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Uma colheita plástica

O Brasil já é o país que mais recicla embalagens tóxicas em todo o mundo, mas ainda há espaço para aumentar o recolhimento em favor da natureza

Uma colheita plástica

banco de imag ens inpEV

Reutilizando: o Inpev desenvolveu a primeira embalagem 100% reciclada para transporte de produtos perigosos

Imagine um grupo agrícola que plante 38 mil hectares de algodão e soja. Some-se a isso 1.000 galões de 20 litros de pesticidas usados a cada mês. Feitos os cálculos, no final de uma safra, além da colheita, a produção inclui também cerca de sete mil embalagens cujo destino é certo: a devolução para os fabricantes e a reciclagem. É exatamente isso que os funcionários das fazem. “Mandamos para os fabricantes cerca de mil embalagens lavadas ao mês”, conta Alexandre Ferreira Pevidor, gestor ambiental da empresa que conta com 70 unidades em todo o Estado. De lá, as carretas levam as embalagens até uma das 412 unidades de recebimento ligadas ao Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (Inpev), que nasceu em 2002 e hoje conta com 83 associadas, entre elas a Basf. “Ficaria muito mais dispendioso para os fabricantes, distribuidores e agricultores atender à legislação se não existisse o Inpev”, explica Roberto Araújo, diretor de marketing da Basf para a América Latina, em referência à Lei Federal 9.974 de 2000 que obriga o recolhimento das embalagens vazias de agrotóxicos. Esse trabalho transformou o Brasil em referência mundial, já que recolhe 90% das embalagens plásticas usadas no campo, enquanto o Canadá retira 70%, seguido pela Alemanha, com 65%.

Desde que o Inpev nasceu, foi investido pela cadeia produtiva algo em torno de R$ 380 milhões para ampliar o funcionamento do programa, que já recolheu 136 mil toneladas de embalagens em unidades coletoras de todo o país, sendo que só no primeiro trimestre deste ano já foram 6.915 toneladas, volume 21% maior do que o do mesmo período do ano passado.

 

6.915 toneladas de embalagens recolhidas em três meses

 

 

 

Hoje, o Brasil é referência mundial no recolhimento e reaproveitamento das embalagens plásticas para acondicionar produtos perigosos. Desde 2002, o inpev é um dos grandes responsáveis por esse trabalho

 

Hoje, cerca de 90% das embalagens comercializadas no País são retiradas do campo. “Antes disso, elas eram incineradas, o que gerava custos ao meio ambiente”, conta João César Rando, diretor-presidente do instituto. E quanto custo! Estudo feito pela Fundação Espaço Eco entre 2002 e 2008 mostra que, com a reutilização das embalagens de agrotóxicos e fertilizantes, 164 mil toneladas de CO2 deixaram de ser emitidas, o que equivale a 374 mil barris de petróleo ou 816 mil árvores que deixaram de ser cortadas.

Para que essa reutilização seja possível, os produtores recebem a indicação da unidade para a devolução das embalagens, que devem ser lavadas e ter o fundo perfurado. Das unidades coletoras, elas vão para o Inpev, onde são separadas. Aquelas autorizadas são reaproveitadas na fabricação de artigos como conduítes elétricos e embalagens como a Ecoplástica Triex, desenvolvida pelo próprio Inpev.

“É a primeira embalagem 100% reciclada a ter certificado para o transporte de produtos perigosos”, comemora Rando. Quem também comemora é Pervidor. “O Inpev é de extrema importância para nós que trabalhamos com lavoura.” A importância do trabalho do instituto é tamanha que serviu como referência ao Ministério da Agricultura na elaboração da Política Nacional de Resíduos Sólidos, aprovada em março deste ano e que reforça a lei de 2000 sobre lavagem e devolução de embalagens. Legislação que segundo Rando coloca o Brasil entre os pioneiros a regulamentar esse tipo de produto. “É uma lei muito inteligente porque distribui as responsabilidades para todos. Somos um dos poucos países a ter esse tipo de lei específica.”