Edição nº 172 03.09 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

“A única saída para a crise atual é a tecnologia”

Claudio Gatti

“A única saída para a crise atual é a tecnologia”

Dez perguntas para GUSTAVO LEITE, presidente do centro de tecnologia canavieira (CTC)

Fernando Barbosa
Edição 03/09/2019 - nº 171

Há 50 anos, a Copersucar criou o que seria o seu braço para o desenvolvimento de pesquisas científicas focadas no segmento da bioenergia. Batizado de CTC (Centro de Tecnologia Copersucar), a instituição passou por diversas fases e mudanças nessas cinco décadas de existência. Uma das mais importantes ocorreu há exatos 15 anos, quando, em 2004, tornou-se o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). Sete anos depois, viria outra importante mudança: passou a ser uma Sociedade Anônima (S.A.), com 154 acionistas, composta pelos principais players do mercado. Nessa mesma época, o CTC contratou o engenheiro mecânico Gustavo Leite para assumir sua presidência. Executivo com passagens por multinacionais, como Phillip Morris, Michelin e Monsanto, da qual foi vice-presidente no Canadá, Leite assumiu com o desafio de elaborar novas estratégias de negócios e reforçar a competitividade e a produção de pesquisas. Hoje, o CTC tem no seu quadro de associados, além da própria Copersucar, companhias de peso, como Raízen, Bunge e São Martinho. E acaba de anunciar que, pela primeira vez, repartirá lucros entre seus acionistas – a companhia teve lucro líquido de R$ 23,6 milhões na safra passada (alta de 65%). Na entrevista a seguir, Gustavo Leite fala dos gargalos no setor da cana-de-açúcar, dos rumos para a pesquisa no Brasil, da importância do planejamento a longo prazo e da política de preços para combustíveis.

Que balanço o senhor faz desses 50 anos de história do CTC?
O CTC foi criado basicamente como um departamento da Copersucar. A cana-de-açúcar no Brasil era muito menor do que é hoje. Não chegava a 2 milhões de hectares, metade disso no Nordeste e a outra metade em São Paulo. As usinas em São Paulo se acomodavam no guarda-chuva da Coopersucar e fazia sentido você centralizar as atividades, entre elas a de pesquisa. Outro ponto é que, naquela época, um hectare de cana rendia cerca de 2,5 mil litros de etanol. Hoje,
o mesmo hectare rende três vezes mais, com custo de produção bem menor.

Em 2004, o CTC se tornou o Centro de Tecnologia Canavieira e passou a ter as principais usinas e produtores como associados. Como foi esse processo?
Não dava mais para ficar contando com ganhos marginais. Precisávamos de algo mais substancial. Naquele ano, o CTC passou a ter quase que todas as principais usinas entre os associados. Outras culturas, como milho, soja e trigo, são muito maiores e estão presentes em países de clima temperado, onde existe maior proteção de propriedade intelectual. A cana não é de interesse das grandes empresas de ciência no mundo agrícola, por ser uma cultura complicada e presente em países com instabilidade jurídica. Por isso, fizemos a mudança.

“É fundamental que a pesquisa se torne economicamente atraente. Hoje, não é o que acontece” (Crédito:Divulgação)

O que de fato mudou no processo de atuação da empresa?
Até então, funcionava como uma cooperativa: todo mundo colocava um pouco de dinheiro e o que era produzido todos usavam de graça. O problema desse modelo é que se o cliente não tem a necessidade em uma pesquisa de excelência, pode causar acomodação. Nós repensamos tudo isso e decidimos entrar a fundo em biotecnologia.

No ano passado, o CTC inaugurou uma subsidiária nos Estados Unidos. Qual a importância de ter um braço da companhia na principal economia do mundo?
Estávamos atrasados em relação a outras culturas, no que diz respeito a transgênicos. Outras culturas existem mundo afora há mais de 20 anos. Hoje, temos as principais culturas em países agrícolas com inserção acima de 90%, nos casos de soja, milho e algodão. O nosso trabalho tem sido tentar preencher esse atraso.

Ter grandes empresas do setor, como Raízen, Copersucar, Bunge e São Martinho, torna mais fácil o processo de investimento em pesquisas?
Existe uma preocupação de não ter nenhuma interferência dessas empresas na pesquisa em si. No entanto, claro que tem o interesse do nosso cliente e muitos deles são acionistas. A coisa mais importante é ouvir o nosso cliente e saber o que ele deseja. Desse ponto de vista, é algo fantástico. Nós convivemos com eles diariamente, ouvindo suas necessidades. Em outras empresas, não há essa proximidade.

Nas ultimas safras, o setor de bioenergia tem passado por uma pressão nas duas pontas: preços baixos no etanol, por causa da cotação do barril de petróleo, e no preço do açúcar, com o excesso de produção no mundo. Esses dois fatores incentivam o produtor a buscar tecnologia de ponta para compensar o envelhecimento dos canaviais?
Há uma perda de produtividade dos nossos canaviais, em parte pelo uso de variedades muito velhas. Como os produtores estão com problemas, eles retardam a renovação. Tudo isso tem um preço. Mas os produtores e as usinas sabem que a única saída para a crise atual é a tecnologia. A melhor coisa que os produtores poderiam fazer é não aceitar pagar royalties (a empresa passou a operar nesse modelo em 2011). Na totalidade, temos os produtores pagando e, inclusive, incentivando a acelerar o passo.

