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Chegou a hora da noz-pecã

Produtores brasileiros de pecã, uma noz originária do sul dos EUA, trabalham para colocar o País no mapa dessa castanha

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Automação A noz-pecã (acima) é retirada do pé por uma colheitadeira que sacode o tronco, derrubando o fruto numa espécie de lona (Crédito: Divulgação)

No dia 27 de abril, o médico e radiologista Eduardo Alberto Schuch, de 46 anos, saiu às pressas da sua clínica, em Cachoeira do Sul, no Rio Grande do Sul. O motivo da correria nada tinha a ver com seu trabalho na Medicina. Schuch precisava chegar à fazenda Paralelo 30, a 16 quilômetros de distância, no distrito rural de Capão do Valo. Dono da propriedade – ao lado de outros cinco sócios –, ele teria um dia cheio pela frente. O médico e empresário receberia cerca de 150 produtores interessados em conhecer técnicas agrícolas para o cultivo da noz-pecã, originária dos Estados Unidos.

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Na pauta, assuntos como dinâmica radicular, controle de pragas, pesquisa, experimentos de poda, produtividade e práticas de colheita. Com área de 200 hectares, a Paralelo 30 é uma das maiores fazendas de noz-pecã do Brasil. Essa espécie de castanha é rica em proteína e ajuda a combater várias doenças (leia box à direita). No Brasil, no entanto, ainda é pouco cultivada. Em todo o País, há apenas 6 mil hectares em atividade comercial, dos quais 5 mil (86%) ficam no Rio Grande do Sul. Schuch e seus sócios trabalham para melhorar esse cenário. Daí, o encontro realizado na propriedade, durante o qual também foram apresentados insumos específicos dessa cultura.

Máquinas de irrigação, descascadoras, fertilizantes, agroquímicos e colheitadeiras próprias para a noz-pecã. Estava tudo lá. Segundo Schuch, o objetivo do encontro era difundir conhecimento. “Tivemos de aprender sozinhos a administrar uma fazenda de pecã”, declara o produtor. “Por isso, sempre deixamos a propriedade aberta a quem quiser conhecer o trabalho que temos realizado”.

MERCADO EM EXPANSÃO Noz de textura suave e sabor doce e levemente amanteigado, a pecã é originária do sul dos Estados Unidos e precisa de clima frio – em torno dos 7ºC – para retomar um novo ciclo vegetativo a cada carga de fruta colhida, o que explica sua concentração nacional na região Sul. De olho no consumo interno e na demanda global, os produtores acreditam em um mercado maior para a fruta. A pecã está numa categoria à parte das frutas – como as castanhas do tipo amêndoas, avelãs, pistaches, nozes, entre outras –, com um mercado muito distinto em relação às frescas. Nos últimos anos, o setor tem apresentado crescimento relevante.

Na safra 2018/2019, a produção mundial de castanhas foi de 4,5 milhões de toneladas, um aumento de quase 50% em relação a uma década atrás. Os maiores crescimentos foram para as macadâmias (57%), pistaches (44%), nozes (37%) e castanha de caju (32%). A pecã também evoluiu bem. A produção global foi de 140 mil toneladas (alta de 28%). Os dados são do Conselho Internacional de Nozes e Frutas Secas (INC, na sigla em inglês), com sede na Espanha. Fundado há 36 anos, o INC reúne 75 países. Com produção anual em tordno de 5 mil toneladas, o Brasil não faz parte da elite exportadora da fruta. Nesse grupo, estão África do Sul, Austrália, Estados Unidos e México. “Mas nós acreditamos que, num prazo de cinco anos, podemos começar a exportar”, destaca Schuch. “Organizando a produção, é possível ter produto para o mercado interno e para vender lá fora”.

“Organizando a produção, teremos produto para o mercado interno e para exportar” Edurado Schuch, da Paralelo 30 (Crédito:Divulgacão)

Para aumentar a produção, encontros como o realizado na fazenda de Schuch têm muito valor. Afinal, a pecã tem forte apelo social, assim como acontece com o açaí e a mandioca. O cultivo da castanha é adequado aos pequenos produtores, como acontece no Rio Grande do Sul, onde cerca de mil famílias se dedicam à cultura, de acordo com a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater-RS).
No início de abril, aconteceu um importante evento do setor: a 2ª Abertura Oficial da Colheita da Noz-Pecã, realizada em Cachoeira do Sul. O Poder Público também está atento ao segmento. Para o prefeito da cidade, Sergio Ghignatti, chegou a hora de o município colaborar, comprando parte da produção. “Por sua riqueza nutritiva e importância que a noz-pecã tem para o desenvolvimento das crianças, vamos incluí-la no cardápio de nossos estudantes”, diz Ghignatti. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, já estão em andamento o processo de compra e a elaboração de cardápios aos 6,5 mil alunos, de 37 escolas.

