Finanças

BRF abocanha o mercado pet

Em meio a especulações sobre o futuro da companhia, a empresa de alimentos faz duas aquisições e ganha 10% do setor de ração para animais domésticos

Crédito: Istock

Em uma semana, a BRF, uma das maiores empresas de proteína animal do mundo, saiu de uma participação tímida no setor de rações para animais domésticos para abocanhar uma fatia de 10% do segmento. Por meio de sua subsidiária BRF Pet, a empresa fez duas aquisições que somam cerca de R$ 1 bilhão. Primeiro, comprou a Hercosul, dona da marca Biofresh e Three Dogs que tem 20 anos de tradição no mercado de rações para cães e gatos. Alguns dias depois, comprou a Mogiana Alimentos, que tem em seu portfólio marcas como a Guabi Natural, na categoria super premium, além da Gran Plus, Faro, Herói e Cat Meal.

PETFOOD Mercado movimentou R$ 20 bilhões em 2020, de acordo com o Sindirações (Crédito:Divulgação)

O interesse da BRF pelo setor de ração para cães e gatos é compreensível. O mercado pet movimentou R$ 40 bilhões em 2020. “Praticamente metade desse valor é alimentação animal. Ou seja, estimamos que o setor de petfood tenha vendido R$ 20 bilhões”, afirmou Ariovaldo Zani, CEO do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações). Além disso, o segmento cresceu 11% no ano passado, motivado principalmente pela pandemia. “Com o isolamento social, quem tinha um animal passou a ter atenção redobrada com a sua alimentação. E os percentuais de adoção também explodiram”, disse Zani.

A BRF não é a única de olho nesse mercado, e as aquisições feitas pela empresa tiveram um efeito imediato. A Nestlé, dona da marca Purina, anunciou o investimento de R$ 1 bilhão na construção de um novo parque industrial em Santa Catarina. A unidade terá como prioridade a produção de ração para o mercado pet e funcionará como plataforma de exportação para Europa, Estados Unidos e América Latina.

A decisão da BRF, liderada pelo CEO Lorival Luz, está alinhada à estratégia “Visão 2030”, um plano que prevê R$ 55 bilhões em investimentos até o final da década com o objetivo de faturar R$ 100 milhões. É também um passo importante rumo a mercados menos comoditizados e com margens mais altas. No início do ano, a empresa não conseguiu empolgar os analistas nem ao apresentar bom desempenho no quarto trimestre de 2020, reportando lucro líquido de R$ 902 milhões, acima da expectativa. O aumento do custo dos insumos e o reajuste de preços ao consumidor foram dois dos principais motivos para preocupação.

Mercado aquecido Os investimentos pegaram os analistas de surpresa, principalmente por conta da atenção que o mercado de proteína animal tem dado ao futuro da BRF. Nos últimos meses, a Marfrig comprou dois lotes de ações da BRF e tornou-se a principal acionista, com 31,6% da companhia. A decisão da Marfrig indica um interesse em unir as operações das duas empresas, o que faria sentido principalmente por conta da complementaridade de portfólios e mercados em que atuam.

A JBS ficou atenta à movimentação e poderia estar disposta a comprar a BRF. Problemas com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), no entanto, tornam a alternativa pouco provável. “A preocupação maior da JBS é impedir que a Marfrig fique ainda mais forte”, afirmou o analista Flávio Conde. Com as operações combinadas, Marfrig e BRF teriam lucro líquido somado de R$ 4,7 bilhões, contra R$ 4,6 bilhões da JBS. Nesse cenário incerto, repleto de especulações, está claro que a BRF não ficará passivamente esperando que outra companhia decida seu futuro.