Negócios

Gotejamento milagroso

A tecnologia desenvolvida nos desertos de Israel ganha espaço nas lavouras brasileiras

Precisão: o gotejamento permite que a planta receba a quantia exata de água para o seu desenvolvimento

BRASIL entre os cinco maiores: lista inclui EUA, Índia, Israel e México

Versátil: o sistema pode ser usado em parreirais (foto ao lado), no cultivo de hortaliças, cana-de-açúcar, etc.

O engenheiro israelense Simcha Blass poderia ter usado a célebre palavra grega dita por Arquimedes ao descobrir a lei do empuxo: “Eureca!”, que significa “eu descobri”.

A grande descoberta de Blass se deu no kibutz de Hatzerim, comunidade israelense em que a produção e a renda são coletivas, localizado em pleno deserto. Nessa região a chuva não ultrapassa 200 milímetros ao ano, o que sempre obrigou a população a construir reservatórios com água do rio Jordão.

No entanto, a tubulação destes tanques começou a apresentar vazamentos e, onde gotejava água, começava a crescer plantas. Blass observou o fato e logo viu a grande oportunidade. Na sequência, começou a desenvolver vários equipamentos que deram origem ao popular sistema de irrigação por gotejamento, uma tecnologia que revolucionou a agricultura em Israel.

Simples e extremamente preciso, esse tipo de irrigação aumenta significativamente a produtividade e promove a utilização racional da água: a eficiência uso do recurso hídrico é de 95%, com economia de energia. A explicação está no uso de bombas de baixa vazão que consomem 50% menos energia que os outros sistemas.

Além disso, a economia de água é de 60%, se comparada aos outros métodos. Mas a grande tacada foi atrelar a irrigação com a fertilização, criando a nutri-irrigação. A planta não recebe água apenas, mas água com adubo na medida certa para o seu desenvolvimento.

Isso explica por que a Netafim, com 44 anos de existência, tem o robusto faturamento de US$ 650 milhões. Presente em 120 países, a empresa vê hoje o Brasil como alvo estratégico. “Ele já está entre os top five, que inclui EUA, Índia, Israel e México, e tem potencial para ser o primeiro em cinco anos”, diz Marcelo Baratella, gerente de contas executivas da Netafim em solo nacional. Atualmente, a Netafim tem 14 fábricas no mundo, sendo uma delas em Ribeirão Preto.

A unidade tupiniquim é a plataforma de exportação da israelense para a América do Sul. No momento, as vendas em solo brasileiro representam apenas 10% do faturamento global. Mas as operações no País têm crescido 30% ao ano, nos últimos cinco anos.

Os três Cs – café, cana-de-açúcar e citrus – são as culturas de maior relevância para a companhia. Em cana-de-açúcar, o maior projeto é da usina Seresta, que tem como sócio Teotônio Vilela, governador de Alagoas. São 1.500 hectares de plantação com irrigação localizada por gotejamento subterrâneo.

O fato de ser subterrâneo é um diferencial para não atrapalhar a colheita mecanizada. Há também projetos de grande porte em outras áreas, como a silvicultura. Um exemplo é a MMX, do empresário Eike Batista, que tem 550 hectares irrigados de eucalipto em Mato Grosso do Sul. E a demanda não para por aí.

“Temos clientes produtores de hortaliças, melão, uva e até de açaí”, diz Baratella. E a boa notícia é que ainda há muito espaço para crescer. Segundo a Câmara Setorial de Equipamentos e Irrigação da Abimaq, associação que reúne as empresas do segmento, o Brasil tem quatro milhões de hectares irrigados, sendo que metade utiliza o sistema de inundação, método com alto consumo de água.

Na Índia, só a área de cana-de-açúcar corresponde a toda área irrigada do Brasil. Aqui, as lavouras irrigadas da gramínea não ultrapassam 250 mil hectares. Contraditório? Sim, mas a explicação está no alto custo (ver tabela).

“O problema é que o agricultor pensa no curto prazo e esquece dos financiamentos. O aporte inicial não é nada barato, mas o retorno é rápido. Com o aumento da produtividade, em um ano ele paga o investimento”, finaliza Baratella.