”, afirma Padua Rodrigues, da Unica. Venturelli, da São Martinho, engrossa o coro de uma culpa indevida ao setor, e emenda que “não falta etanol, não há crise de abastecimento, mesmo a indústria produzindo mais açúcar”.

Em outubro, a Petrobras, sob a gestão de Pedro Parente – que já foi presidente do conselho de administração da Unica e ex-presidente da Bunge, uma gigante na produção de açúcar e etanol –, decidiu fazer algo antes inimaginável. O executivo deu transparência na política de preços da petroleira. Pela batuta de Parente, a Petrobras adota a partir de agora uma política para os preços dos combustíveis que tem como base fatores como a paridade com o mercado internacional, câmbio e custos da operação como frete. Para o diretor-presidente da Raízen, Luís Henrique Guimarães, trata-se de uma vitória. “A decisão da Petrobras, de publicar uma política de preços, é uma evolução positiva e traz mais clareza ao mercado”, afirma Guimarães. “Esse movimento é muito importante para o setor de combustíveis e para o País.”

GESTÃO Dentro da porteira, no canavial e na usina, o controle rigoroso de custos passou a ser algo imperativo para a sobrevivência. “Tudo está ligado a uma boa gestão, ter controle de caixa e não se arriscar mais do que se pode”, diz Sergino Ribeiro de Mendonça Neto, presidente do Grupo Vale Verdão. Dono de 81,8 mil hectares de lavouras de cana em Goiás, o grupo tem uma estrutura bastante diferente dos seus pares. “A cana que processamos é quase toda nossa, em terra própria, o que nos garante um controle muito grande do canavial e dos negócios”, diz Mendonça Neto.

A Vale Verdão, aliás, é uma exceção à regra dos grandes grupos por ter uma estrutura bastante verticalizada, com capital próprio e pouco manejo de cana de fornecedores. “Os donos da Vale Verdão são vistos como colecionadores de escrituras”, diz um especialista da área que prefere o anonimato, ao se referir à formação do conglomerado, basicamente uma extensão da cultura familiar. A Raízen e a São Martinho são modelos distintos, com grandes ramificações e uma logística bem apurada. A Raízen, por exemplo, atua em todas as etapas das cadeias produtiva e logística da produção de etanol e açúcar, com 24 unidades próprias e na distribuição de combustíveis com a rede de postos Shell.

Em comum aos três grupos está o controle de gastos preciso, na ponta do lápis em tempos de crise. Luís Henrique Guimarães, da Raízen, explica que a estratégia comercial e a eficiência operacional permanecem na essência dos seus subordinados. Segundo ele, este é o segredo que “nos torna uma das companhias de energia mais competitivas” do mercado.

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