Capa

Aqui não tem carne

Começou uma verdadeira revolução na produção de alimentos. Carnes vegetais, hambúrguer à base de ervilha, filés feitos com células de boi. Estamos na era dos alimentos sem abates de animais, um negócio que pode movimentar mais de US$ 1 trilhão

Crédito: Claudio Gatti

"Nosso plano é chegar cada vez mais perto do sabor da carne bovina, para concorrer com os frigoríficos" Marcos leta CEO da Fazenda Futuro (Crédito: Claudio Gatti)

Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de quê? Você tem fome de quê? As indagações nas primeiras estrofes da música “Comida”, da banda Titãs, lançada em 1987, embalaram uma época. Havia dois anos que o Brasil voltava para as rédeas da democracia e, apesar de estar no meio de uma cruzada inflacionária que só pioraria cada vez mais, a agropecuária já dava sinais de alento. Naquele ano, o País experimentava saltos na produção de alimentos. A safra de grãos chegou a 66,3 milhões de toneladas e os abates de bovinos, aves e suínos totalizavam 6,5 milhões de toneladas, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês). Os números foram recordes para a época. Hoje, 32 anos depois, mesmo com uma inflação estável e uma produção agrícola bem mais parruda, a indagação continua a mesma: você tem fome de quê? A comida que chega à mesa do brasileiro não vem só do pasto.

Ela sai da lavoura, sim. Mas também é produzida em laboratório, fazendo surgir alimentos jamais imaginados pelos nossos avós. Como, por exemplo, uma carne sem… carne. É o caso do hambúrguer vegetal que acaba de ser lançado pela startup Fazenda Futuro, do Rio de Janeiro. A delícia (sim, é gostoso!) nasceu na cozinha experimental da empresa, que queria criar um hambúguer feito à base de vegetais, mas com sabor e aparência de carne de boi. Este, aliás, é o maior desafio entre as companhias de alimentos alternativos: chegar o mais próximo possível da aparência e do sabor da carne vermelha. “O grande diferencial não foi apenas imitar o sabor, mas também a textura”, diz o administrador Marcos Leta, 36 anos, CEO e fundador da Fazenda Futuro. “O plano é chegar cada vez mais perto do sabor da carne bovina, para concorrer com os frigoríficos. Queremos ser uma alternativa ao sistema convencional de produção.”

Marcos Leta é um dos empreendedores que estão por trás de uma onda global de investimentos em tecnologias de alimentos inovadores. São as chamadas foodtechs. Algumas startups nesse mercado têm o propósito de lançar produtos mais funcionais e nutritivos. Outras estão servindo como grandes plataformas de logística e comércio de alimentos, como a brasileira iFood, que se tornou um unicórnio (empresas com valor de mercado acima de US$ 1 bilhão) no final do ano passado. Já a outra parte desse segmento de foodtech – na qual o empresário carioca está – quer mesmo morder uma fatia de um mercado global de carnes avaliado em US$ 1 trilhão, segundo a consultoria americana A.T. Kearney. “Ainda tenho dúvidas do tamanho desse mercado”, destaca o administrador de empresas Francisco Jardim, CEO do fundo de capital de risco SP Ventures, de São Paulo (SP). “Mas de uma coisa eu tenho certeza: esse mercado vai ser bem relevante”, observa.

E bota relevante nisso. Os analistas da A.T. Kearney também têm essa certeza e já traçam os números de negócios das foodtechs plant-based, termo em inglês que designa as startups fabricantes de proteínas à base de vegetais, e as fabricantes de carnes de células animais cultivadas em laboratório. São as duas vertentes principais desse futuro dos alimentos, mas há outras possibilidades. Segundo um relatório da consultoria americana publicado este ano, esses dois negócios deverão movimentar US$ 1,1 trilhão nas próximas duas décadas. Esse valor corresponderá a 60% do mercado global de carnes, que deve chegar a US$ 1,8 trilhão. Os 40% restantes serão das empresas processadoras tradicionais de carne.

