Finanças

Logística fora dos trilhos

Um simulador de frete mostra que, surpreendentemente, o transporte ferroviário no Paraná é mais caro do que o rodoviário

Logística fora dos trilhos

Trem na contramão: ferrovias paranaenses custam 12% mais do que os caminhões. Na média do País ocorre o contrário

Em qualquer lugar do mundo, o transporte ferroviário custa menos que o rodoviário, certo? Errado. Um exemplo disso é o que acontece com a movimentação de produtos agrícolas no Paraná, onde o uso do trem custa 12% a mais do que o mesmo trajeto feito por caminhão. No restante do País, ocorre o inverso. Enquanto o modal ferroviário custa, em média, US$ 12 por tonelada transportada, o caminhão cobra US$ 70 – uma diferença de 483%.

O surpreendente – e inédito – resultado do Paraná foi revelado graças a um estudo batizado de Projeto Jamaica, encomendado pela Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep), há um ano. O levantamento, elaborado pelo Grupo de Pesquisa e Extensão em Logística Agroindustrial (Esalq-Log), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP), analisou as tarifas ferro-viárias e rodoviárias para as culturas agrícolas de soja, milho, açúcar, etanol e fertilizantes em território paranaense. “O Paraná tem duas concessionárias, a ALL e Ferroeste, que administram as estradas de ferro do Estado”, diz Priscilla Biancarelli Nunes, coordenadora da Esalq-Log e responsável pelo projeto. “Em razão da falta de concorrência, elas estipulam os preços que julgam melhores para elas”. O resultado final do estudo só será revelado neste mês.

“Em razão da falta de concorrência, as concessionárias estipulam seus preços” Priscilla Biancarelli Nunes coordenadora da Esalq-Log

 

Para chegar a essa informação, a Esalq criou um simulador de frete. O objetivo do simulador é analisar a relação entre as 22 cooperativas e empresas participantes do Projeto Jamaica, as concessionárias das ferrovias e a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), órgão que regulamenta o transporte rodoviário. Pelo simulador, a Esalq-Log também concluiu que o frete ferroviário no Paraná representa 71% da “tarifa teto” estabelecida pela agência. Para José Vicente Caixeta Filho, também responsável pelo projeto, a ANTT deve revisar logo esse valor. “É um teto inflacionado”, diz Caixeta.

A ANTT divulgou, em 2011, que renegociaria os contratos tarifários e ofertas de serviços na recuperação de trechos ferroviários abandonados no Brasil para este ano. A promessa é de redução das tarifas em até 15% no preço-teto. Em 1997, o órgão regulador assinou contratos de concessão em que ficaram estabelecidos os preços em vigor até hoje. Normalmente o produtor paga mais caro pelo transporte rodoviário no resto do País. Isso ocorre, principalmente, pelo alto preço do combustível, os pedágios e a manutenção dos veículos. Para piorar, a frota brasileira de caminhões é envelhecida, com idade média superior a 20 anos, o que encarece o frete dos produtos agrícolas. Mas, pela avaliação da Esalq, o Paraná foge à regra.

O motivo disso pode estar também na concessão sem concorrência das duas ferrovias do Estado. Em primeiro lugar, os pesquisadores trabalharam com a ALL, maior empresa de serviços de logística da América do Sul e que opera 2,1 mil dos 2,3 mil quilômetros de ferrovias do Paraná. Depois, com a Ferroeste, empresa que tem o governo do Estado como seu maior acionista, a principal rota é a ligação de Guarapuava até Cascavel, um trecho de 243 quilômetros. Para a Esalq-Log, os gastos logísticos na exportação dos grãos podem comprometer até 40% da receita do produtor.

O Paraná depende dos grãos como soja e milho. É o segundo maior produtor do País, e representa 20% do plantio. A produção brasileira é de 160 milhões de toneladas. Em complemento ao estudo, a Esalq fez visitas in loco a duas gigantes do segmento de soja, Bunge e Cargill. No total, as empresas e cooperativas do estudo correspondem a aproximadamente 75% do total de grãos produzidos pelo Paraná.