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Carlos Rodrigues de Melo: ‘O clima não está nada interessante para café’

Belo Horizonte, 18 – O clima seco foi o principal vilão do setor cafeeiro em 2019 e tem tudo para repetir o papel na safra do ano que vem. “Você chega na lavoura, está a florada e as folhas todas em queda, por conta do calor”, afirma o presidente da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), uma das maiores cooperativas de produtores de café do mundo, Carlos Augusto Rodrigues de Melo. A safra de 2019, cuja colheita está praticamente encerrada, registrará quebra. Em relação às previsões feitas pela cooperativa, cuja sede fica no sul de Minas, a perda esperada será superior a 10%. O volume de sacas produzidas no País deverá atingir este ano, que é de baixa na bienalidade do café, cerca de 50 milhões, o que significaria queda de aproximadamente 20% ante 2018. “A seca é pior que a geada ou qualquer outro fator”, diz o responsável pela cooperativa, que concedeu a seguinte entrevista ao Broadcast Agro, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado:

A colheita de café deste ano está sendo encerrada. Qual o balanço?

Estamos com 97%, 98% da colheita pronta. Está quase ao término. Consolidou-se aquilo que nós já tínhamos dito. Há uma quebra de café neste ano. Não sei ainda ao certo o porcentual porque ainda tem alguma coisa para entrar (a cooperativa receber), mas tem quebra. E a preocupação maior nossa está com a safra 2020, com um clima desses, você chega na lavoura, está a florada e as folhas todas em queda, por causa da insolação, da irradiação, muito calor.

O clima é hoje o principal problema do cafeicultor?

Esse é mais grave que a safra. Porque a safra que aí está já era tida como pequena, pela anualidade baixa. Na nossa avaliação será próximo a 50 milhões de sacas. Foi previsto 54 milhões, depois caiu para 51 milhões, 50,9 milhões e agora está reduzindo mais ainda. Estamos falando da safra nacional (a Companhia Nacional de Abastecimento – Conab – divulgou seu terceiro levantamento sobre a safra 2019, revisando para baixo a produção, que deve totalizar 48,99 milhões sacas, ante 50,92 milhões na segunda estimativa, de maio). E da que vem, que se esperava uma safra que se falava em números absurdos, eu já acreditava que não seria assim, agora, piorou. Porque a região está muito seca. A região em que atua a Cooxupé, não temos dúvida de que não será a safra esperada, por conta (da seca) do cerrado, aqui mesmo do sul de Minas, regiões de beiras de represas, lagos. É muito quente, e a seca é pior que geada ou outro fator.

Em relação à qualidade, a safra de 2019 ficou dentro do esperado?

A safra de 2019, com certeza, e isso já era esperado, é inferior à de 2018 porque a de 2018 foi de alta qualidade. Então é menos. Só que, agora, os cafés que estão entrando na Cooxupé, como caiu muito café no chão, teve muita queda de café, esse café agora está sendo levantado, varrido, e está chegando à cooperativa. O nosso porcentual de qualidade está caindo a toda semana. O porcentual que até então era bom em qualidade, mas agora somado a esse café que está entrando, está caindo a qualidade. Infelizmente o quadro não é muito satisfatório.

Algum outro fator além do clima contribuiu para esse cenário?

O clima de um ano atrás para cá vem provocando impacto no café. No Espírito Santo, a área de conilon, está tendo problema de seca também. Estou vendo vídeos. Tem café desfolhado. Café desfolhado dá flor mas não pega. Não tem “pulmão” para essa fruta pegar. E essa qualidade desse ano, face ao clima que nós tivemos no passado, que foram várias floradas, tivemos veranico em janeiro, em fevereiro, está se confirmando todos os pronunciamentos que fizemos. Infelizmente.

Mas qual seria o tamanho da perda, com todo esse cenário?

