Entrevista

Greg Meyer, Head Global de Agricultura Digital na Syngenta

A Covid-19 pode acelerar ainda mais o processo de digitalização do campo

Divulgação

A Covid-19 pode acelerar ainda mais o processo de digitalização do campo

Da Suíça, Greg Meyer lidera a implementação da nova frente global de negócios da Syngenta focada em tecnologia e serviços digitais. Para ele, o produtor rural brasileiro está entre os mais arrojados do mundo

Lana Pinheiro
Edição 06/07/2020 - nº 175

Diz a literatura que o homem passou da condição de caçador-coletor para agricultor há cerca de 10 mil anos. De lá para cá, algumas evoluções marcaram a atividade. A grande maioria levava o investimento para o campo: a criação do trator, a hibridização das sementes, e os avanços da biologia. Com o século 21, a agricultura vive a revolução da ciência de dados que acontece no escritório e traz novos conhecimentos, nova linguagem e novos talentos para dentro das fazendas. Profissionais de tecnologia de informação estão sendo incorporados pelo mundo agro e precisam aprender sobre safras, grãos e pesticidas, enquanto o profissional do campo passou a conviver com conceitos como inteligência artificial, business analytics e learn machine. O desafio de digitalizar o campo é enorme e tão relevante que a Syngenta resolveu assumir de vez esse propósito e lançou, no Brasil, sua unidade global totalmente focada em tecnologias e serviços digitais. Mas por que lançar aqui a Syngenta Digital e a plataforma de produtos agora batizado como Cropwise? “Porque o produtor brasileiro está entre os mais arrojados do mundo”. Este foi um dos argumentos usados pelo líder do projeto Greg Meyer, Head Global de Agricultura Digital na Syngenta, que conversou com a DINHEIRO RURAL, direto do seu home office na Suíça.

RURAL – Estamos em um momento extremamente atípico da economia global, vendo uma pandemia se alastrar por diversos países. Como a Syngenta está avaliando os impactos no agronegócio mundial?
MEYER – De um lado, achamos que pode haver o crescimento de um movimento nacionalista de proteção alimentícia. O resultado pode ser o aumento de demanda por produtos locais. Mas, o que deve prevalecer é o hábito já adquirido pelo consumidor de ter acesso a grande diversidade de alimentos. A Europa não vai excluir a banana do cardápio e não vai produzi-la em grande escala, então algumas medidas de segurança serão tomadas. É neste aspecto que a Covid-19 pode acelerar ainda mais o processo de digitalização do campo.

RURAL – De que maneira?
MEYER – Antes da pandemia havia agricultores mais tradicionais que falavam: “Por que preciso de imagem via satélite, se tenho funcionários que me dizem tudo o que está acontecendo?”. Mas, com o isolamento, precisaram testar novas ferramentas e mudaram o discurso para: “Uau, agora consigo enxergar coisa que não via antes”. Esperamos um aumento significativo da tecnologia no campo no mundo pós-pandêmico.

RURAL – A pandemia está quebrando paradigmas no campo?
MEYER – Uma vez que as pessoas experimentam ferramentas digitais, a tendência é que elas continuem usando. Nós fizemos alguns estudos com produtos da Stryder (empresa de agricultura digital adquirida pela Syngenta em 2018) e o que vimos é que no primeiro ano de compra, o uso da ferramenta é baixo. No ano seguinte, após a fase de aprendizagem, o tempo dobra. No terceiro ano, dobra de novo. A Covid-19 forçou os produtores mais conservadores a testarem novas plataformas e isso vai impulsionar a adoção das novas tecnologias no mercado. Inclusive as nossas.

RURAL – Já há algum indício que comprove essa mudança de comportamento?
MEYER – Quando olhamos os dados de acesso da nossa plataforma Stryder, observamos aumento de 400% no uso da ferramenta, comparando maio de 2020 com maio de 2019. Boa parte do fluxo é de agricultores e outra parte de profissionais que assessoram o produtor rural e que hoje estão usando muito mais as imagens de satélite para ajudar remotamente seus clientes.

RURAL – A revolução digital que o agrobusiness está vivendo pode ter na pandemia um terreno fértil para crescer. Mas, ela começou há alguns anos. O que mudou?
MEYER – Os fazendeiros têm uma rede de pessoas em quem confiam e historicamente era dali que ele tirava insumos para decisões. Mas, conforme a agricultura vai ficando mais complexa, estão começando a confiar no conhecimento que está fora dessa rede local. Hoje são tantas variáveis que é difícil para qualquer agrônomo, veterinário ou produtor gerenciar tantas informações. É aqui que computadores, estatísticas e Inteligência Artificial entram para fazer um trabalho muito mais detalhado do que qualquer humano é capaz.