 

O que fundamenta negócios dessa ordem é justamente uma fonte de dinheiro ávida por esse tipo de investimento, segundo o cientista da computação Cristiano Kruel, diretor de inovação do Startse, um hub paulistano de startups. “O japonês SoftBank é o maior operador de fundos de capital de risco do mundo e aprovou recentemente um fundo de US$ 5 bilhões exclusivamente para startups na América Latina”, diz Kruel. “Há cerca de dois anos, eles têm administrado US$ 100 bilhões em fundos. Isso nos dá uma noção de que tem um excesso de dinheiro no mundo para investimento em grandes novidades e em negócios que vão resolver problemas”. Certamente, a alimentação está nessa lista de prioridades, já que há uma preocupação cada vez maior sobre como alimentar uma população em ritmo de crescimento exponencial. “Serão necessárias soluções muito radicais no futuro. Se elas funcionarem, certamente vão criar megacorporações”, destaca Kruel.

 

VALOR DE MERCADO Pode-se dizer que a Fazenda Futuro, de Leta e seu sócio — o empresário Alfredo Strechinsky — já deu um grande passo para essa guinada nos negócios. A empresa recebeu o seu primeiro aporte de capital, desde o seu lançamento, em abril deste ano: US$ 8 milhões (cerca deR$ 30 milhões). Isso fez o valor de mercado da startup chegar a US$ 100 milhões (algo em torno de R$ 380 milhões). O número ainda está longe do valor de gigantes do setor, como JBS (R$ 66 bilhões), BRF (R$ 28 bilhões) e Marfrig (R$ 4 bilhões) e Minerva Foods (R$ 3,2 bilhões). Mas não há como negar o avanço de uma empresa que começou a operar há poucos meses.

Leta e Strechinsky já sabem o que fazer com o dinheiro em caixa. “Essa injeção de investimento antecipa o nosso plano comercial e acelera a inovação”, diz Leta. “Estamos com um plano de entrar nos principais varejistas do País nos próximos meses e firmar parcerias com grandes hamburguerias e redes de fast food.” No lado da inovação, a meta é oferecer cortes como embutidos e salsichas e, até o final de 2020, um bife bem parecido com o filé mignon. Atualmente, a capacidade produtiva da Fazenda Futuro é de 1,4 mil toneladas por ano. Só em maio, o primeiro mês de vendas da empresa, foram comercializados nada menos do que 2 milhões de hambúrgueres.

Os empreendedores cariocas já são conhecidos do setor de alimentos e bebidas. Eles fundaram a empresa de sucos Do Bem, comprada pela Ambev em 2016. Desde aquela época, os dois já planejavam entrar no ramo de carnes vegetais e até investiram numa plant-based americana, a Good Catch, que produz carne de atum a partir de vegetais. Eles seguem os passos de outras companhias americanas famosas nesse segmento, como a Impossible Foods – uma das maiores do setor – e a Beyond Meat, que abriu seu capital em maio e atingiu um valor de mercado de US$ 3,8 bilhões. Assim que a Fazenda Futuro começou, outras empresas correram para lançar os seus produtos, entre elas a paulista Behind The Foods e a própria JBS.

A demanda por carnes vegetais é cada vez maior

Água na boca Almôndegas de carne vegetal da Impossible Food, uma das maiores empresas do setor (Crédito:Divulgação)

Ao lançar o seu hambúrguer de carne vegetal próximo ao sabor de carne bovina, a JBS muda seu posicionamento global. Antes, a empresa se intitulava a maior produtora de proteína animal. Agora, frisa que é a maior indústria de proteína. Outras opções veganas já estavam no cardápio do mercado, como os hambúrgueres veganos da Gerônimo Foods, de Atibaia (SP), e da paulistana Superbom. Resta, agora, a BRF. Ainda reticente, mas confiante nesse mercado, a companhia foi a grande pioneira de plant-based no País. Segundo o engenheiro químico Fabio Bagnara, diretor de Inovação da BRF, os estudos começaram na década de 1990, com as primeiras linhas de produtos lançadas em meados dos anos 2000. “Em 2012, esses produtos foram descontinuados, mas a pesquisa ainda é feita até hoje”, afirma Bagnara. Mesmo sem uma data definida, a empresa está interessada em fazer parte dessa onda, segundo o executivo Lorival Luz, CEO Global da BRF. “Observamos que existe um crescimento no número de pessoas vegetarianas e veganas”, diz Luz. “Ainda é uma tendência de nicho, mas não podemos deixar de entender e avaliar”, afirma.

