Finanças

Tem boi no pregão, mas é manso

Preços mais previsíveis reduzem o volume e as oscilações do mercado futuro de produtos agropecuários

Tem boi no pregão, mas é manso

Tradicionalmente imprevisíveis como se estivessem em uma arena de rodeio, os contratos futuros de boi gordo negociados na BM&FBovespa têm se comportado com a placidez de um rebanho que pasta no fim da tarde, ao pôr do sol. “Esse mercado está chato”, diz Ivan Wedekin, diretor da bolsa responsável pelas commodities. “A volatilidade de preços tem sido muito baixa.” Não por acaso, essa entressafra de sustos fez o volume negociado emagrecer 28% nos cinco primeiros meses do ano, em comparação com o mesmo período de 2011. Em termos financeiros, a queda é ainda maior. O valor de face em dólares dos contra tos futuros de boi gordo recuou 39%. Um cenário mais previsível e uma mudança na estratégia dos produtores contribuíram para a placidez nos pregões.

No caso específico do boi gordo, a redução teve três motivos – um financeiro e dois de mercado. No lado puramente financeiro, a queda do valor foi provocada pela apreciação de mais de 33% da moeda americana em relação ao real, nos 12 meses até junho, o que reduz o valor dos contratos. Os motivos não financeiros foram a queda de 4,2% no preço médio da arroba do boi gordo no mercado físico – segundo cálculos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), ligado à Universidade de São Paulo – e a adoção de uma atitude mais conservadora por parte do produtor. “Muitos já fecharam as vendas e definiram preços e quantidades no início do ano, o que reduz a necessidade de buscar proteção no mercado futuro”, diz Rafael Ribeiro de Lima Filho, zootecnista da Scot Consultoria, empresa de Bebedouro, no interior de São Paulo.

Com graus de intensidade variados, esse cenário de calmaria, em comparação com 2011, repetiu-se para os demais contratos futuros agropecuários. O volume entre Janeiro e maio de 2012 foi de 847,3 mil contratos, uma queda de 3,6% em relação à cifra do mesmo período de 2011. Segundo Wedekin, a baixa ainda reflete a retração das operações de arbitragem financeira no mercado de café, em que investidores com apetite por risco procuram ganhar dinheiro com as diferenças entre os preços do café no mercado brasileiro e nos pregões internacionais. Em outubro de 2009, na esteira da crise financeira, o governo lançou uma alíquota de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 6% sobre essas operações, para desestimular a arbitragem. “Com isso, os investidores estrangeiros, que respondiam por cerca de 35% das posições em aberto no mercado de café, deixaram de operar, e esse percentual caiu para 2%”, diz o executivo. A decisão foi revista em dezembro de 2011, mas o volume de negócios ainda não se recuperou. Para Wedekin, o fato de os preços do café terem caído mais de 40% nos 12 meses até Maio também não ajuda. “Perdemos um participante estrutural importante  no mercado, e só agora começamos a perceber um movimento de recuperação”, afirma.