Qual a importância de se ter uma política de preços livres para combustíveis?
A cana é muito diferente de outras culturas anuais. Por exemplo: você plantou milho este ano e não gostou. No próximo ano, planta soja. No caso da cana, é um casamento. Quando você planta, tem de passar alguns anos com ela e ainda vai precisar fazer uma usina perto, porque não se pode levar para longe para fazer o esmagamento. Tudo isso indica que é necessário um horizonte de previsibilidade de pelo menos 10 anos. É difícil alguém investir sem isso.

Nesse sentido, qual a importância do RenovaBio para o segmento?
É muito importante. Traz mecanismos que fazem com que o grau de planejamento seja um pouco melhor do que era. Ou seja: o pessoal tem um horizonte para fazer o planejamento. A gente sabe que, com o crescimento da nossa frota de carros flex e o consumo de açúcar no mundo, em poucos anos não teremos combustível. É preciso dar uma diretriz e seguir nela. Não se pode dizer que o Brasil será a Arábia do etanol e amanhã esquecer o assunto.

No Congresso, há uma discussão sobre mudar a lei de royalties sobre variedades de cana já em uso de 15 para 25 anos. Qual a importância dessa ideia para o segmento de pesquisa?
É fundamental que a pesquisa se torne economicamente atraente. Hoje, não é o que acontece. Você não tem nenhuma empresa relevante lá fora ou alguém que fale: “Vou fazer pesquisa para melhorar a produtividade da cana”, como fazemos no CTC. A razão primordial é que não existe um atrativo econômico. Para o setor, é muito importante que mais empresas desenvolvam mais variedades e com mais tecnologia.

No final do ano passado, a CNTBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) aprovou o uso da segunda variedade de cana-de-açúcar geneticamente modificada.

Qual a expectativa do CTC em relação a essa novidade?
Essa cana já entra em campo nesta safra. Ela começa a ser plantada no segundo semestre e, em alguns meses, já vai para o plantio. Ela não é apenas produtiva. É produtiva em condições adversas. Ela tem a característica de ser resistente à broca da cana, que é a principal praga que assola os canaviais brasileiros em termos de perda econômica, com cerca de R$ 5 bilhões de prejuízo por ano.

EUA impõem novo revés ao Brasil ao manter veto à carne e frustram governo

Exportações

Exportações

EUA impõem novo revés ao Brasil ao manter veto à carne e frustram governo

Doria oficializa transferência de local da Ceagesp e concessão de entrepostos

Mudança

Mudança

Doria oficializa transferência de local da Ceagesp e concessão de entrepostos


Recorde de estudantes no Vacathon, o hackathon do movimento Ideas For Milk

Inquietos

Recorde de estudantes no Vacathon, o hackathon do movimento Ideas For Milk

O movimento feminista do agro é por poder

A nova onda

O movimento feminista do agro é por poder

Congresso Nacional das Mulheres do Agronegócio mostra o caminho que elas estão traçando


Cultivo do trigo beneficia sistemas de produção agrícola do Brasil Central

Embrapa

Cultivo do trigo beneficia sistemas de produção agrícola do Brasil Central


Só na DINHEIRO RURAL


Só na DINHEIRO RURAL


Ligados pelo Araguaia

Movimento

Ligados pelo Araguaia

Na região de Mato Grosso, que já foi chamada de “vale dos esquecidos”, fazendeiros unem forças para provar que produçãocombina, sim, com conservação,intensificação e novos negócios

Aqui não tem carne

Revolução na mesa

Aqui não tem carne

Começou uma verdadeira revolução na produção de alimentos. Carnes vegetais, hambúrguer à base de ervilha, filés feitos com células de boi. Estamos na era dos alimentos sem abates de animais, um negócio que pode movimentar mais de US$ 1 trilhão


Associativismo

Mapa

Ministério fiscalizará rastreabilidade de vegetais em 7 centrais de abastecimento

Opinião

Para Salles, postura de Bolsonaro tem de ser aplaudida na questão da Amazônia

Angus Beef Week terá agenda em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba em 2019

Pecuária

Pecuária

Angus Beef Week terá agenda em São Paulo, Porto Alegre e Curitiba em 2019

Prejuízo líquido  cresce 130% no 3º tri para R$ 53,337 milhões

Terra Santa

Terra Santa

Prejuízo líquido cresce 130% no 3º tri para R$ 53,337 milhões

Sementes e agroquímicos

Corteva registra prejuízo líquido de US$ 494 milhões no 3º trimestre

ostreicultura

Interditado o cultivo de ostras e mexilhões na Ponta do Papagaio, em Palhoça

A transformação digital e o agronegócio

Antonio Carlos de Oliveira Freitas

Antonio Carlos de Oliveira Freitas

A transformação digital e o agronegócio

A agenda do clima

João Guilherme Ometto

A agenda do clima

“Não será tão simples descumprir o que acordamos com o nosso planeta”


Agroindústria


Agroindústria


X

Copyright © 2019 - Editora Três
Todos os direitos reservados.

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicaçõs Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.