Carreira

As oportunidades estão nas crises

Como o veterinário Stefan Mihailov, presidente da Phibro Saúde Animal, soube aproveitar as dificuldades na vida profissional, em seu favor

As oportunidades estão nas crises

"Todos nós temos um lado líder, basta que ele seja desenvolvido junto com as pessoas que estão ao nosso redor" diz Mihailov Divulgação

As expressões “pensar fora da caixa” ou “pensar diferente” sempre foram uma espécie de mantras para Stefan Mihailov, médico veterinário formado na Universidade Estadual Paulista, em Botucatu, em 1991. Para Mihailov, elas ainda norteiam suas decisões, agora, como diretor geral da Phibro Saúde Animal, empresa de origem americana que produz aditivos alimentares para serem incorporados às rações de bovinos, aves e suínos. Num momento de economia fragilizada, como o que o País atravessa, pensar diferente pode ser a ponte que permite a travessia das turbulências do mercado. “Os obstáculos são positivos, pois força a pensar fora do rotineiro, buscando a inovação”, diz.

Para Jeffrey Abrahams, sócio da Fesap, consultoria especializada em seleção de executivos, é nas crises que se conhecem os melhores gestores. “Nesses momentos, o gestor precisa aliar a criatividade a uma percepção de mercado muito refinada, com a qual ele poderá identificar o diferencial de seu negócio”, afirma Abrahams. Para o consultor, ser inovador é uma característica de poucos profissionais. “Mas, em geral, aqueles que chegam aos postos de comando têm essa qualidade.”

Em 23 anos atuando no agronegócio, desde que conseguiu o seu primeiro emprego no laboratório da Universidade de Santo Amaro, em São Paulo, Mihailov já passou por várias crises. Duas delas são citadas como educativas, por terem imprimido um rumo à sua carreira. Evidentemente que, nesse meio tempo, a formação acadêmica não foi descuidada. Após a veterinária, ele especializou-se em marketing pela ESPM, em administração de empresas pela Fundação Getúlio Vargas e em governança corporativa pelo IBGC. Não por acaso, há 19 anos, Mihailov atua em cargos de liderança no agronegócio, incluindo posições internacionais nos Estados Unidos e na Itália. “Para mim, a liderança foi algo natural”, diz. “Todos nós temos um lado líder, basta que ele seja desenvolvido junto com as pessoas que estão ao nosso redor.”


Nos dois momentos cruciais em sua carreira, Mihailov diz que a motivação de equipe, foi fator decisivo para que as ideias nas quais apostava saíssem do papel. Na primeira crise, a figura central pode parecer bizarra para quem não é do campo: um besouro chamado rola-bosta, ou Digitonthophagus gazella. Trata-se de um inseto importante para a pecuária, por ser um agente de controle natural da mosca-do-chifre, uma praga mundial detectada pela primeira vez no Brasil, em 1976, que se alimenta de sangue e leva os animais à perda de peso. “No final dos anos 1990, a mosca era um problema muito sério, e passamos a falar do besouro nas apresentações de nossos produtos”, diz ele, que nessa época era diretor de negócios de bovinos na Fort Dodge, hoje, integrada à americana Zoetis.

O trunfo de Mihailov foi descobrir que a molécula de um produto da empresa não era tóxica para o besouro, ao contrário dos produtos de todos os seus concorrentes. Daí foi um pulo para uma campanha nacional de distribuição gratuita do besouro, com o apoio da Embrapa. “Todos abraçaram a ideia. Alavancamos as vendas da Fort Dodge, aliado ao benefício do inseto no campo.” Mihailov trabalhou por 12 anos na empresa, os negócios no País cresceram e o nome rola-bosta nunca foi tão falado como naquela época.

O segundo momento no qual Mihailov se viu em meio a uma crise coincidiu com sua contratação, há cinco anos, para comandar a subsidiária brasileira da Phibro, que vinha trabalhando no vermelho. A sacada de Mihailov foi ver, de imediato, que um dos produtos da empresa, que poderia ser usado pelo gado criado no pasto, era vendido apenas para o gado confinado. A conta é simples: enquanto nos confinamentos estão cerca de quatro milhões de animais, nos pastos há 208 milhões de cabeças, segundo o IBGE. “Perguntei se não poderíamos usar o produto como aditivo no sal mineral, e partimos para as pesquisas que confirmaram a hipótese”, diz ele. Desde que assumiu o comando da Phibro, o faturamento no País triplicou. No mês passado, foi anunciada a receita de 2014: R$ 172 milhões, valor 28% superior a 2013. Globalmente, a companhia sediada em Nova Jersey, cresceu 8% no mesmo período, com um faturamento de US$ 749 milhões.