Economia

Leite Derramado

Embora a oferta interna atenda à demanda da indústria de lácteos, os produtores nacionais se ressentem da concorrência das importações do Uruguai e da Argentina

Leite Derramado

Concorrência: nos primeiros quatros meses deste ano, o Brasil já importou 35% a mais de leite do que no mesmo período de 2011. Com isso, os preços no mercado interno caíram

O velho ditado popular “não chore pelo leite derramado” explica bem o atual momento vivido pela pecuária leiteira, no Brasil. Com as importações de lácteos em alta, produção crescente nas fazendas, consumo estagnado e preços ao produtor em queda, a cadeia leiteira prevê uma séria crise no próximo ano, se nada for feito, com o desestímulo aos produtores e aviltamento de sua remuneração. Neste ano, o Brasil deve atingir uma produção de 32 bilhões de litros de leite, ante os 31,5 bilhões do ano passado. A produção esperada está em linha com o consumo per capita no País, estimado em 160 litros por habitante. Entretanto, o aumento nas importações de lácteos, principalmente do Uruguai, está derrubando os preços pagos pela indústria aos produtores de leite e levando a cadeia a um impasse. “O Uruguai está mandando muito leite para o Brasil, a preços mais baixos do que os do nosso mercado interno”, diz Jorge Rubez, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Leite Brasil), com sede em São Paulo, “É difícil concorrer com isso.”  Nos primeiros quatro meses do ano, o Brasil importou 66,7 mil toneladas de produtos lácteos, um crescimento de 35,2% comparado a igual período de 2011, quando foram importadas 49,3 mil toneladas. Por causa do produto importado, os preços do leite nas fazendas estão praticamente estagnados. Em janeiro deste ano, o litro de leite em São Paulo era cotado a R$ 0,87, em maio foi para R$ 0,89 e no final de junho estava em R$ 0,80, segundo estimativa da Scot Consultoria, de Bebedouro (SP). A partir deste mês, o que parecia ruim, pode ficar ainda pior. É que os ganhos da entressafra, período que começa no fim de maio, estão indo por água abaixo. Nesse período frio do ano, em que as vacas produzem menos leite, o que leva as indústrias a tradicionalmente pagar mais, a expectativa para os preços permanece de queda. O motivo, além das importações de lácteos, é a redução da margem de lucro das indústrias e cooperativas. Para Rubez, da Leite Brasil, no entanto, há mais uma outra explicação para falta de competitividade do setor leiteiro do Brasil neste ano: o alto custo de produção. “Hoje, o custo médio para produzir um litro de leite no País está em R$ 0,85. Ou seja, tem gente pagando para trabalhar”, diz Rubez. “Já os lácteos vindos do Uruguai entram com um valor médio de R$ 0,80 por litro.”

Para tentar barrar a entrada indiscriminada de lácteos no País, a Subcomissão do Leite na Câmara dos Deputados, em Brasília, pretende realizar até o fim do ano pelo menos 12 audiências públicas nos principais Estados produtores de leite, entre eles Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Santa Catarina, para discutir saídas viáveis para o impasse. Segundo Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional da Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), envolvido nas discussões com os deputados, o governo Federal precisa proibir as importações automáticas de lácteos do Uruguai. “Já fizemos um acordo com a Argentina para reduzir a entrada mensal de leite, mas o Uruguai se negou a discutir”, diz Alvim. Nos primeiros quatro meses deste ano, o Uruguai embarcou para o Brasil  3,8 mil toneladas de leite em pó, por mês, volume 26% acima da média do ano passado. Até 2008, a média de importação desse tipo de produto não passava de 400 toneladas mensais. O aumento do comércio internacional, segundo o ministério de Agricultura do Uruguai, se justifica porque a produção interna do país cresceu 20% em 2011, atingindo três bilhões de litros, e deverá crescer outros 22% neste ano. Para Alvim, o Uruguai só está aumentando sua produção porque tem o Brasil como cliente cativo. “Uma população de três milhões de habitantes, como a do Uruguai, não consumiria tanto leite”, diz.

NA MESMA: Argentinos diminuíram os embarques de leite para o Brasil, mas suas vendas de queijos estão 60% maiores neste ano

 

Em 2009, a Argentina e o Uruguai foram convidados pelo Brasil para assinar um acordo de controle nos embarques de lácteos, a fim de proteger a produção brasileira. Na época, a Argentina embarcava para o Brasil, em média, cinco mil toneladas mensais de leite em pó. Após o acordo, passou a enviar três mil toneladas por mês. Em 2010 as cotas argentinas foram ampliadas para 3,3 mil toneladas, e, em 2011, para 3,6 mil toneladas por mês. Os representantes dos produtores nacionais consideram que a Argentina cumpriu parcialmente o acordo. Com a limitação e o controle nas importações de leite em pó, os argentinos intensificaram o embarque de queijos para Brasil. Em 2010, o Brasil comprou do País vizinho 1,6 mil toneladas por mês, volume que aumentou em 60% no ano passado. “O queijo brasileiro tem um custo acima de R$ 10 o quilo”, diz Alvim. “O importado da Argentina entra aqui a R$ 7,5 o quilo.”

 

PRODUÇÃO MAIS CARA: Segundo Rubez, da Leite Brasil (à esq.), o custo para produzir leite no País está na média de R$ 0,85 por litro, enquanto o leite do Uruguai é importado a R$ 0,80 por litro

 

Na última reunião realizada pela Subcomissão do Leite, no começo de maio, foram convocados os ministérios da Agricultura (Mapa), do Desenvolvimento (Mdic), e do Desenvolvimento Agrário (MDA). Entretanto, nenhum deles compareceu à reunião; enviaram apenas representantes. “Os deputados foram duros e falaram que se nada for feito, o movimento deixará de ser pacífico”, diz Alvim. Diante da ameaça nada velada, no dia 23 de maio, o ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, afirmou, em uma reunião da Câmara do Leite, que vai estudar a adoção de medidas para controlar a entrada de produtos lácteos da Argentina e do Uruguai. Segundo ele, as negociações com os países vizinhos estão bem encaminhadas. “Quero discutir ponto a ponto com a minha equipe de trabalho”, disse Ribeiro.

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