Negócios

O rebelde da pecuária

Ricardo Merola, presidente da poderosa Assocon, quer mudar a forma de nogociar boi gordo no Brasil. Com 500 mil cabeças sob seu controle, ele tem um plano que pode mudar a vida de sua fazenda

 

Opecuarista Ricardo de Castro Merola é um sujeito inquieto. Em 1995, enquanto aguardava pelo seu voo na sala de espera do aeroporto de Congonhas, ele apanhou um jornal para passar o tempo. Assim que bateu os olhos na primeira página, levou um baita susto. Ali o empresário tomou conhecimento de que a Perdigão titubeava entre a mineira Pato de Minas e a sua terra, Rio Verde (GO), para sediar sua nova fábrica. Sem se conformar com a possibilidade de que sua cidade viesse a perder algo tão importante, passou a mão no telefone e ligou para um amigo dos tempos de faculdade. O homem em questão era nada menos do que Nildemar Secches, então presidente da Perdigão. “Alô, Nildemar, meu amigo, gostaria de te convidar para um churrasco aqui na minha fazenda, no sábado.” Do outro lado da linha, o colega confirmou a visita, e para lá partiu no dia marcado. Depois de várias fatias de picanha de primeira e de boas risadas ao relembrar os bons tempos da amizade, os argumentos de Merola convenceram Secches de que Rio Verde era o local ideal para a Perdigão. Agora, Merola quer usar sua inquietude para uma missão que extrapola sua cidade de Goiás e ganha todo o Brasil. Ele quer fazer frente ao movimento de concentração de frigoríficos na pecuária, colocar pequenos e médios frigoríficos numa posição privilegiada e fazer com que os criadores fiquem menos expostos a possíveis combinações de preços. Para tanto, o pecuarista conta com a força de estar na presidência da Assocon, poderosa associação de confinadores que mantém um total de 500 mil cabeças de gado para abate por ano, o que representa 20% do gado confinado no Brasil. “Sempre falaram que os pecuaristas eram desunidos, mas agora vamos mudar essa história.” Ele, que confina 30 mil cabeças ao ano, diz que pode mudar a forma como se compra e vende boi no Brasil e, quem sabe, até mesmo a vida econômica da sua fazenda.

 

 

 

 

Rebanho: a Assocon tem o poder de abater 500 mil cabeças de gado por ano, em oito Estados

Os planos de Merola começaram assim que um estudo encomendado pela Assocon chegou às suas mãos. Nele, constavam mais de 700 frigoríficos, muitos em boa situação financeira e estranhamente localizados em regiões dominadas por Marfrig e JBS. Esses dois grandes frigoríficos respondem por cerca de 15% do total de abates no Brasil e muitas vezes, por serem mais organizados, acabam abafando a atuação de empresas menores cuja capacidade para encontrar fornecedores não chega aos pés dos dois gigantes. “O poder de negociação dessas duas empresas é muito grande, principalmente porque os frigoríficos pequenos e médios não conseguem chegar até o fornecedor e os pecuaristas acabam nas mãos dos maiores”, explica.

Segundo ele, os frigoríficos que ficam com os outros 85% dos abates sofrem para completar suas escalas e chegam a pagar até 7% a mais por arroba. Em épocas de margens apertadas, essa pode ser a diferença entre o lucro e o prejuízo.

750 frigoríficos estão espalhados pelo país e ainda assim, jbs e marfrig dominam o mercado

 

“Sem malandragem. Só isso”

Ricardo de Castro Merola, presidente da Assocon, quer revolucionar o setor e acabar com a “malandragem” dos preços. Para isso, buscou tecnologia.

DINHEIRO RURAL – Como surgiu a iniciativa de criação dessa plataforma de negociação?

RICARDO MEROLA – Em 2001, eu já havia tentado fazer isso, sozinho. Fui lá com meu gado, ofertei e num primeiro momento foi ótimo. Mas cometi o erro de deixar o leilão aberto por muito tempo. Os frigoríficos entraram, mas depois, foram conversando uns com os outros e saíram todos juntos, me deixaram sozinho lá.

DR – E agora o sr. acha que vai ser diferente?

RM – Com certeza, porque já vamos começar o sistema com a adesão de 52 confinadores que têm capacidade de abater 500 mil cabeças por ano. O que aconteceu no passado foi uma experiência para não errarmos agora. O leilão será semanal e ficará aberto das 10 às 16 horas. Mais que isso, é erro.

DR – Foi fácil convencer os confinadores de que o sistema pode dar certo?