Esse movimento faz parte de um processo que começou a ganhar peso em 2017, ano em que o governo gaúcho tomou duas medidas: criou o Programa Estadual de Desenvolvimento da Pecanicultura (Pró-Pecã) e instalou a Câmara Setorial da Noz-Pecã, com o objetivo de fomentar a cadeia. Outra ação veio da Embrapa Clima Temperado, com sede em Monte Bonito (RS). A unidade está mapeando as plantações para oficializar a produção. O programa já serviu para que a pecã recebesse, em novembro do ano passado, o registro de cultura com suporte sanitário, ou seja, com defensivos específicos para a lavoura. Além disso, o estudo permitirá o zoneamento edafoclimático até 2020, identificando as práticas fitossanitárias para cada região de cultivo.

MÃOS À OBRA Organizar a produção requer tempo. Em geral, são necessários 10 anos para que uma nogueira esteja em sua plena capacidade. No caso da fazenda Paralelo 30, a safra deste ano representou um marco. Da lavoura de 200 hectares, onde estão plantadas 32,5 mil nogueiras, metade alcançou sua capacidade máxima. Para este ano, a previsão de colheita é de 300 toneladas, o dobro em relação a 2018. “Este momento é disruptivo para nós”, diz Schuch. “Porque chegamos a um pomar de classe internacional.” O produtor se refere a uma pecã de casca fina, que pode ser quebrada com as mãos, carnuda para render acima de 50% no processo de descaroçamento e de coloração e forma padronizadas. É assim que gostam os chineses, os maiores importadores de pecã do planeta. No ano passado, a China comprou 55 mil toneladas, metade de todo o comércio global.

É esse mercado que Schuch e seus cinco sócios querem abocanhar. Se hoje eles já colhem os frutos do trabalho, o início não foi fácil. Em 2008, quando criou a Paralelo 30, o grupo investiu R$ 2 milhões de recursos próprios na compra da terra, além de um financiamento bancário para o pomar, que já foi quitado. “Queríamos investir para o futuro. E, claro, que isso nos gerasse renda”, afirma Schuch, que não revela quanto fatura com sua plantação. Mas, considerando que sua produção de pecã para este ano deve ser de 300 toneladas e que o preço médio internacional do quilo é de US$ 4, ele teria um faturamento de US$ 1,2 milhão (mais de R$ 4,5 milhões). Além disso, a Paralelo 30 possui um viveiro que começou produzindo 5 mil mudas por ano e já se tornou comercial. Hoje, há 60 mil mudas prontas para venda. “A cadeia da noz mudou nos últimos anos. O Brasil precisa aproveitar esse movimento”, diz. “Recentemente, um técnico mexicano elogicou bastante nossa produção. Então, acho que estamos no caminho certo.”

O cara e a noz

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Todos os anos, durante o mês de abril, os meios de comunicação dos Estados Unidos são inundados por propagandas sobre as propriedades saudáveis da pecã e como degustá-la. O objetivo é mostrar como a noz de origem americana ajuda a reduzir os níveis de colesterol e o risco de doenças cardíacas, além de ser fonte de proteína e antioxidante. Os americanos também adoram frisar como a pecã vai bem no café da manhã, no lanche da tarde, como crosta em carne de porco, no quiche, na sopa. Até o ex-presidente Barack Obama, que neste mês de maio participa de um evento no Brasil sobre inovação digital, já entrou na onda. Apreciador de pecã, Obama se tornou uma espécie de garoto-propaganda da fruta. O bombardeio marqueteiro tem um sentido: em abril, se comemora o National Pecan Month (Mês Nacional do Pecã, na tradução do inglês). Na safra 2018/2019, os Estados Unidos foram o segundo maior produtor mundial de pecã. Mas o país sempre esteve em primeiro lugar. O posto foi perdido para o México, em função de intempéries. Do total global de 140 mil toneladas colhidas, os americanos produziram 55,6 mil toneladas (40%). E são os maiores consumidores. Em 2017, eles devoraram 73 mil toneladas, 61% a mais do que em 2013.