Não temos porque ainda não fechou. Estávamos esperando, pela previsão, cerca de 10% de quebra. Mas acredito que vai dar até mais. Isso da previsão que tínhamos para este ano. Agora, a do ano que vem ainda está muito cedo para falar. Mas o clima não está nada interessante para café.

Em relação ao ano que vem, há o que fazer diante de um situação dessas?

Não tem o que fazer. O produtor ainda, apesar das dificuldades, trata das lavouras, conduz com adubações, isso ajuda, contribui sim para que a quebra não seja tão acentuada. Mas isso tem limites.

De que forma isso está afetando o preço da saca?

O arábica fino da Cooxupé hoje está R$ 440. Precisava ser mais. Porque hoje os custos da saca de café, para uma produção de 32 sacas, 35 sacas por hectare, está em torno de R$ 400 mais o custo nosso. E o café não é os R$ 440 que estou falando. Por exemplo, estou vendendo café destes de varrição, hoje, a R$ 270. É o preço. Varia de R$ 270 a R$ 440. Depende da qualidade do café.

E como o produtor está se comportando, já que, no caso do café na faixa dos R$ 400, o valor de venda está próximo ao do custo?

O difícil é que o produtor se desfaz do café para assumir compromissos, honrar os compromissos e depois o café sobe. Porque vai subir. Com essa escassez, eu acredito que não tenha muito café não. Não tem dessa safra, nem da próxima, que se esperava muito. Faça uma conta. O Brasil precisa produzir 60 milhões de sacas/ano. Desses 60 milhões, 20 milhões a 22 milhões é consumo interno. E de 38 milhões a 40 milhões é o que estamos exportando. Com uma safra de 50 milhões, não tem café sobrando, tem? O mercado está muito equilibrado. Acredito que o café vai reagir. Sou otimista com preço do café. O café vai subir. Só que é um jogo de queda-de-braço entre o mercado comprador e vendedor.

O produtor tem dificuldades em esperar o preço subir para vender?

Estamos estudando alternativas dentro da cooperativa para contribuir, para ajudar o nosso cooperado a passar esse momento.

Como seria essa ajuda?

Isto impõe questão financeira. Precisa-se de recursos. E a gente tem limites. Estamos vendo alternativas. Precisamos ver a possibilidade, por exemplo, com o Funcafé (Fundo de Defesa da Economia Cafeeira), que tem financiamento para café, para aquele produtor que pode segurar o café dele para não vender nesse preço. Tem recursos do Funcafé. Nos bancos tem.

E recursos da cooperativa?

Não. Temos o giro normal dela. Não temos capital próprio para isso, por conta do montante que necessita para fazer um programa dessa natureza.

O lançamento de contratos de opção para venda pública de café, ajudaria na capitalização do produtor?

É uma ideia que saiu da nossa cooperativa. Mas é um tanto complexa. Existem barreiras, dificuldades para que se efetive. Na opção pública tivemos um programa há três anos. Há uma participação das cooperativas, dos produtores, com compra para venda futura. O governo disponibiliza um recurso, mas hoje está difícil, porque está sem recursos. Você vai apagar o fogo da Amazônia ou ajudar o café? Vai apagar o fogo. Não é isso? Então essas são as dificuldades. O programa é bom sim. Alavanca o mercado. Mas precisa disponibilidade de recursos governamentais.

Sobre as vendas externas, o câmbio, como está, ajuda o produtor?

Estamos aguardando para ver como fica. Câmbio alto para café todo mundo acha que é bom, é bom sim por conta da exportação. Mas tem um outro cenário muito negativo. Se você avaliar, por exemplo, o custo dos fertilizantes, do ano passado em relação a este ano, veja o quanto corrigiu. Os insumos são corrigidos, o café não mesma velocidade que os defensivos e fertilizantes. O normal é de 2,5 sacas a 3 sacas de café para 1 tonelada de fertilizantes. Hoje estamos gastando de 5 sacas.