Negócios

Os fazendeiros da USP

Professores universitários administram uma fazenda de pecuária no Paraná e provam que o melhoramento genético pode ser muito lucrativo

Os fazendeiros da USP

Negócios: Gonçalves administra todas as atividades comerciais da propriedade rural, desde o ano 2000

Londrina, a mais importante cidade do Paraná, nem de longe pode ser considerada uma grande produtora de bovinos, mas detém o título de polo de genética pecuária do País e abriga um dos mais importantes redutos de criação de bovinos de corte, a fazenda Figueira. Voltada à pesquisa agropecuária e à difusão do conhecimento científico, a fazenda pertence à Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz (Fealq), entidade ligada à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo. “Aqui nós realizamos estudos práticos sobre como transformar a pecuária tradicional em uma atividade sustentável e rentável”, diz José Renato da Silva Gonçalves, administrador da fazenda Figueira. A propriedade pertencia ao ex-aluno da Esalq Alexandre Von Pritzelwitz, que a doou à Fealq, em Fevereiro de 2000, um mês anterior ao seu falecimento. Entretanto, as condições impostas por Von Pritzelwitz em seu testamento para que a escritura fosse repassada a Fealq determinavam que se fizesse dela um centro de pesquisas agropecuárias que servisse de referência para os produtores rurais, aliado à aplicabilidade prática. Além disso, nenhuma melhoria na fazenda poderia ser realizada com verbas externas, ou seja, o investimento teria que sair das atividades comerciais com a pecuária. A área foi doada à Fealq por tornar mais fácil a administração da propriedade. A instituição é privada e funciona como uma administradora dos bens da Esalq.

Assim que a fazenda Figueira, com 3,7 mil hectares, foi doada à Fealq, uma comissão formada por professores da Esalq foi enviada à propriedade para fazer um levantamento dos bens deixados, entre eles a quantidade de animais, estruturas e condições gerais. Na época, a fazenda possuía 2.190 hectares ocupados com pastagens, 400 hectares de áreas de preservação permanente, 900 hectares de reserva legal e 210 hectares com instalações diversas, como estradas, armazéns, áreas de confinamento e residências. O plantel bovino era de duas mil cabeças na ocasião. Segundo Gonçalves, o estado da propriedade era lastimável à época da doação. “A fazenda estava tomada por plantas invasoras, como o limãocravo, e as pastagens estavam em completa degradação”, diz. “Von Pritzelwitz amava cuidar de sua fazenda, mas no final da vida já não tinha condições para isso”, diz Gonçalves.

 

Mais em menos: a fazenda produz três vezes mais bois por hectare que a média brasileira 

Assim foi criada, em abril de 2000, a Estação Experimental Agrozootécnica Hildegard Georgina Von Pritzelwitz, em homenagem à mãe de Alexandre. A criação da estação foi a saída encontrada pelos professores da Esalq para separar as atividades comerciais da fazenda dos experimentos científicos. “A estação limita o uso de uma pequena parte da fazenda para pesquisas”, diz Gonçalves. “Caso os resultados obtidos sejam positivos, aplicamos em larga escala.” Definidos os parâmetros para as pesquisas, a tarefa seguinte não seria nada fácil: transformar uma fazenda degradada e descapitalizada em uma propriedade modelo. Assim, o primeiro desafio dos professores, responsáveis por retomar a sustentabilidade da fazenda, era eliminar as plantas invasoras que tomavam grande parte dos pastos. A solução encontrada por Gonçalves e pelo professor Moacyr Corsi, da Esalq, um dos responsáveis por iniciar os estudos de reestruturação e amigo próximo de Von Pritzelwitz, foi a parceria com a empresa americana Dow Agroscience, que atua na área de agroquímicos usados para o controle dessas plantas.

Segundo Corsi, além das plantas invasoras roubarem os nutrientes do solo e tomarem o lugar das braquiárias, as plantas com espinhos, ou folhas pontiagudas, como os limoeiros encontrados em grande quantidade na fazenda Figueira, restringiam o acesso do animal ao pasto. “Os bovinos ficam a dois metros de distância da planta invasora e o capim nessa área cresce demais, degradando o pasto rapidamente”, diz Roberto Risolia, gerente para novos negócios na linha de pastagens da Dow Agroscience. O custo médio para limpar a pastagem variou de R$ 200 a R$ 240 por hectare. Além disso, os pastos ainda receberam adubação e manejos adequados para que ampliassem a produtividade de carne por animal.

Ao todo, o processo de recuperação da fazenda só foi concluído em 2005, após a reforma das instalações, com melhorias como a abertura dos acessos e vias, a limpeza das áreas de pastagens, o estabelecimento de áreas para produção de grãos e a promoção da qualidade de vida das famílias que trabalhavam ali. Tudo isso foi bancado com dinheiro gerado na própria fazenda. “Essa é a forma de mostrar na prática como a bovinocultura de corte pode ser economicamente viável, socialmente justa e ambientalmente correta”, diz Corsi. Terminada a reforma, a fazenda era outra. A área de pastagem foi reduzida para 1.850 hectares e a fazenda ganhou 350 hectares para cultivar soja, milho, trigo e sorgo. A quantidade de animais nos pastos mais do que dobrou na época, e chegou a cinco mil bovinos. Mas, o processo de aprendizagem ainda não estava completo, e no segundo semestre daquele ano o Paraná foi interditado para exportações de carne bovina, em razão de suspeitas de febre aftosa. Esse problema fez com que os preços da arroba despencassem de R$ 70 para menos de R$ 20. Com isso, o administrador Gonçalves foi obrigado a cessar os investimentos e segurar os animais na fazenda. Foi um retrocesso: somente em 2008, o Estado foi considerado livre do problema, mas naquele momento a fazenda estava exatamente como fora encontrada em 2000, com pastagens degradadas e dois mil animais no campo. “Foram precisos mais cinco anos para nos recuperar”, diz Gonçalves. “Isso mostra que se o pecuarista não investir, terá problemas.”

 

PRAGA: para Risolia, eliminar plantas invasoras reduz a degradação dos pastos

 

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Atualmente, a fazenda Figueira está com um plantel de bovinos de cinco mil cabeças, o que representa 2,7 animais por hectare, três vezes acima da média brasileira de 0,8 animal por hectare, e o dobro do vigente à época em que a fazenda foi doada. Os planos para 2015 incluem a ampliação do rebanho para seis mil cabeças, que deverão chegar a oito mil em 2020. Gonçalves sabe que somente com a melhoria da pastagem essa meta é praticamente inatingível. “Vamos aumentar a utilização de suplementação, com sal mineral”, diz.