RM – Sim, todos estão fartos de trabalhar no escuro e procurando uma forma de se aproximar dos médios e pequenos frigoríficos, que juntos têm uma força gigante.

DR – O sr. teme algum tipo de retaliação dos grandes frigoríficos?

RM – Pode ser que sim, mas não há motivo para isso, até porque o sistema vai nivelar o mercado como um todo. Nossa plataforma é uma evolução do sistema de compra e venda de boi no Brasil.

 

 

 

 

 

Para resolver a questão, Merola está desenvolvendo um gigantesco sistema de banco de dados que colocará pecuaristas e frigoríficos separados por um clique. O sistema estará disponível na internet e será conectado à BMF&Bovespa. Uma vez por semana, haverá leilões, em que todas as informações dos animais estarão disponíveis. O frigorífico que pagar mais por lote leva a boiada. O gado é pesado e o dinheiro depositado numa conta da Bolsa de Mercados & Futuros. “O gado só é entregue depois que a compra foi finalizada, assim não corremos risco de calote.”

 

 

 

 

 

 

“Frigoríficos pequenos e médios têm dificuldade de achar o criador, mas seu poder de compra é gigante”

 

 

 

 

 

Vizinhos: confinamentos poderosos quase sempre estão ao lado de frigoríficos menores, em áreas dominadas pela concentração

Péricles Salazar é o presidente da Associação Brasileira dos Frigoríficos. Ele representa o interesse de 750 diferentes processadoras de carne bovina e acredita que a ideia de Merola tem tudo para ser um sucesso. “Em algumas regiões, como Mato Grosso, por exemplo, os grandes grupos compraram a maioria das plantas, mas em Estados como São Paulo e Goiás há uma grande pulverização de plantas médias e pequenas que o criador nem mesmo sabe que estão ali tão próximas da propriedade e se pressa em vender aos outros para garantir o negócio”, diz.

Segundo ele, diminuir a distância entre pecuaristas e abatedouros é algo de mútuo interesse. “A concentração existe e essa talvez seja a única forma de combatê-la, justamente fomentando a concorrência”, analisa. Merola confirma: “Tem frigorífico que vai buscar o gado em uma propriedade distante até 500 km, enquanto tem criador ali do lado e ninguém sabe. Parece absurdo, mas é a mais pura verdade.” O novo sistema permitirá o cadastro dos criadores, que fornecerão todas as informações sobre o seu gado como peso, idade, localização e ascendência. Isso permitirá o cadastro dos frigoríficos, que descreverão que tipo de gado precisam naquele momento. “Ambos poderão enxergar o mercado todo através do computador”, resume Merola. “O frigorífico verá onde tem o gado que ele precisa e qual o preço do lote. Enquanto isso, o criador ofertará o gado em leilões realizados semanalmente, das 10h às 16h.”

Enquanto o primeiro leilão não acontece, o presidente da Assocon busca mais aliados junto aos principais sindicatos rurais e a corrida parece estar surtindo efeito. “Qualquer ferramenta que torne viável a ampliação do leque de compradores vale a pena diante da concentração industrial que presenciamos”, acredita o pecuarista Abel Leopoldino, de Água Boa, em Mato Grosso. Sua fazenda, a Califórnia, está em um polo dominado pelo Marfrig.

 

 

 

 

No bolso: a diferença de até R$ 5 paga por alguns pode representar o lucro ou o prejuízo, em épocas mais apertadas

“Antes dessa concentração, eu chegava a abater sete mil cabeças por dia. Hoje, não passamos de 3,5 mil”, lamenta. Salazar acredita que o sistema é viável e fortalecedor para o setor como um todo, desde que a adesão dos criadores seja grande. “Os frigoríficos vão atrás do criador, e não o contrário. Se todos eles estiverem lá, mostrando seu gado, certamente terão retorno. Mas será que todos vão aderir?”, questiona. A resposta vem rapidamente, também em forma de pergunta. “Será que os frigoríficos vão aderir?”, faz a pergunta-resposta o confinador Alberto Pessina, de Lençóis Paulista (SP), que engorda seis mil cabeças.

