Estilo no Campo

Tamanho não é Documento

Os minianimais estão cada vez mais conquistando os brasileiros. O próximo pode ser você

Quem visita o rancho Micro Pig, em Ibiúna, município da Grande São Paulo, certamente terá a impressão de estar desembarcando em Lilliput, a ilha em que o aventureiro Gulliver chegou após o seu barco naufragar em alto-mar, como conta o escritor irlandês Jonathan Swift, no livro As viagens de Gulliver. Ao acordar em terra firme, Gulliver se depara com um mundo em miniatura, como acontece a quem visita o rancho Micro Pig. Os animais medem e pesam em torno de 50% de suas versões originais, como as minivacas das raças jersey, holandesa e girolando. Segundo Rogério Rokitzki, veterinário responsável pelo Micro Pig, esses animais raramente ultrapassam um metro, com peso entre 150 e 200 quilos, mas chegam a produzir entre cinco e dez litros de leite por dia. “A relação entre peso e produção é excelente”, diz Rokitzki. “A não ser pelo tamanho, são animais como outro qualquer.” O mesmo acontece com as minigalinhas das raças coxim, brahma e sebright. Assim como as de tamanho-padrão, elas também botam ovos, mas reduzidos à metade. “Normalmente, donos de chácaras e sítios de lazer procuram esses animais como pets de estimação, como se fossem cães e gatos”, diz Flávia Alcarpe, dona do Micro Pig. “Mas é possível aproveitar o leite e os ovos e até mesmo comercializá-los.”

No rancho de quase um hectare há outros animais em versões miniatura, entre eles marreco, mandarim, coelho, cabra, pônei e, claro, o porco, animal que dá nome à propriedade. Foi ele, o microporco – ou pig, em inglês –, o ponto de partida do negócio. Flávia, gaúcha de Santa Maria, administra o rancho juntamente com o marido, Roberto. Ela conta que em 2010, quando se casou, levou na bagagem do Rio Grande do Sul para São Paulo a sua miniporca de estimação. “Aonde eu ia, ela estava comigo”, diz Flávia. “Os passeios ao Parque do Ibirapuera eram uma sensação.” O sucesso dos passeios, que incluíam visitas à loja de aquários que Roberto mantém em Alphaville, condomínio de luxo na região metropolitanade São Paulo, aumentou tanto que acendeu nos dois a ideia de recriar os animais. E, pasmem, no apartamento em que morava, o casal mantinha ainda um minigalo e um cão de grande porte. O empreendimento doméstico durou apenas seis meses. “Meu minigalo cantava tanto de madrugada que incomodava os moradores”, diz Roberto. “A solução foi comprar a chácara.”

A partir daí, as caminhadas do miniporco e as visitas à loja de aquário se tornaram uma vitrine a chamar a atenção de potenciais clientes. “A procura por esses animais só tem aumentado nos últimos anos”, diz Roberto. Para Flávia, não foi difícil começar o negócio. Criar minianimais já vem de família. Ela conta que desde criança convive com esse universo diminuto. “Meus avós criavam vacas leiteiras da raça jersey, que, por natureza, são de porte pequeno”, diz. “Foi com essa raça que surgiu a ideia de cruzamento em busca das versões mínis.” Até hoje, os pais de Flávia mantêm na propriedade do Sul do País os cruzamentos em busca de espécies cada vez menores. “O cruzamento entre animais de uma mesma família aumenta a probabilidade de se ter a característica míni”, afirma oveterinário Rokitzki.

De acordo com o veterinário, não há manipulação do gene do nanismo nos animais do Micro Pig. “São cruzas normais”, diz. “Até há quem faça a manipulação genética, mas o custo é altíssimo.” Segundo Flávia, um filhote desses não sairia por menos de R$ 40 mil. “Não compensa”, diz. Os porcos do Micro Pig, por exemplo, custam entre R$ 750 e R$ 1,5 mil. Os animais, que na idade adulta pesam entre 30 e 40 quilos, são de cruzamentos feitos entre as raças vietnamita, kune kune, da Nova Zelândia, e cerdo enano, do Uruguai. “Já conseguimos porcos menores que os dos americanos, que há muito mais tempo apostam nesse nicho de mercado”, diz Flávia. “A pedido, estamos formalizando documentos para enviar um dos nossos porquinhos aos Estados Unidos.” Nos últimos anos, esse tipo de animal ganhou espaço nos lares de famílias americanas e europeias, especialmente depois que o ator George Clooney, o jogador de futebol David Beckham, a socialite Paris Hilton e a atriz Reese Witherspoon apareceram em público com os seus miniporcos de estimação. “As pessoas se encantam com os focinhos e patinhas miúdas dos filhotes”, diz Flávia.

De olho nesse mercado, o projeto de Roberto e Flávia é diminuir cada vez mais o tamanho dos animais. Segundo Roberto, o próximo passo será investir em transferência de embriões, com animais criados em barrigas de aluguel. Com a técnica, é possível usar nos cruzamentos machos e fêmeas cada vez menores. “Como as fêmeas menores podem ter dificuldade para parir, com a transferência de embrião o problema acaba”, diz Roberto. “Mas o principal ganho é ter um maior número de filhotes por fêmea.” Como a técnica da transferência de embrião requer infraestrutura e aparelhos de alto custo, o casal está em busca de parcerias com faculdades de veterinária. “O nicho é interessante. Os parceiros vão aparecer”, acredita Roberto.