Economia

A guerra de Trump

Crédito:  Evandro Rodrigues

Eles brigam, nós ganhamos: O presidente dos EUA, Donald Trump (à esq.), e o presidente chinês, Xi Jinping, estão em meio a uma guerra comercial (Crédito: Evandro Rodrigues)

Desde o começo de abril, os Estados Unidos e a China, as duas maiores economias mundiais, estão em meio a uma guerra comercial. O presidente americano, Donald Trump, por exemplo, já anunciou sobretaxas às importações chinesas equivalentes a US$ 153 bilhões, prejudicando 1,3 mil produtos. O presidente chinês, Xi Jinping, por sua vez, considera barreiras que totalizam US$ 50 bilhões em compras americanas. O que é uma má notícia no âmbito global pode não ser necessariamente ruim para o agronegócio brasileiro. Explica-se: a lista chinesa inclui 234 itens, entre eles a soja e o algodão.“Se os chineses endurecerem mesmo, será muito bom para os produtores brasileiros de soja”, diz José Mário Schreiner, vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil e presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás. “Afinal eles são os maiores compradores do grão no mundo.”

A China deve importar cerca de 100 milhões de toneladas de soja, ante 95,5 milhões de toneladas em 2017. As compras nos Estados Unidos atingiram 32,8 milhões de toneladas, movimentando US$ 14 bilhões, no ano passado. Os chineses, por sua vez, foram os maiores compradores de soja brasileira, com 54,1 milhões de toneladas, que geraram US$ 20,6 bilhões. Um estudo encomendado pelo Conselho de Exportação de Soja dos Estados Unidos prevê que os americanos podem perder até US$ 3,3 bilhões caso as barreiras chinesas à importação de soja de fato sejam implantadas. O Brasil, ao contrário, pode ganhar até
US$ 2,7 bilhões.

Mas não é somente a soja que pode sofrer algum impacto. Os produtores do algodão também podem se beneficiar. A China, que é uma forte consumidora do produto americano, importou 526 mil toneladas dos Estados Unidos em 2017. No Brasil, os chineses compraram 83 mil toneladas de algodão. Há, também, uma porta aberta para o aumento da importação de proteína animal, principalmente carne bovina. O desafio, nesses casos, é uma menor demanda chinesa por algodão, resultado da política do país para baixar o volume de seus estoques, e a dependência de licenças sanitárias aos frigoríficos exportadores brasileiros.

O impasse entre China e Estados Unidos ocorre ao mesmo tempo em que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) prevê uma alta das exportações brasileiras de soja para 73 milhões de toneladas, ante 66 milhões de toneladas em 2017. Mesmo assim, para Marcos da Rosa, que presidiu até o mês passado a Associação Brasileira dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja Brasil), o momento é de cautela. Isso porque os chineses já compraram soja em operações futuras e elas não serão atingidas pela taxação imposta nesse momento por Trump. Assim, as margens para o aumento das exportações brasileiras à China não devem ser altas no curto prazo.

O que pode ocorrer, neste momento, é um aumento do prêmio pago. De acordo com Emilson Nogueira, analista de mercado da Céleres, consultoria especializada no agronegócio, o prêmio já dobrou para US$ 2,87 por saca de 60 quilos. “Com o interesse chinês pela soja brasileira é natural que ela se valorize”, diz Nogueira. “E sem a Argentina no páreo, só o Brasil pode se beneficiar com a briga entre as duas potências.” A quebra da safra argentina, provocada pela estiagem, é estimada em 20 milhões de toneladas, o que deve impedir um aumento da participação da compra chinesa, em média de 7%.

“Temos ofertas de negócios em R$ 70 a saca de 60 quilos para fevereiro de 2019. Preço que eu nunca vi em Goiás” Antonio Chavaglia, presidente da Comigo (Crédito:Claudio Gatti)

A briga Estados Unidos e China colocou em evidência a dependência asiática da soja americana. Apesar do anúncio da retaliação, os chineses serão ainda obrigados a comprar pelo menos 15 milhões de toneladas dos americanos no próximo período. “A China dificilmente pararia de comprar dos Estados Unidos porque o Brasil e a Argentina não conseguiriam abastecer a demanda”, diz Nogueira. “Com a produção brasileira desta safra estimada em 118 bilhões de toneladas do grão, o País poderia vender no lugar dos Estados Unidos até cinco milhões de toneladas.” Para o produtor Fernando Alves Pereira, de Rio Verde (GO), esse fato abre uma oportunidade de negócio. “Há uma grande animação entre os produtores da região”, afirma Nogueira. “Nós ainda não exportamos, mas é uma possibilidade.” Pereira deve colher 224 mil sacas de 60 quilos de soja em 3,3 mil hectares nesta safra. De acordo com Antonio Chavaglia, presidente da Cooperativa Agroindustrial dos Produtores Rurais do Sudoeste Goiano (Comigo), que no mês passado movimentou R$ 2,5 bilhões na feira agrícola TecnoShow, este é o melhor momento para se vender soja em toda história do Estado. “Não sabemos até quando vai essa briga de cachorro grande, mas é uma ótima oportunidade para comercializar a soja”, diz Chavaglia. “Temos oferta de negócios em R$ 70 a saca de 60 quilos para fevereiro de 2019. Preço que eu nunca vi em Goiás e já estou no Estado há 50 anos.” No ano passado, a Comigo, que possui
7,3 mil cooperados, faturou R$ 3,3 bilhões, dos quais R$ 170 milhões foram com exportações.