Economia

Câmbio

Período de alta volatilidade do dólar gera incerteza nos produtores e altera premissas de rentabilidade no agronegócio

N as reivindicações da indústria, o câmbio costuma ser elencado como fator de equilíbrio da produção nacional e não é raro encontrar cálculos de subsetores que apontam um nível de dólar ideal para a competitividade em relação a estrangeiros. Diante da volatilidade nas cotações, contas semelhantes têm aparecido com mais frequência entre representantes do agronegócio nos últimos meses, um sinal de que o tema ganhou peso no radar do empresário do campo. A preocupação é justificável. Neste ano, a moeda, hoje próxima de R$ 3,10, acumula uma queda de cerca de 20% e está devolvendo parte dos benefícios gerados nas receitas de exportação pela desvalorização de 47% no ano passado.

Cálculos da consultoria Céleres mostram que nos atuais níveis de preço, o câmbio ideal para garantir uma rentabilidade adequada da produção de soja seria próximo de R$ 3,50. “A ‘Nossa senhora da taxa de câmbio’ salvou todo mundo no ano passado”, afirma Anderson Galvão, diretor da Céleres. “Agora, em 2016, há uma situação ruim, porque o produtor comprou o insumo a R$ 3,60, R$ 3,70 e vai vender entre R$ 3,00 e R$ 3,20. É uma luz amarela que está piscando.” A distância entre o nível ótimo e o patamar atual deve trazer como consequência uma freada na taxa de expansão da produção. As previsões apontam para o nível mais baixo dos últimos dez anos. O cenário dos economistas para o dólar varia, mas a mediana das expectativas do Boletim Focus, que reúne estimativas de cem instituições, sugere um patamar próximo ao atual até o final do ano, em R$ 3,20, e uma nova desvalorização em 2017, para R$ 3,40. Na cena externa, o que pode surpreender é uma mudança abrupta na taxa de juros americana, com potencial de gerar instabilidade e pressionar o câmbio para cima. No campo interno, a aprovação de reformas, como a Proposta de Emenda Constitucional  241, a PEC dos gastos, reduz a incerteza e deve contribuir para tornar a moeda mais apreciada.

A variação abrupta dos últimos meses vinha sendo puxada pela crise política. O processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff travou o Congresso, impactou a economia e fez o dólar disparar para mais de R$ 4. A cotação começou a ceder com a escolha da nova equipe econômica e quando o mercado passou a incorporar a troca definitiva de governo. Em meio a esse processo, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) alertou para o risco da valorização excessiva. Num posicionamento de maio, a entidade defendeu o câmbio próximo de R$ 3,50, para garantir a competitividade no mercado internacional. A dificuldade apontada na época era a impossibilidade de corrigir preços na mesma velocidade da queda do dólar, com implicações nas margens do setor, já apertadas devido à alta nos insumos. Os preços do milho, responsável por 50% do custo da ração animal, também foram impactados pelo câmbio, como destaca a SLC Agrícola no balanço do segundo trimestre. “Em 2015, a desvalorização do real frente ao dólar aumentou o preço do milho em reais e permitiu volume expressivo de exportações, reduzindo os estoques.”

O vaivém do dólar impacta o campo de diversas maneiras, da produção até as dívidas. No lado da receita, a influência se dá pela parcela exportada ou com cotações internacionais. Nos custos, porque os insumos carregam componentes importados. Em geral, os efeitos sobre os ganhos costumam ser mais relevantes, daí porque a visão de que um real mais fraco é melhor para o agronegócio. Cálculos do Itaú Unibanco com base em registros históricos mostram que uma variação de 10% no dólar aumenta o preço da soja em reais em 5,9%, enquanto os custos avançam 4,3%. No algodão, o aumento chega a 6,1% nos preços e os mesmos 4,3% nos custos.  “O dólar acaba aumentando a margem operacional das culturas dolarizadas”, afirma Guilherme Bellotti de Melo, analista de agronegócios do Itaú BBA. Em suas contas, a desvalorização de 6% acumulada entre julho de 2015 e julho deste ano levaria a um incremento de 12,85% nas margens operacionais da produção de café.

A conta não inclui as dívidas contraídas em dólar. No setor sucroalcooleiro, cerca de 40% do endividamento das usinas, na média, está atrelado à moeda estrangeira, segundo a União da Indústria da Cana de Açúcar (Unica). Considerando esse patamar, o impacto das variações seria, em tese, neutro, porque equivaleria à fatia da receita sujeita ao dólar, estimada também em 40%. Mas nem todos os grupos exportam ou apresentam o nível de endivamento como o da média.  Neste momento, o benefício sobre o passivo faz da valorização da moeda uma boa notícia, devido à baixa dos estoques. “A evolução do preço do açúcar mais do que compensou a queda do dólar”, diz Luciano Rodrigues, gerente de economia da Unica. Mesmo com o dólar a R$ 3,26, os embarques de setembro renderam ao produtor R$ 1.276,11 por tonelada, mais do que os R$ 1.172,51 nas exportações de janeiro, quando o dólar estava em R$  4,05, segundo a Unica. Como nem sempre a situação de preços é favorável, especialistas recomendam uma gestão eficiente de riscos, com instrumentos como hedge e venda futura. A Unica estima que cerca de 20% dos produtores ainda não usem soluções financeiras para se proteger. No setor, a tarefa costuma ser delegada às tradings, responsáveis pela comercialização. A prática também é comum no café. Isso faz com que a queda do dólar soe até como alívio para empresas como a Três Corações, que exporta o café, mas importa peças na divisão industrial. “Estávamos sofrendo com o dólar alto na importação das máquinas de café”, afirma Pedro Lima, presidente do Grupo Três Corações. Os instrumentos de proteção cambial hoje permitem a Sagrados Corações, que vende 1 milhão de sacas/ano, a gastar mais tempo com as análises sobre os fundamentos do preço de café, como as questões climáticas. Do exterior, a preocupação do grupo hoje é com os efeitos sobre a disponibilidade de recursos. “Caso ocorra uma aversão grande ao risco, poderia haver uma escassez global de crédito”, afirma Gabriel Penha de Carvalho, sócio-administrador da companhia. Em meio às  divergências sobre as tendências cambiais, uma questão surge como consenso entre os produtores: “O pior câmbio é o muito volátil”, diz Gustavo Diniz Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB). “Os altos e baixos geram incerteza e dificultam as previsões.”

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