Negócios

Convivência amistosa e lucrativa

Em vez de se intimidar com o crescimento da tendência de redução no consumo de carne, frigoríficos enxergam no mercado de proteína plant-based – que deve movimentar US$ 370 bilhões até 2035 – uma promissora alternativa de receita e posicionamento

Crédito: Divulgação

Uma peça de marketing assinada pela Heineken, Churrasco Sem Carne, colocou a cervejaria em uma polêmica indesejada com os pecuaristas. A resposta veio em forma de desculpa pela marca que retirou as peças do ar. De fato, churrasco sem carne é quase uma heresia, ainda mais para o produtor brasileiro. Mas os carnívoros e pecuaristas estão diante de uma realidade inexorável: cresce a quantidade de pessoas que estão reduzindo o consumo de proteína animal, movimento que está sendo conhecido como flexitarianismo. Enquanto os produtores se mostram reticentes diante da nova moda, os frigoríficos já enxergam nela uma nova fonte de receitas com linhas de produtos plant-based, mercado que foi avaliado em US$ 4,2 bilhões em 2020, 24% maior do que em 2019, de acordo com o The Good Food Institute Brasil (GFI) e que deve movimentar US$ 370 bilhões até 2035. “Essa transição alimentar tem um potencial de expansão tão significativo que mesmo os grandes frigoríficos estão enxergando como uma oportunidade de negócio”, afirmou Paulo Ibri, CEO e fundador da 100 Foods, foodtech especializada em plant-based.

“Para nós o essencial é estarmos preparados para atender a crescente demanda por proteína, seja ela animal ou vegetal ” João Campos Seara/JBL (Crédito:GLADSTONE CAMPOS)

Do ponto de vista do consumidor, a tendência parece consistente. Em pesquisa realizada pelo IBOPE e coordenada pelo GFI, no ano passado a parcela de brasileiros que já diminuiu o consumo de proteínas animal chegou a 50%, contra 29% em 2018. O principal fator para a redução é a preocupação com a saúde, já que o consumo excessivo de carnes ainda está associado ao aparecimento de desequilíbrios na saúde como aumento do colesterol. Verdade ou não, o fato cria um novo mercado. Três grandes frigoríficos encabeçam a lista de mais de 30 companhias que já vendem carne de plantas no Brasil. A Marfrig, com a linha Revolution; a JBS, com a Incrível Seara; e a BRF, via a Veg & Tal Sadia, deixaram o puritanismo de lado e estão investindo pesado para conquistar o consumidor flex, vegetariano ou vegano. Na mais recente tacada, a JBS investiu 341 milhões de euros para comprar a Vivera, companhia europeia de proteínas vegetais. “Para a JBS o essencial é estar preparada para atender a crescente demanda por proteína, seja ela animal ou vegetal”, disse João Campos, diretor-executivo de Alimentos Preparados da Seara, da JBS.

Neste mesmo caminho, a Marfrig foi uma das precursoras do movimento ao anunciar a criação da PlantPlus Foods, uma joint venture com a ADM para a produção de portfólio 100% feito com vegetais. “A demanda por proteínas, tanto de origem vegetal quanto animal, está crescendo no mundo todo, e a Marfrig e a ADM continuarão contribuindo individualmente com o atendimento dessas necessidades de todas as formas que já fazemos hoje”, afirmou Marcos Molina, fundador e presidente do Conselho de Administração da Marfrig, na época do anúncio ao mercado, em maio do ano passado.

CONCORRÊNCIA Na briga pelo flexitariano, os grandes frigoríficos irão enfrentar as foodtechs. No Brasil, a Fazenda Futuro é uma das mais populares entre os consumidores que querem alternativas de produtos plant-based. Criada em abril de 2019, lançou em maio do mesmo ano o Futuro Burger 1.0, primeiro hambúrguer à base de proteína vegetal. Hoje, também vende carne moída, almôndega e linguiça feitos com ervilha, soja, beterraba e algas. “A categoria veio basicamente para criar uma alternativa ao consumo de origem animal, tanto que 95% dos nossos consumidores são flexitarianos”, disse Marcos Leta, fundador da foodtech.

Já a 100 Foods entrou no mercado via linha de condimentos veganos, como maionese de óleo de abacate e de ervilha, e somente depois migrou para produtos análogos aos da carne. Hoje comercializa hambúrgueres, crispy chicken e nuggets. Como matéria-prima, usa basicamente ervilhas verde e amarela, essa última importada da Europa. “De dois anos para cá, o mercado deu um salto, mas a grande barreira para escalar a venda é o preço”, disse Ibri. Atualmente, o consumidor paga o dobro pelo produto feito de planta. Enquanto 452 gramas do Hambúrguer Tradicional Seara Nature custavam cerca de R$ 18 no dia do fechamento desta reportagem, 13/5, o Hambúrguer De Ervilha Sabor Carne SEARA Incrível saía por R$ 20, mas com metade do peso, ou 226g. Parece mesmo um bom negócio para quem vende.