Carreira

Como liderar sem o olho do dono

O executivo Orson Ledezma, presidente da Ecolab no Brasil, comanda uma equipe que precisa fazer escolhas o tempo todo, longe do centro de decisões

Crédito: Cláudio Gatti

"Tem algo que é essencial na equipe, que é a paixão pelo que faz” Orson Ledezma presidente da Ecolab (Crédito: Cláudio Gatti)

A Ecolab, empresa listada na Bolsa de Nova York, faturou no ano passado US$ 14 bilhões com serviços de sanidade e de controle de ambientes e de produtos, incluindo diversas áreas do agronegócio. São 48 mil funcionários em 170 países, dos quais 1,5 mil estão no Brasil. Ocorre que uma parte importante desse time tem uma peculiaridade no modo de trabalhar, diferente de uma fábrica ou de salas de escritório. Do total de funcionários, 26 mil no mundo e 800 no Brasil, estão sozinhos em seus locais de trabalho, sem colegas da empresa e longe da sede ou das representações. É deles a função de manter em dia o coração da empresa. “Tem algo que é essencial na equipe, que é a paixão pelo que faz”, diz Orson Ledezma, presidente da Ecolab no Brasil. “Porque o trabalho não é necessariamente simples.” O executivo lida diariamente com uma tarefa desafiadora no mundo corporativo: comandar uma equipe à distância, em que pessoas podem ficar até meses sem um contato físico com seu superior.

Ledezma, que tem 44 anos, é venezuelano e engenheiro de materiais da área de polímeros (plásticos e borrachas). Assumiu a presidência da empresa no Brasil em março deste ano, mas o País não é uma terra desconhecida. Das cerca de duas décadas trabalhando na Ecolab, dez anos foi no Brasil, antes de ser transferido para o México no fim de 2016. “Era uma oportunidade”, diz ele. “E aceitei o desafio do desenvolvimento de um olhar mais amplo daquele que eu tinha como parte da equipe da divisão de tratamento de águas.” O monitoramento das competências da equipe de campo é essencial para a empresa porque faz parte de seu pacote a prestação in loco de serviços, além do comércio de produtos e da pesquisa. Além de duas fábricas de químicos no interior paulista, a Ecolab possui um centro de inovação no País, onde trabalham 35 cientistas. A empresa gerencia, por exemplo, toda a água utilizada em uma usina de cana-de-açúcar, pragas em agroindústrias de grãos e de carnes, ou monitoramento para evitar contaminação cruzada em produtos de origem animal. No Brasil, atende nomes como Nestlé, Vigor, Ambev, JBS, Outback e Burger King. No mundo, a Ecolab é responsável pelo setor de higienização, do campo ao produto processado, de 42% do leite produzido. O volume equivale a cerca de 330 milhões de toneladas, por ano.

A equipe de campo é formada por técnicos ou engenheiros, das áreas química, biotécnica e biológica como principais alvos, mas também há agrônomos e veterinários. Para que ela permaneça coesa, uma parte da tarefa de Ledezma é formar líderes. “A empresa tem o papel de ensinar o time a trabalhar de forma independente”, diz ele. “Por isso, além do treinamento padrão, quem vai para o campo passa por um forte processo para tomar a si o poder de trabalhar sozinho.” O agrônomo Jeffrey Abrahams, responsável pela área de agronegócio e sócio da Fesap, holding especializada em carreiras e contratações, diz que esse tipo de talento é difícil de ser encontrado no mercado. “Apenas 10% das pessoas têm a característica de olho do dono para os negócios”, diz ele. “Elas estão autodeterminadas o tempo todo e possuem espírito empreendedor.” De acordo com Abrahams são profissionais de alto desempenho e que necessitam de um direcionamento leve porque conhecem e sabem o que precisa ser feito. “São estrelas incandescentes”, afirma o consultor.

O engenheiro Rafael Tobias de Souza, 35 anos e que há 16 está na Ecolab na divisão Nalco Water Light é uma dessas estrelas. Ele ocupa um cargo de gerência e atende usinas de açúcar e álcool em toda a região Sudeste. “Entrei na Nalco com 19 ano, como estagiário”, afirma. “Antes, não tínhamos as ferramentas e recursos de hoje, mas a preocupação em estar no cliente e manter o alinhamento e o foco também era constante.” Souza se refere à facilidade dos ambientes digitais como modelo de estratégia no negócio. No seu caso, ele responde a um vice-presidente da América Latina da divisão, com reuniões virtuais frequentes. Souza também mantém uma agenda com Ledezma para alinhamento de resultados e de novos projetos. “Trabalhar de maneira descentralizada é primordial para o modelo de negócios da Ecolab”, diz Souza.

Jeffrey Abrahams: o sócio da Fesap diz que os profissionais que trabalham sem chefia no mesmo ambiente são pessoas de alto desempenho e que precisam de um direcionamento leve (Crédito:Divulgação)

De acordo com Ledezma, é uma das tarefas da empresa o ensino do trabalho de forma independente, além de tentar entender onde as pessoas querem e podem chegar. Ele dá como exemplo a sua própria história. “Na época em que fui transferido para o México pensava em assumir uma divisão da empresa, como meta de carreira”, diz Ledezma. “Mas o convite foi para ter um mercado nas mãos e voltei para o Brasil, que é minha casa.” Para ele, as pessoas têm capacidade de liderança e podem chegar as cargos de comando na companhia. Mas, evidente, há um preço a pagar. Todo talento precisa enxergar quais competências possui e quais precisam ser desenvolvidas para atingir uma meta. E utilizar ferramentas à disposição, como cursos, universidade corporativa e treinamentos regulares. No caso da Ecolab, por exemplo, uma das competências da equipe solta no mundo é a disposição para ajudar o outro. É o que os consultores em formacãao de carreira chamam de vocação para o serviço. “Um funcionário da Ecolab pode visitar um cliente uma vez por semana ou por mês, mas dependendo pode ficar em definitivo dentro da empresa, cuidando a água que uma usina necessita ou comandando um laboratório, por exemplo”, diz Ledezma. “Aí, você é parte de um time e isso tem valor.”