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A Aviação decola no campo

A indústria aeroagrícola embarca na expansão das lavouras brasileiras e se torna uma importante aliada do produtor

A Aviação decola no campo

Prosperidade no céu, sucesso na terra: a aviação agrícola brasileira cresce a um ritmo de 8% ao ano e possui a segunda maior frota do mundo

A primeira vista pode parecer um show aéreo de acrobacias, mas se trata de uma importante etapa do manejo das lavouras brasileiras: a pulverização por meio de aviões. Embora não seja uma novidade tão recente nos campos do País, a aviação agrícola é, cada vez mais, uma prática recorrente e rentável para o agronegócio nacional. Os rasantes desses aviões nas plantações acontecem com uma frequência cada vez maior por duas razões especiais: tempo e custo. Diante do avanço das fronteiras agrícolas do País e do cultivo de áreas gigantescas em territórios antes intocados pela agricultura, a aviação é uma ferramenta indispensável – e, obviamente, mais eficiente em comparação ao trator. “Crescer na lavoura é indissociável do uso da aviação, seja para buscar produtividade por meio de adubação, seja para proteger a cultura contra pragas”, afirma Bruno Vasconcelos, diretor-executivo da Sana Agro Aérea, da cidade de Leme, no interior de São Paulo.

Se o crescimento da agricultura em terra firme pede mais aviões no campo, a expansão do tráfego aéreo nas lavouras brasileiras também possibilita o rápido avanço das plantações. Enquanto um trator pulveriza cerca de 100 a 200 hectares por dia, pelo ar é possível atingir de mil a 1,2 mil hectares, o que pode aumentar significativamente a extensão territorial de plantio. “A rapidez no tratamento de grandes áreas em curtos espaços de tempo, a precisão nas aplicações, a economia de água e a redução das perdas por amassamento tornam o custo-benefício da aviação agrícola maior comparado a outros métodos”, diz Nelson Antônio Paim, presidente do Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola (Sindag). Segundo cálculos do sindicato, uma simples equação matemática endossa a vantagem da utilização de aviões nos plantios. A pulverização aérea e a terrestre têm aproximadamente o mesmo custo operacional de R$ 14 para cada hectare. Embora tenham custos semelhantes, a pulverização terrestre causa perdas maiores. Por exemplo: numa produção média de 50 sacas de soja por hectare, os danos por amassamento – em decorrência do trânsito dos tratores sobre a lavoura – podem chegar a representar 3% da área plantada e causar um prejuízo de R$ 67,50 por hectare, valor suficiente para quase cinco aplicações aéreas de insumos sobre o local.

 

Bruno Vasconcelos: “Crescer na lavoura é indissociável do uso da aviação, seja para buscar produtividade, seja para proteger contra pragas”

 

A explicação matemática pode parecer confusa, mas se torna simples e didática quando os agricultores colocam os resultados na ponta do lápis – e, assim, passam a enxergar o avião como um grande aliado. Essa é uma das razões para o aumento constante da frota nacional, que, nos últimos quatro anos, cresceu 87% em número de unidades. Das quase 14 mil aeronaves que sobrevoam o território brasileiro, 1.663 são agrícolas, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), órgão responsável pelos registros e licenças de uso desses equipamentos na atividade rural. O número de aviões já faz do País o segundo colocado no ranking mundial, atrás apenas dos Estados Unidos que, segundo estimativas do Sindag, têm cerca de cinco mil aviões agrícolas em operação.

 

Preços semelhantes, resultados distintos: a pulverização terrestre ou aérea custa, em média, R$ 14 por hectare, mas o avião reduz as perdas

 

Na frota brasileira de aviões agrícolas, reina quase absoluto o modelo Ipanema, fabricado pela veterana Neiva, subsidiária da Embraer, instalada em Botucatu, interior paulista. Hoje, seu modelo representa 64% das aeronaves nos campos do País. “O mercado está muito aquecido e temos percebido uma demanda cada vez maior”, afirma Wilibaldo Rangel de Sá, diretor da Cavok Aviação, representante da Neiva, no Rio de Janeiro.

O executivo, que vende cerca de 12 unidades por ano, explica que parte do sucesso é atribuído às novas linhas de crédito para o setor. Um Ipanema movido a etanol, que chega a custar R$ 730 mil, pode ter até 100% do seu valor financiado pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social por meio do Programa BNDES de Sustentação do Investimento – PSI. “A 5,5% de juros ao ano, o retorno do investimento na compra de um avião é de aproximadamente dois ou três anos para os grandes produtores”, diz Rangel de Sá. “A facilidade no manuseio da aeronave e também na aquisição fizeram com que muitos empresários do campo olhassem para os aviões agrícolas com outros olhos, com muito mais interesse.”

 

Nelson Paim: “A agricultura brasileira tem condições de dobrar de tamanho. É um grande potencial para o setor aeroagrícola”

 

Toda essa facilidade está expressa nas estatísticas. De acordo com o Sindag, baseado no atual ritmo do setor, a aviação agrícola deve cresce 8% ao ano nos próximos anos. Mas o avanço é pequeno comparado ao espaço ainda não explorado por essas aeronaves. Segundo Nelson Paim, os aviões pulverizam 20% da lavoura do País, uma área de 22 milhões de hectares. “O Brasil tem um território a ser manejado para a agricultura de 96 milhões de hectares, quase o dobro do que é utilizado hoje”, afirma Paim. “Portanto, o segmento aeroagrícola tem muito potencial de crescimento.”

Mas como atingir níveis mais altos não depende só de espaço físico, o diretor-executivo da Sana Agro Aérea, Bruno Vasconcelos, prefere avaliar esses dados com mais cautela. A empresa possui 13 aviões. Nos últimos 12 meses, pulverizou 460 mil hectares, um aumento de 30% em relação ao mesmo período anterior. Na safra 2011/ 2012, a Sana ultrapassou os R$ 10 milhões de faturamento. No entanto, com a depreciação das commodities e o inevitável efeito sobre a renda do campo, Vasconcelos afirma que pretende apenas manter a eficiência das operações, sem se arriscar na turbulência do crescimento a qualquer custo. “Com as incertezas econômicas no mundo, no Brasil e na agricultura, me preparo para manter os resultados e estar pronto para o crescimento que, acredito, voltará com força daqui a uns dois anos”, diz ele.

Crise internacional à parte, para os mais otimistas o que vai definir esse voo constante da aviação agrícola é o comportamento das lavouras brasileiras. “Nos próximos anos, para as culturas da laranja e da cana-deaçúcar, bem como para as extensivas áreas de reflorestamento industrial, deverá acontecer um significativo aumento do número de aplicações de produtos defensivos químicos e biológicos”, diz Manoel Lobo, engenheiro agronomo e consultor em tecnologia de aplicação de agroquímicos. Sua previsão se baseia no esperado crescimento dos territórios de plantio e, com ele, o surgimento de insetos e o desencadeamento de doenças fúngicas e bacterianas. “Nas regiões atingidas por tais desequilíbrios, as aplicações aéreas emergenciais encontrarão um mercado certo, principalmente porque as perdas de produtividade por ataques rápidos e severos podem superar bilhões de dólares ao ano”, afirma o especialista, que acredita que as aeronaves são, por enquanto, o único meio eficaz, preciso e seguro na hora de reduzir o tamanho do prejuízo com as pragas.