RURAL – Quando falamos de dados, o setor não corre o risco de cair na mesma armadilha de várias outras indústrias: o que fazer com tanta informação?
MEYER – Esse é o segredo que muitos fazendeiros procuram: os insights. Agora que entendem melhor o que está acontecendo, o que devem fazer de diferente? Muita tecnologia do passado coletava os dados e os entregava ao produtor para que ele os interpretassem. O produtor não quer um drone mandando 500 imagens para o computador. Ele quer uma tecnologia que dê este resultado: “Nós achamos que você pode ter um problema de drenagem nessa parte do campo, você tem de tomar tal providência”. Se dado é petróleo, os fazendeiros querem a gasolina. É isso que a Inteligência Artificial é boa em fazer: refinar o material bruto e dar algo que é realmente útil para eles.

RURAL – Estamos entrando na era da ciência dos dados também na agroindústria?
MEYER – Sim. O mundo está mais complexo e só uma gestão eficiente de dados vai possibilitar, por exemplo, atender tantos requisitos diferentes por parte dos clientes. Eu vivo na Europa e para cada país daqui o exportador brasileiro precisa obedecer a normas e especificações distintas. A China continuará colocando mais regulamentações para os produtos que importa. É a tecnologia que permitirá aos produtores da América Latina ou dos Estados Unidos provarem que fizeram o que tinha que ser feito. Quem tiver tecnologia ganhará mercado do competidor que usa como argumento o “confia em mim”.

RURAL – Na guerra da balança comercial, o diferencial será o poder tecnológico?
MEYER – Não só quando o assunto é exportação. Deter tecnologia será essencial também para defender o mercado interno. Nos Estados Unidos oferecemos ferramentas digitais de rastreabilidade nas mãos dos produtores que trabalham com as grandes companhias de cereais como Kellogg’s. Essa tecnologia registra quais pesticidas foram usados, o jeito que o produto foi cultivado, quando foi colhido e permite que a empresa mostre isso para seus consumidores. Na Alemanha, onde as regras do uso de pulverizadores são extremamente rigorosas, colocamos uma etiqueta digital no herbicida com todas as instruções sobre a pressão que precisa ser usada, a velocidade de pulverização a uma distância mínima de locais como rios, por exemplo. O pulverizador lê isso de maneira automática e quando o processo acabar fica registrado que o agricultor não interferiu no processo. Esse monitoramento comprova ao comprador que aquele produto está em rigor com os protocolos vigentes, sejam eles quais forem.

RURAL – O senhor liderou o projeto Syngenta Digital. Como foi a construção dessa nova frente global de negócios focada em tecnologias e serviços digitais?
MEYER – Nos últimos cinco anos, fizemos quatro aquisições relacionadas à agricultura digital. No Brasil, compramos a Stryder, empresa focada em soluções de gerenciamento operacional para lavouras. Fizemos movimentos similares também nos EUA, onde o legado das nossas ferramentas digitais é muito forte em rentabilidade de fazendas e sustentabilidade. Na Europa e Leste Europeu temos soluções voltadas ao gerenciamento de ativos, utilização e rastreamento de tratores. Na China, a Syngenta tem capacidade significativa de ajudar pequenos fazendeiros. Esses movimentos fazem parte de um trabalho para pivotar nossas capacidades nos permitindo agregar tecnologias cada vez mais relevantes ao agricultor, consolidando nosso pilar de inovação para grandes, médios e pequenos produtores.

RURAL – Mesmo com uma presença global vocês escolheram o Brasil para lançar a Syngenta Digital. Por que decidiram lançá-lo primeiro aqui?
MEYER – Primeiro porque o Brasil é um dos principais mercados da Syngenta no mundo. Hoje o país tem cerca de 4 milhões de fazendeiros, 63% já usam o software da Stryder, então o que nós vemos é essa oportunidade para o mercado em massa. Além disso, a agricultura brasileira já é bastante relevante e está em um momento importante devido ao conflito Estados Unidos e China. Vale acrescentar que os fazendeiros brasileiros são um dos mais progressivos, mente aberta e sofisticados do mundo, eles realmente estão interessados em entender como conseguir vantagem competitiva usando tecnologia.

RURAL – Como funcionará o guarda-chuva de serviços da nova área?
MEYER – O portfólio de serviços foi rebatizado de Cropwise e é uma nova versão da Stryder, mas com a incorporação de vários atributos que obtivemos a partir da aquisição de outras empresas. Assim juntamos o lado forte de aferição da Stryder, com ferramentas que adquirimos com a Farm Shots, empresa que usa imagens de satélite da alta resolução para medir a saúde da planta por meio da análise da quantidade de luz que ela absorve, e da Cropio, solução de software que fornece imagens, manutenção de registros e rastreamento. Neste novo produto, unimos os vários ativos digitais para simplificar a plataforma, facilitando a usabilidade e aumentando a sofisticação tecnológica na gestão das produções.

RURAL – Quanto foi o investimento?
MEYER – O total que investimos no Agropecuário Digital no mundo gira em torno de US$ 50 milhões a US$ 100 milhões, a maior parte desse volume este ano vai para a América Latina.

RURAL – Quais serão os próximos passos da Syngenta Digital?
Meyer – Depois de lançar o Cropwise na América Latina, vamos levá-lo para França, Alemanha e Reino Unido. Em 2021, para o Leste Europeu.

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