Negócios

A nova safra do café

Jovens empreendedores do sul de Minas Gerais estão mudando a cadeia dos produtos especiais, mercado que movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano no Brasil

A nova safra do café

Sangue novo: os amigos (da esq. para a dir.) Caio Fontes, Jacques Carneiro, Luiz Paulo Pereira e Hélcio Jr. ampliam os negócios de grãos finos

Quando chegou apressado para a sessão de fotos desta reportagem, o empresário Jacques Pereira Carneiro, não tinha a menor ideia do que aconteceria. Mas não parecia preocupado. O encontro com os amigos Hélcio Carneiro Pinto Júnior, Caio Alonso Fontes e Luiz Paulo Pereira Filho com certeza se transformaria em confraternização na pequena Carmo de Minas (MG). O quarteto, na faixa dos 30 anos, ao mesmo tempo em que se ajeitava para as lentes, discutia ideias e até trocava figurinhas sobre seus negócios. Juntos, eles formam a novíssima safra de empreendedores no ramo de cafés especiais e contribuem com 40% de um mercado que movimenta R$ 1 bilhão por ano no País. “Os jovens são mais abertos a cooperar uns com os outros, a dividir e discutir ideias”, diz Pereira Carneiro. Até pouco tempo atrás, a atividade cafeeira era coisa da roça. “Hoje, estar no mercado de cafés especiais é ‘chique no úrtimo’”, diz Pereira Filho.

Os jovens empresários estão reinventando o jeito de produzir e comercializar café. Eles adotaram uma administração empresarial e estão quebrando paradigmas. São descendentes de famílias com origem rural, algumas delas em colônias de café nascidas nos séculos XIX e XX. Mas construíram suas vidas em grandes cidades, onde estudaram, se capacitaram tecnicamente e eram totalmente urbanos quando decidiram investir em empreendimentos rurais. “Conseguimos informações valiosas sobre fornecedores, clientes e tendências de consumo”, diz Pereira Carneiro, 33 anos, administrador, economista e sócio-proprietário da Carmo Coffees. A empresa exportadora nasceu para comercializar os cafés especiais produzido pela família. Fundada em 2005, vende por ano 35 mil sacas para o Japão, Canadá e os Estados Unidos, entre outros países.

Uma dama entre os valetes

Junto ao quarteto carmolense está um quinto elemento, uma jovem que há quatro anos caiu de amores pelos grãos de café. No seu caso, foi a vaidade que falou mais alto. E veio recheada de bons negócios. Vanessa Vilela, 33 anos, farmacêutica e bioquímica, na vizinha Três Pontas, investiu nas propriedades dos cafés especiais para o uso cosmético. Em 2007, criou a Kapeh. “O grão é certificado e vem das fazendas da própria família”, diz Vanessa. Sabonetes, hidratantes, gel pós-barba e outros produtos fazem parte do portfólio. Além do investimento de R$ 300 mil, Vanessa contou com a ajuda de pesquisas, parcerias e instituições de ensino superior, como a Universidade Federal de Lavras (MG). Hoje, seus produtos são distribuídos em farmácias de manipulação e cafeterias, em mais de 300 pontos em cidades do Sul, Centro-Oeste e Sudeste.

 

O primo e sócio Pereira Filho também está na parada de desbravar o mercado internacional. “Incentivamos nossos pais a continuar na exploração dessa cultura e fizemos o trabalho da porteira para fora”, diz Pereira Filho. Ele descobriu um mercado prazeroso, até mesmo para o seu networking. E brinca: “Imagine uma cidade como Carmo de Minas, com apenas 14 mil habitantes, ser projetada para o mundo.” Pereira Filho iniciou sua trajetória empresarial aos 17 anos, apaixonado pelos verdes cafezais ao acompanhar os pais na lida das fazendas Serrado e Grupo Sertão, ambas em Carmo de Minas. Aos 30 anos, neste início de 2011, se tornou o presidente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, sigla em inglês), entidade destinada a promover e a difundir os grãos especiais mundo afora.

A 23ª Feira de Cafés Especiais, o principal evento do setor, realizada nos meses de abril e maio em Houston, nos Estados Unidos, é um exemplo do potencial de mercado. A estimativa é de US$ 3 milhões em negócios fechados pelos brasileiros durante a feira e de US$ 23 milhões em negócios que devem ser levados adiante, em contratos futuros.

Sucesso: as novas formas de comercialização realizadas pelos cafeicultores mineiros estão quebrando paradigmas no segmento de grãos especiais no País, que produz 1,5 milhão de sacas. Metade é destinada para a exportação

A nova geração ingressou até mesmo no ramo de maquinários. Ao terminar o curso de administração, Alonso Fontes, 32 anos e fundador da Café Store, descobriu um outro nicho. Em 2010, com investimento inicial de R$ 1 milhão, fundou uma loja virtual que oferece acessórios, além de mais de 200 tipos de cafés gourmet. O site tem uma média mensal de faturamento de R$ 55 mil e a expectativa de crescimento, ao longo de 2011, é de 10% ao mês.

Foi também graças ao grão especial que Pinto Júnior, de 29 anos, pôde expandir para todo o País as operações de sua empresa, a Unique, que faturou R$ 1,2 milhão em 2010. Há dez anos, Pinto Júnior, cuja família está há quatro gerações no ramo, decidiu investir no segmento. “Antigamente a gente só trabalhava com a matéria-prima, mas há cinco anos iniciamos o beneficiamento dos grãos”, diz. O preço do café especial é, no mínimo, 50% superior ao produto tradicional. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Café (Abic), o País produz 1,5 milhão de sacas de cafés finos, metade destinada à exportação. O Brasil detém cerca de 10% de participação deste mercado no mundo. Para a BSCA, a expectativa de crescimento gira em torno de 20% ao ano.

Juntos eles produzem

Carmo Coffees:

Fundada em 2005, tem oito empregados e comercializa 35 mil sacas especiais, vendidas nos mercados internacionais.

Unique:

Com um faturamento de R$ 1,2 milhão, a empresa produz blends diferenciados, entre eles o Blend Unique, Frutado Unique e Cítrico Unique, direcionados ao mercado interno.

Café Store:

Inaugurada em dezembro de 2010, a loja virtual oferece mais de 200 tipos de cafés gourmet e também acessórios para a preparação da bebida.

Kapeh:

Com 300 pontos de vendas no País, a empresa já tem proposta de exportar hidratantes, óleo e perfumes para Austrália, África e Estados Unidos.