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Negócios01/11/2021

A era dos leilões digitais

Ingrid Biasioli
Texto por:Ingrid Biasioli01/11/21 - 13h05min

A MODA ANTIGA

Quarta-feira, dia 18 de março de 2020. A partir daquele dia ficava proibida a realização de qualquer evento no País como uma das medidas para o controle da crise sanitária provocada pela Covid-19. Mesmo que necessária e primordial para salvar vidas, a decisão trouxe uma série de questionamentos sobre os impactos na economia. No agro, um setor altamente dependente de relações interpessoais e de (até então) eventos presenciais, a dúvida era como atividades como os tradicionais leilões de animais iriam se comportar diante da realidade imposta. Passado um ano, a resiliência do setor surpreendeu. Ao migrar 100% dos encontros para o formato digital, algumas leiloeiras viram o faturamento crescer 80%. Resultado: com pandemia ou não, os leilões virtuais vieram para ficar.

O flerte dos leiloeiros com a tecnologia para ganhar escala, no entanto, não é novo. Desde sua fundação, em 1997, a Central de Leilões já transmitia os eventos via televisão e há oito anos se aventurou também no Youtube. Em 2016, nova etapa com o lançamento do aplicativo Central Leilões, o que garantiu a retransmissão em uma plataforma desenhada para o celular. Nesse contexto, a mudança provocada pela pandemia foi a nova escala que os leilões virtuais ganharam. “Alguns criadores se renderam de vez à tecnologia e isso foi ótimo. Antes, eles faziam algo mais regional”, disse Lourenço Campo, diretor-presidente da empresa. Agora, não há fronteiras que limitem a participação. Outros ganhos foram a redução de custos e a agilidade nas transações, que passaram a acontecer com mais frequência em plataformas como WhatsApp.

Ao fazer a migração de 100% das ações para o ambiente on-line e diante da agenda da Central já lotada – foram 156 leilões em 2020 e outros 106 até agosto de 2021 –, Campo teve que colocar a mão no bolso, mesmo sem saber se a aderência justificaria os gastos. “Tivemos que investir muito em tecnologia e em profissionais da área”, disse. Como quem aposta alto, pode colher alto, o resultado compensou. “Não tivemos impacto negativo. Pelo contrário”. De acordo com o executivo, a empresa alcançou um faturamento de R$ 221,9 milhões no primeiro semestre deste ano, valor 80% maior do que no mesmo período de 2020. Claro que o preço da arroba do boi, que ultrapassou R$ 300, contribuiu para o desempenho, mas sem a estrutura para atuar no digital feita, o valor do produto não teria valido de nada. “O cenário global trouxe giro e liquidez de venda para o nosso negócio, mas tivemos que intensificar o tipo de trabalho que já estávamos prestando”.

Faturamento da Expozebu em 2021 chegou a R$ 67,5 milhões

BENEFÍCIOS Responsável pela organização de 500 leilões no ano passado e 600 neste, Paulo Horto, presidente da empresa Programa Leilões, exalta os benefícios do novo modelo.“Ele possibilita o ganho de amplitude, além de ser bem mais econômico”, afirmou. Dentre os custos economizados estão aluguel com arena, montagem de palco, transporte de todos os participantes, além do deslocamento e acomodação dos animais. Mas assim como no caso do seu concorrente, Horto teve que investir. Para atender a demanda, precisou montar mais dois estúdios, que se somaram aos dois espaços de gravação que já possuía. Tudo em um prazo de 40 dias. A rapidez impediu que qualquer evento fosse cancelado. “O agro não para”, afirmou.

“[O leilão virtual] possibilita o ganho de amplitude, além de ser bem mais econômico para todos”
O entusiasmo de Horto incentivou o negócio em família. Ainda em 2014, inspirado pelo pai, João Victor Caputo Horto fundou a Remate Web. Com poucos concorrentes no mercado quando a pandemia chegou, o empreendedor nadou de braçada. Em 2020, foram transmitidos e retransmitidos 708 leilões. De janeiro a junho deste ano, foram 534. E a meta é ultrapassar os 900 até dezembro. “O comprador pode fazer todo o processo de onde quer que esteja. Facilitamos e agilizamos o ‘link’ entre o cliente comprador e vendedor”, disse. Como praxe do mercado, a participação dos bovinos nos leilões da companhia é bem maior do que a de outros animais, respondendo por 90%.

Há, porém, quem olhe para esses quase menosprezados 10% do mercado. Desde 2014, a XR Leilões comercializa equinos de maneira on-line, via aplicativo e site. O fundador, Xande Ramos, que também é criador e treinador de cavalos de rédeas há mais de 25 anos, conta que a pandemia reforçou o interesse dos vendedores e compradores a participarem via digital. “As pessoas compraram a ideia muito facilmente, principalmente agora. Hoje, 95% das participações são pelo celular”, afirmou. Em 2020, foram feitos 60 leilões, e neste ano a meta é igualar o número de eventos.

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Tamanha oferta só se justifica porque existe demanda. Mario Eduardo Ferreira Júnior, engenheiro agrônomo de Presidente Prudente (SP) e participante assíduo de leilões de touro desde os anos 2000, defende que os modelos on-line são o melhor jeito de comprar. “Prefiro assim. Os eventos são mais organizados e assertivos. Fora a comodidade de poder acompanhar de qualquer lugar”, afirmou. Ele também reforça que a qualidade das informações melhorou, aumentando as chances de negócios mais rentáveis. “Nos eventos presenciais não tínhamos tantas informações sobre o animal que queríamos adquirir. Hoje, temos muito mais”, disse.

O FUTURO De acordo com Campo, da Central Leilões, mesmo com o sucesso das plataformas digitais, que deve se manter mesmo após o fim da pandemia, ainda haverá espaço para eventos tradicionais. “A parte social do leilão é muito importante. Sem dúvidas eles voltarão às nossas agendas”, afirmou. Paulo Horto, da Programa Leilões, concorda. “Alguns eventos de perfil presencial, como a Expozebu, que têm uma aderência maior de pessoas de todo o Brasil, serão retomados”, afirmou. Tudo isso sem jogar fora os avanços vindos com a tecnologia. Em outras palavras, o formato híbrido, com a mistura do físico e digital, deve se consolidar como o novo normal mesmo em atividades tradicionais como os leilões do agro.