DEMANDA CRESCENTE A companhia, que faturou quase R$ 30 bilhões no ano passado, tem como meta até 2023 ter cerca de 10% de seus ganhos vindos da venda de alimentos inovadores. “As proteínas tradicionais continuarão tendo um papel relevante por bastante tempo. Mas a indústria vai se organizar para atender a essa demanda crescente e ampliar o seu portfólio”, garante Luz. Para Bagnara, o arsenal tecnológico está bastante avançado com opções de manipulação das proteínas de grãos, como a soja e a ervilha. “As novas tecnologias nos dão a capacidade de fazer um produto muito mais saboroso e menos carregado dos sabores dos vegetais”, destaca.

A própria Embrapa Agroindústria de Alimentos, com sede no Rio de Janeiro, já tinha desenvolvido um hambúrguer vegetal à base de fibra de caju e proteína texturizada de soja. Agora, segundo a pesquisadora Janice Ribeiro Lima, o trabalho é se aproximar mais da carne. “O projeto está sendo feito em parceira com uma empresa para obter uma formulação que se assemelhe sensorialmente ao hambúrguer bovino”, conta Janice. As bases das formulações dessa indústria são a proteína de soja e corantes naturais. Mas há uma tendência de substituição da proteína de soja pela de ervilha, que até então vem sendo importada. Segundo Bagnara, trata-se de uma grande oportunidade para a produção de grãos no Brasil: se especializar mais nas culturas de ervilha, lentilha e grão de bico, que compõem os principais ingredientes da carne vegetal. “Com uma produção de volumes e qualidade, a produção poderá ser totalmente local”, diz o executivo da BRF. Hoje, é bem diferente. A Fazenda Futuro, por exemplo, importa 20% da matéria prima usada em seus hambúrgueres. “Acreditamos que, futuramente, 100% serão de produtos nacionais”, declara Leta.

Inovações, como um tipo de levedura geneticamente modificada, estão formando a base desse negócio de plant-based. O achado foi da Impossible Foods, que agregou a molécula heme – relacionada ao sangue – à soja. Aplicada ao grão, a molécula dá a aparência de carne ao hambúrguer vegetal. Novidades como essa estão no radar da francesa Louis Dreyfus Company (LDC). No início deste ano, a empresa anunciou investimentos na startup Motif Ingredients, subsidiária da americana Ginkgo Bioworks. Além da LDC, outras empresas e fundos de capital de risco dividiram um aporte de US$ 90 milhões para essa onda de comidas de laboratório. “Queremos prover soluções para o aumento da oferta de proteínas de uma maneira sustentável. Nesse sentido, opções de proteína alternativa são fundamentais”, afirma Kristen Weldon, diretora de Inovação de Alimentos
da LDC.

Com o uso de biotecnologia e fermentação, a companhia poderá trabalhar na engenharia de alimentos vegetais para a base de substitutos de lácteos, ovos e carne. “A iniciativa está apenas começando. Mas há grandes oportunidades, inclusive para os próprios negócios da LDC”, diz Kristen. Um exemplo é a fabricação de ração para criação de peixes, à base de proteínas de insetos. Segundo o engenheiro agrônomo Murilo Parada, CEO da LDC no Brasil, há diversas oportunidades para os negócios da empresa no País. “A originação de grãos, como soja e milho, pode ser combinada nessas formulações”, diz Parada. “Como temos avançado nos programas de rastreabilidade e sustentabilidade, conseguimos atestar a segurança de onde saiu cada alimento.”

