Finanças

A grande revolução do crédito rural

Os bancos de montadoras de máquinas passam a se capitalizar mais para suprir a demanda por linhas de crédito rural mais competitivas do que as subsidiadas pelo governo.

Crédito: Gustavo Mansur/Palacio Piratini

O mercado de crédito rural no País já começou sua grande revolução. Aos poucos, sai das linhas subsidiadas pelo governo para os recursos livres dos bancos privados. Esse movimento ganha mais força com a queda a taxa referencial do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic). “Já vislumbrávamos que isso ia acontecer há alguns anos”, afirma o administrador de empresas Márcio Contreras, diretor do CNH Industrial Capital, braço financeiro do grupo ítalo-americano CNH Industrial, uma das grandes montadoras de máquinas agrícolas e que faturou US$ 29,7 bilhões, no ano passado. “Isso significa que as taxas ficam mais comparáveis e competitivas às linhas de crédito do BNDES.” Recentemente o Comitê de Política Monetária (Copom), vinculado ao Banco Central, decidiu reduzir a Selic de 6,0% ao ano para 5,5% ao ano. Com essa redução, a média da taxa até o final deste ano é de 5,9% ao ano. Até antes dessa decisão, a expectativa da Selic era uma média de 6,2% ao ano.

Animado, o mercado de crédito já estima que a Selic caia ainda mais nos próximos anos. Essa nova realidade de taxas de juros mais baixas atrai o capital próprio de bancos privados no crédito rural. Para a venda de máquinas agrícolas, que dependem de linhas de financiamento, a oportunidade está nas mãos de agentes financeiros das próprias montadoras, como a CNH Industrial, dona das marcas Case IH e New Holland, e a montadora americana de máquinas agrícolas AGCO, que comercializa no País as marcas Massey Ferguson, Valtra e Fendt. Os bancos estão numa onde de formar recursos como podem. Entre as estratégias estão a emissão de títulos para captação de recursos de até a captação de euro para a linhas de máquinas importadas. “O produtor tem sentido que o crédito subsidiado tem faltado na hora que mais precisa”, diz o agrônomo Rodrigo Junqueira, vice-presidente de Vendas da AGCO para a América Latina. “Isso vai abrindo espaço para novas opções de financiamento.”

“As taxas ficam mais comparáveis e competitivas às linhas de crédito do BNDES” Márcio Contreras, diretor do CNH Industrial Capital (Crédito:Gustavo Mansur/Palacio Piratini)

Esse movimento já começou na safra 2018/2019, com o aumento da participação de bancos privados nas linhas de investimento. A representação dos agentes financeiros particulares saiu de 31%, na temporada 2017/2018, para 32% com um total de R$ 13,7 bilhões em concessão de crédito ao produtor, segundo o Banco Central. Incluindo todos os agentes financeiros, as linhas de investimento foram de R$ 42,9 bilhões do total de R$ 174,8 bilhões de recursos de crédito rural na safra passada. Para a temporada de 2019/2020, são esperados R$ 225,6 bilhões, sendo R$ 53,41 bilhões para investimento. As taxas de juros variam de 3% ao ano a 10,5% ao ano. “As menores taxas do governo passam a estar mais focadas no pequeno produtor”, diz Contreras. “Já os grandes produtores poderão achar mais vantajosas as linhas não subsidiadas.”

As taxas do banco CNH Industrial Capital podem chegar até 6,5% ao ano com a vantagem de uma aprovação que pode ser feita em algumas horas. O banco tem apostado em emissões de títulos para aumentar seu poder de barganha com capital próprio. Entre eles estão as Letras de Crédito Imobiliário (LCI), Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e Letras Financeiras. No ano passado, essa captação foi de R$ 878,1 milhões, 5 vezes mais do que em 2017. “Atualmente nem precisamos mais emitir esse títulos”, afirma Contretas. “Mas, se for necessário, podemos chegar à casa do bilhão, facilmente.” No passado o banco da CNH contabilizou uma carteira de operações de crédito de R$ 8,3 bilhões, 13% a mais que em 2017.

Paulo Ricardo Schuch, superintendente comercial do DLL no Brasil (Crédito:Gustavo Mansur/Palacio Piratini)

Recursos em euro
Já a AGCO, montadora que faturou US$ 9,4 bilhões no ano passado, está apostando numa captação de dinheiro mais barata através de seu parceiro financeiro, o banco holandês De Lage Landen (DLL), que opera o AGCO Finance. No ano passado os desembolsos para vendas de máquinas agrícolas somaram cerca de R$ 1 bilhão. A expectativa é que até o fim de 2019, os recursos cresçam para R$ 1,1 bilhão. Desse valor, R$ 100 milhões já vem de parte de uma nova linha de crédito atrelada ao euro, segundo o engenheiro agrônomo Paulo Ricardo Schuch, superintendente comercial do DLL no Brasil. “É uma linha inédita que o produtor passa a contar como opção de financiamento”, diz Schuch. “Por ter origem holandesa, o banco está conseguindo captar recursos mais baratos euro em comparação ao dólar. Isso faz com que as taxas fiquem mais baixas ao produtor.”

Rodrigo Junqueira, vice-presidente de Vendas da AGCO para a América Latina (Crédito:Gustavo Mansur/Palacio Piratini)

A partir dessa captação, o DLL pode oferecer ao produtor uma taxa de juros média de até 4,5% ao ano. Já a taxa de financiamento em dólar pode chegar a 8,5% ao ano. A captação em moeda estrangeira já é usual para fabricantes de insumos. A ideia é reduzir o efeito cambial de dívidas dos produtores que recebem e pagam baseados numa moeda estrangeira. O mais comum é o dólar. A novidade da AGCO foi trazer o euro e oferecer para as vendas de máquinas agrícolas importadas.