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O chapéu do agronegócio

Os principais candidatos já têm uma bandeira definida. Mas será que vão conseguir chegar ao eleitor do rural e fazer a diferença para o campo?

O chapéu do agronegócio

Simpatia: candidatos tentam ganhar a confiança de eleitores em eventos agropecuários

Dilma Rousseff (PT) dirigiu um trator recentemente. José Serra (PSDB) posou para fotos com um belo chapéu na cabeça – diga-se, um chapéu promocional da DINHEIRO RURAL em plena Agrishow. Ambos não sabem muita coisa do agronegócio, mas têm se cercado de especialistas a fim de cultivar as mentes e os corações de homens e mulheres do campo. Em jogo, há cerca de 26 milhões de votos, segundo cálculo da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil. Desprezar tal contingente seria como não se importar com todos os votos da capital paulista e seus arredores, ou seja, o maior colégio eleitoral que se tem notícia no País.Por isso, ambos os candidatos têm gastado sola de sapato a fim de sensibilizar o eleitor do campo e, para tanto, colocam em ação uma verdadeira tropa de choque que tem trabalhado duro nos bastidores de uma campanha que, oficialmente, ainda nem começou. Candidato por uma vaga ao Senado representando Mato Grosso, o ex-governador Blairo Maggi é um dos entusiastas da campanha de Dilma Rousseff. Embora seja dono de grande cacife político e influência em seu Estado, suas ambições primeiras apontavam para uma vaga como vice-presidente. Mas como Mato Grosso não agrega um grande número de votos, o rei da soja foi convidado para ser um dos coordenadores de campanha da candidata governista. Segundo o que apurou nossa reportagem, o Planalto observa em Maggi o elo entre Dilma e o campo. Empresário de sucesso, seria dele a missão de estruturar as bases de um plano de governo para o setor.

Os dois principais candidatos têm procurado apoio com lideranças do agronegócio

Ele aceita a proposta? “Estou concentrado em minha campanha, mas com certeza estou à disposição da ministra Dilma, candidata que apoio à sucessão do presidente Lula”, disse à DINHEIRO RURAL. Do lado de Serra também há pesospesados com bastante influência, a exemplo da senadora Kátia Abreu, presidente da CNA. Filiada ao DEM, ela tem sido a pedra no sapato do governo. Ora atuando como senadora, ora como presidente da CNA, ela tem protagonizado cenas inusitadas. Numa delas, entregou a Serra e Dilma, os dois juntos, o resultado de um estudo encomendado pela entidade que dirige. Em pauta, as principais reivindicações do setor ao próximo presidente, seja ele quem for. De um lado, um Serra que era só sorrisos. Do outro, uma Dilma quase constrangida. O episódio aconteceu durante uma feijoada oferecida pelo empresário e pecuarista Jonas Barcellos, durante a Expozebu 2010, no mês passado, em Uberaba (MG).

O fato é que Kátia Abreu, autora da “brincadeira”, apoia José Serra, cujo partido, o PSDB, possui uma coligação histórica com o Democratas, antigo Pfl.

 

 

 

Quem é quem nos bastidores

 

Nas bases da campanha, outros nomes aparecem com força. João Sampaio, secretário de Agricultura, tem sido um competente cabo eleitoral. “Nunca votei no Serra, mas o João me convenceu”, diz Sérgio Bueno, produtor de cana em Morro Agudo e de soja no Tocantins. Por outro lado, Otaviano Pivetta, megaprodutor do soja em Mato Grosso, está com Dilma e não abre. “O presidente Lula já é um exemplo e a sua candidata vai continuar o incrível trabalho que tem sido feito”, avalia.

No campo do candidato tucano, ainda há outros reforços como “Chico” Graziano, ex-secretário de agricultura de São Paulo, que é um dos coordenadores de campanha. Com bom trânsito entre produtores de laranja, pecuaristas e cafeicultores é um reforço importante. Do outro lado, Dilma tem o apoio de Guilherme Cassel, ministro do Desenvolvimento Agrário e que carrega um caminhão de votos de pessoas ligadas a movimentos sociais nem sempre simpáticos à agricultura profissional. “A Ministra Dilma é a candidata para continuar o trabalho de democratização da terra em que o governo Lula conseguiu avanço”, diz Rolf Hackbart, presidente do Incra e ex-líder sem-terra.

Mesmo com uma vitória convincente em sua reeleição, o presidente Lula recebeu um recado: perdeu em Estados cuja atividade é prioritariamente agrícola.

26 milhões de votos rurais estão em disputa nas eleições deste ano

Entre eles, Rio Grande do Sul, Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em São Paulo, por via das dúvidas, Lula chamou o exministro Antônio Palocci, ex-prefeito de Ribeirão Preto, para articular o apoio entre usineiros de sua região. Mesmo sem oferecer muitos votos, o setor é conhecido como um bom financiador de campanha e, numa disputa que promete ser bastante acirrada, qualquer centavo a mais é bem- vindo. “O setor tem que se organizar e precisamos eleger os nossos candidatos”, diz o presidente da Sociedade Rural Brasileira, Cesário Ramalho.

Estar envolvido na campanha é o primeiro passo, segundo o presidente da Associação Brasileira dos Citricultores, Flávio Fiegas. “Nos Estados Unidos, por exemplo, a influência dos agricultores no Congresso é enorme e no Brasil isso já não é verdade”, avalia. De acordo com Haroldo Cunha, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), a importância econômica do agronegócio deve estar representada tanto no Executivo quanto no Legislativo. “Isso faz parte do jogo e acredito que vamos chegar lá.” Enquanto os setores se organizam, levará a melhor aquele que melhor representar os interesses do setor, que pode ser decisivo nas eleições de outubro. Agora, quem quiser, que faça a sua aposta.