As Melhores da Dinheiro Rural 2018

Carne cada vez mais forte

A Minerva Foods e a Barra Mansa Alimentos mostram que é possível crescer na crise, investindo em qualidade e apostando no mercado externo

Crédito:  Pedro Ladeira/Folhapress

A todo vapor: além da força na linha de produção, a Minerva ousou e comprou 9 unidades da JBS, seu maior concorrente (Crédito: Pedro Ladeira/Folhapress)

Frigorífico

O ano de 2017 foi desafiador para o setor de proteína animal no Brasil, cenário que se estendeu para este ano. As operações “Carne Fraca” e “Trapaça”, ambas deflagradas pela Polícia Federal, colocaram em xeque o modelo de fiscalização sanitária, que desde então vem passando por reformas. Mesmo assim, os abates de bovinos cresceram no ano passado, chegando a 30,8 milhões de animais com inspeção sanitária. O aumento foi de 3,8%, relativos a 1,1 milhão a mais de bovinos. O Estado do Mato Grosso continuou liderando o ranking de abates, com 15,6% de participação nacional, seguido por seus vizinhos do Centro-Oeste: Mato Grosso do Sul (11,1%), e Goiás (10,3%). Foi uma virada no segmento de gado gordo, destinado ao mercado de carne, depois de três anos de abates em queda. Para 2018, a tendência permanece inalterada. A previsão é de que o período termine com um crescimento da ordem de 4%, de acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP).

A maior oferta de animais tem derrubado o preço pago ao produtor. “Não faltou matéria-prima, ou seja, boi para se trabalhar”, diz Péricles Salazar, presidente da Associação Brasileira de Frigoríficos. “O mercado interno recebeu produto em excesso, mantendo os preços no varejo nos mesmos patamares de 2015 e 2016.” Neste ano, tem ocorrido a mesma pressão, porque o mercado consumidor doméstico permanece desaquecido. Com isso, as exportações estão salvando o setor. Em 2017, foram 1,5 milhão de toneladas, que renderam US$ 6,3 bilhões. E a tendência é que as vendas externas sigam fortes em 2018.

O dólar valorizado tem ajudado. Até o mês de outubro, somente com a China, o País faturou
US$ 1,2 bilhão. De acordo com um estudo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Estado de Goiás, atualmente há 1,1 mil frigoríficos em operação, dos quais apenas 190 (17%) contam com o Serviço de Inspeção Federal. Esse pequeno grupo, apto a exportar carne bovina, responde por 74,5% dos abates no País. Entre os maiores exportadores, está a Minerva Foods. Com sede em São Paulo, a companhia é líder na América do Sul no processamento de carne bovina in natura e seus derivados, além da exportação de gado vivo. Neste ano, a Minerva Foods ficou em primeiro lugar no setor Frigoríficos – Mega Empresa do prêmio AS MELHORES DA DINHEIRO RURAL. No ano passado, a companhia teve receita de R$ 12,1 bilhões, 18% acima de 2016.

Em 2017, além de completar 25 anos de sua fundação, o grande negócio fechado pela Minerva Foods foi a compra de nove unidades frigoríficas de seu maior concorrente, a JBS, da família Batista. Pela JBS Mercosul, a Minerva Foods pagou US$ 300 milhões. Com isso, de 17 unidades de abate, a empresa passou para 26 postos no Brasil, Uruguai, Paraguai, Colômbia e Argentina. A capacidade diária de abate dos frigoríficos saltou, assim, de 17,3 mil bovinos para 26,4 mil animais. Apenas para tocar toda essa operação, são 18 mil funcionários. Para Fernando Galletti de Queiroz, CEO da Minerva Foods, com a estruturação a empresa anotou vários pontos altos em 2018 e que continuarão gerando resultados positivos em 2019.

Segundo ele, um desses importantes passos foi a consolidação da Minerva como a maior exportadora de carne bovina in natura da América do Sul, com uma participação de cerca de 20% dos embarques da região. “O posicionamento estratégico das unidades tem permitido à empresa uma melhor arbitragem entre as geografias e um grande alcance no mercado global”, destaca Galletti. A América do Sul representa 7% do mercado global de carne bovina.

Os números da Minerva Foods são grandiosos. Em seu portfólio, há 9,7 mil produtos, entre cortes in natura, congelados, processados e recortes. A empresa exporta para cerca de 100 países e possui 13 escritórios no exterior. No total, atende a 57 mil clientes com forte atuação no varejo, como ocorre no Brasil. Não por acaso, as perspectivas para 2019 são bastante otimistas. A meta é desalavancar e melhorar o ROIC (sigla em inglês para divisão do lucro operacional líquido após os impostos, pelo capital total investido da empresa).

Na prática, significa quanto dinheiro ela será capaz de gerar depois de todo o capital investido. Para tanto, a Minerva Foods deve seguir com sua estratégia de diversificação geográfica. “Nossos resultados podem ser atribuídos aos pilares que guiam as tomadas de decisão da administração da companhia, que são foco, disciplina, consistência e governança corporativa”, afirma Galletti. “E acreditamos em resultados melhores.”

Além da Minerva Foods, outro destaque do prêmio é a Barra Mansa Alimentos, com sede em Sertãozinho (SP). Ela é a melhor do setor Frigoríficos – Grandes Empresas do prêmio AS MELHORES DA DINHEIRO RURAL 2018. No ano passado, a empresa faturou R$ 860,4 milhões, valor 6,2% acima do ano anterior, com a venda de produtos como carnes, miúdos, couro, sebo e farinha de carne e de osso.

Sob a presidência de Dirceu Oranges Júnior, a Barra Mansa vem se profissionalizando. Uma das principais ações da companhia foi a implantação de políticas de governança corporativa mais refinada. Para isso, Oranges Júnior montou uma equipe multidisciplinar, da qual participam os setores de recursos humanos, finanças e as controladorias financeira
e de negócio. Uma das iniciativas da empresa foi dispor indicadores em tempo real à equipe de venda. Com eles, é possível uma maior cobertura de clientes atendidos, com melhor aproveitamento de cargas e de variedades de produtos.

O projeto foi desenvolvido por uma área de inteligência de negócio criada no departamento comercial. “Isso ajudou muto no relacionamento com os nossos clientes, que estão distribuídos em grandes redes, food service, açougues, supermercados, curtumes, granjas e fabricantes de ração animal”, diz Raphael Renzzo, gerente de controladoria financeira e membro da equipe multidisciplinar.

Em 2017, a Barra Mansa abateu 226 mil bovinos, provenientes de um raio de até 350 quilômetros da sua sede. O desmonte do gado gerou 64 mil toneladas de produtos, parte delas destinada ao mercado externo. “Exportamos 12 mil toneladas de carnes e de subprodutos para 23 países”, afirma Renzzo, lembrando que a emprsa teve ótimos resultados. A receita líquida foi de R$ 143 milhões, 16,6% do total faturado. Já
a participação dos subprodutos foi de R$ 102 milhões, 11,8% do total. Para países como Egito, Rússia e Ucrânia, saíram de contrafilé e alcatra a tripas salgadas. Para alavancar ainda mais esse mercado, a Barra Mansa já definiu uma estratégia. A partir de 2019 entra em seu calendário a participação em feiras internacionais, como a de Paris e a de Dubai, dois dos maiores eventos do setor de alimentos do mundo. Ao que tudo indica, 2019 será um ano de carne forte.