CARNE CELULAR Na esteira dessa revolução alimentar também está a promessa das carnes de laboratório. E que, na visão da A.T. Kearney, deve ultrapassar os ganhos do mercado de plant-based. A expectativa é de que, em 2040, esse mercado esteja movimentando US$ 750 bilhões. Loucura? Para o executivo do Startse, não. Especialmente, quando se tem gigantes como as americanas Tyson Foods, tradicional processadora de carnes, e a Cargill, originadora de grãos e fabricante de alimentos, apostando nesse tipo de negócio. Tanto a Tyson Foods quanto a Cargill já estão investindo, desde o ano passado, na Memphis Meats, empresa criada em 2016 e que produz carne bovina e de aves a partir de células-tronco desses animais. “Quando você vê multinacionais apostando nisso, é porque esse negócio tem muito valor”, afirma Kruel. “No Vale do Silício, os caras brincam, dizendo que o boi é uma máquina muito antiga para fazer proteína.”

Atum celular Já há empresas produzindo carne de atum a partir de células do peixe (Crédito:Ac_bnphotos)

O que levaria a Tyson Foods a apostar num negócio que pode ameaçar futuramente o reinado da empresa no mercado de proteína animal? Para Jardim, da SP Ventures, a resposta é simples: não deixar de ganhar. “Faz muito sentido a Tyson investir numa startup de carne de laboratório, pois tem muito a ver com o seu próprio negócio”, diz. “É uma forma de a companhia dar um hedge em seu principal produto, que é a carne.” Por enquanto, a novidade é guiada por startups nos Estados Unidos, Reino Unido, Israel e Austrália. “Esse movimento veio para ficar”, afirma a farmacêutica bioquímica Caroline Mellinger Silva, pesquisadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos. “São mercados que vão diversificar a produção de proteínas mundialmente.”

Segundo a pesquisadora, a tecnologia usada na produção das carnes de laboratório é totalmente segura. Saiu de uma aplicação médica, para perceber a evolução de doenças, e já serve para produzir carne – a autêntica proteína animal, sem a necessidade de sacrificar nenhum animal. “É uma produção muito exigente. Pois, para que o tecido celular do animal cresça e se desenvolva bem, é preciso um controle muito grande, além de uma alimentação bem rica.” Em geral, uma mistura de aminoácidos, sais minerais e demais nutrientes.

É justamente nesse aspecto que mora o alto custo dessa tecnologia. “A Memphis já se comprometeu a trazer essa carne para o mercado no próximo ano”, destaca a bioquímica da Embrapa. “Vamos esperar para ver se eles vão conseguir.” Atualmente, nos Estados Unidos, o quilo da carne bovina sai por US$ 7, ao passo que o custo da carne de laboratório está em US$ 40 o quilo (quase 6 vezes mais). Mas o potencial é enorme. De um cultivo de 6,2 mil células-tronco, pode-se produzir o volume previsto para o consumo mundial de carne bovina, que está em 60 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Esse volume equivale ao abate de cerca de 300 milhões de bois. Na era das comidas de laboratório, nenhum desses animais precisará ser sacrificado para a produção de filés e hambúrgueres.

O peixe da finless food

EduViana

A produção de carne a partir de células cultivadas não é algo tão difícil. Quem prova é o jovem Brian Wyrmas, americano de 26 anos, formado em Bioquímica e Biologia Molecular. Há cerca de 2 anos, ele e um colega de faculdade fundaram a Finless Foods, em São Francisco, na Califórnia. Eles estão cultivando células de atum para a produção de carne. “Optamos pelo atum por ser uma carne de maior valor agregado e por todo o ônus que há na captura desse peixe”, diz Wyrmas. Ele esteve no Brasil em junho, para apresentar o projeto no evento do Startse, que reuniu as inovações para o setor do agronegócio na capital paulista. Wyrmas e seu sócio estão testando os protótipos do alimento e acreditam que podem oferecer uma carne de atum com textura e sabor idênticos ao tradicional corte do peixe. “A técnica é a mesma de quando eu trabalhava numa universidade de medicina apontando o desenvolvimento de tumores de câncer”, diz Wyrmas. “Agora, produzimos alimento”.

A empresa soma cerca de US$ 4 milhões de investimentos de fundos de capital de risco. A fase ainda é inicial, testanto os protótipos da carne para obter o filé o mais próximo possível ao atum consumido nos restaurantes. Agora, Wyrmas aguarda a regulamentação da Administração de Alimentos e Medicamentos. “Acredito que não teremos problemas nesse sentido, já que todo o processo é seguro”.