Para começar o seu plano, o pecuarista uniu-se a uma empresa de tecnologia para criar a poderosa ferramenta de compra e venda que funcionará através da internet e que pode colocar um fim ao antigo sistema baseado em ligações telefônicas e em relações de confiança que nem sempre são recíprocas. Coincidência ou não, a empresa que desenvolveu o banco de dados, a 3T Media Solution, é de propriedade de um interessado no assunto, o confinador J.Hawilla, mais popular como empresário da comunicação e do esporte do que como criador de gado, o que já demonstra a união da classe e interesses comuns. Hawilla é dono da Traffic, empresa dona de boa parte dos jogadores da elite do futebol nacional. Acostumado com o duro jogo de negociações em que a confiança é uma palavra quase esquecida, ele se vê otimista. “Os frigoríficos querem acabar com a fama de inimigos do pecuarista e vice-versa. Precisamos ser parceiros e, em muitos casos, já somos. Um precisa do outro para a constante abertura de novos mercados e consolidação dos já existentes”, define J. Hawilla. Para Luiz Ricardo Queiroz, diretor-executivo da 3T Media e braço direito de Hawilla, as coisas já andam bem. “O projeto saiu de uma conversa informal, mas com fundamentos extremamente interessantes para o mercado”, diz. “Achamos que teríamos algum problema para convencer todos os 52 associados da Assocon, mas assim que eles entenderam não pensaram duas vezes.” “Está na hora de mudar o sistema, de modernizar e de democratizar. Não podemos continuar presos a determinados grupos, aqueles de sempre”, diz Merola. Segundo ele, está havendo uma “corrida no escuro” em que os pequenos e médios frigoríficos chegam a pagar até R$ 5 a mais por arroba porque não conseguem encontrar o criador e este, por sua vez, se vê obrigado a vender sempre para os mesmos grandes frigoríficos. “É corrida de pega-pega no escuro.”

 

 

 

 

 

A plataforma de comercialização criada por Queiroz terá o primeiro leilão no dia 15 de junho, durante a Feicorte, em São Paulo. Ainda que haja uma grande adesão de confinadores e frigoríficos, os preços, hoje em torno de R$ 79, não devem sofrer grandes alterações. “O que define o preço do boi são outros parâmetros”, diz Alex Lopes da Silva, da Scot Consultoria. “O que se espera é transparência e maior confiabilidade de ambas as partes nos mecanismos de comercialização, para acabar de vez com essa relação de brigas que existe entre criadores e fornecedores. Mas a formação do preço é definida pela demanda e exportações, e não pela forma de comercialização no mercado interno. No entanto, se isso der muito certo, pode ser que o mercado se ajuste”. Sérgio De Zen, agrônomo e analista da Cepea/Esalq defende novas formas de comercialização, mas é cético.”Sou um entusiasta deste projeto, mas sou cético em todos os sentidos porque sei o tamanho da resistência do setor, conheço a complexidade das pessoas do meio e suas relações. No entanto, a iniciativa traz transparência e democracia a todo o sistema”, diz. “Os preços porém, não têm ligação nenhuma com isso e vão continuar dependendo de oferta e demanda.” Mas Salazar discorda: “Existe uma relação de oferta e demanda, e a falta de concorrência puxa os preços para baixo”, analisa.

Para Roberto Gianetti da Fonseca, presidente da Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec), a concentração é um fato. Porém, ele acha que a capacidade de formação de preço é limitada. “Os 17 frigoríficos que compõem a Abiec são responsáveis por 80% das exportações e 15 milhões de cabeças abatidas, ou seja, 30% do mercado”, diz. “Os outros 70% estão pulverizados entre pequenos e médios frigoríficos, então que concentração é essa?”, questiona. Para ele, os mais prejudicados são justamente os grandes pecuaristas que entregam lotes superiores a 300 cabeças por vez. “Esses realmente têm de entregar para empresas maiores, visto que os pequenos não têm capacidade de abater”, pondera.

Mas o que dizem os grandes frigoríficos? Tanto Marfrig quanto JBS preferiram não se pronunciar a respeito do assunto quando procurados por nossa reportagem. O JBS alegou estar em período de silêncio e, portanto, sujeito a sanções da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) caso desse algum tipo de declaração. O Marfrig, por sua vez não retornou os questionamentos enviados pela reportagem de DINHEIRO RURAL. Há menos de dez anos, a pecuária brasileira viveu um momento delicado, quando grandes frigoríficos foram acusados de cartel, o que gerou um processo no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Mesmo com o assunto já superado, algumas cicatrizes ficaram daquele tempo. Sem citar diretamente o ocorrido, Merola acredita que nada é capaz de colocar fim na mais justa das regras de mercado: a oferta e a demanda. “Sabemos que é o consumo, mas se pudermos ajudar, facilitando a concorrência, não teremos nada a perder”, afirma. Há, inclusive, movimentos de mercado que clamam por uma mudança no sistema de comercialização em que o pecuarista recebe por quilo de carne e não por arroba de carcaça. Mas isso já é história para outra revolução.