Negócios

Depois da tempestade, a bonança

A safra 2019/2020 foi considerada fraca em volume de produção e trouxe preocupação para o cafeicultor. Para 2020/2021, a expectativa é de um ciclo perfeito com grãos de ótima qualidade, volumes recordes de produção e preços internacionais atrativos

Crédito: Istock

Não há maneiras de imaginar a mesa do café-da-manhã do brasileiro sem o famoso cafézinho. Com o passar do tempo e a melhora constante na qualidade dos grãos, o hábito antes matutino foi ganhando espaço nas demais horas do dia e da noite, alçou posto de evento social e ares de produto gourmet. Em empresas, tornou-se comum o convite para um cafézinho naquele momento de descompreensão, executivos viram em cafeterias uma boa opção de local para as reuniões fora das companhias e mesmo encontros de amigos passaram a ser regados por drinks protagonizados pela bebida. Com o aumento da popularidade veio também o fortalecimento do setor que viu a produção global crescer de 140 milhões de sacas na safra 2010/2011 para 165 milhões em 2018/2019. No Brasil, passou de 43,5 milhões para 49,3 milhões de sacas no mesmo período. Para 2020/2021, a estimativa do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) é que a produção brasileira chegue a 67,9 milhões de sacas.

Estimativas da Usda apontam produção brasileira em 67,9 milhões de sacas na safra 2020/21

“Este ano o clima está colaborando. No ano passado teve muita chuva e dias nublados, provocando o estouro das xícaras” Evanete Peres Domingues Conselheira administrativa da Coocacer Araguari (Crédito:DVU2)

Antes das boas novas que prometem vir com a próxima colheita, o cafeicultor precisou respirar fundo para lidar com a volatilidade entre preocupação e euforia que marcaram os últimos 12 meses. O ano-safra 2019/2020 foi de bienalidade de ciclo baixo com produção de 49,3 milhões de sacas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No meio do caminho, apareceu a pandemia e o isolamento social trazendo falta de previsibilidade para as vendas. Mas, apesar dos contratempos, o setor registrou o segundo melhor ano de exportação, com embarque total de 40 milhões de sacas, próximo ao recorde anterior de 41,4 milhões de sacas da safra 2018/2019. O volume inclui café verde (arábica e robusta) , solúvel e torrado & moído. Dentre os principais destinos, Estados Unidos, seguido de Alemanha e Itália. Em receitas, as exportações somaram US$ 5,1 bilhões, segundo levantamento do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). “Nós praticamente exaurimos o estoque que havia de café arábica. O que nos fez chegar ao número final de transações foram as exportações do café robusta”, afirmou Nelson Carvalhaes, presidente da entidade.

“Como a safra 2019/20 foi de ciclo baixo, o produtor teve que vender grande parte do que colheu em período de preços baixos” Saulo Carvalho Faleiros Diretor comercial da Cocapec

Mesmo diante do segundo melhor ano em exportações, os preços não foram animadores para o produtor, registrando média de US$ 128 a saca de 60kg, valor que oscilou para baixo durante os meses de julho a setembro do ano passado. Para Saulo Carvalho Faleiros, diretor comercial da Cooperativa de Cafeicultores e Agropecuaristas (Cocapec), a safra 2019/2020 cumpriu com o esperado no tocante ao volume, mas a rentabilidade foi prejudicada. “Por ter sido uma safra de ciclo baixo, o produtor teve que vender grande parte do que colheu em período de preços baixos”, afirmou. Foi apenas a partir de outubro de 2019 que o cenário começou a melhorar. “As cotações nas bolsas internacionais reagiram positivamente e tiveram alta. A equação, que também teve como componente positivo a desvalorização do Real, resultou em bons preços”, disse Carvalhaes. Com a melhor precificação, o produtor que ainda contava com estoques pôde escoar o restante da produção passada e antecipar as vendas da safra 2020/2021.

Já para quem investe em cafés especiais, o cenário foi de bonança o ano inteiro. O preço médio da saca foi de US$164, com as exportações somando 6,8 milhões de sacas na safra 2019/2020, segundo dados do Cecafé. “Trabalhamos travado com o mercado já com as vendas de café futuro, então não sentimos grandes impactos de alterações no preço”, afirmou Diogo Dias Teixeira de Macedo, engenheiro agrônomo e proprietário da Fazenda Recreio, que colheu 5,2 mil sacas e exportou cerca de 60% da produção. Localizada em São Sebastião da Grama, na divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais, a Fazenda acumula mais de 15 prêmios pela excelência e performance dos grãos desde 2000 quando entrou no mercado de cafés especiais.

Apesar da instabilidade mundial, preço do café para exportação DEVE se manter estável em 2021

PERSPECTIVAS Ao contrário das instabilidades dos anos recentes, a safra 2020/2021 faz os tambores rufarem diante das grandes expectativas, tanto em produção, como em qualidade. “Este é um ano de bienalidade de ciclo alto, o clima ajudou e os cafés estão bonitos e graúdos”, disse Carvalhaes. Apesar das boas perspectivas, a colheita está atrasada em relação à anterior. Até o final de julho do ano passado já haviam sido colhidos 83%. Este ano, o volume está em 71%, segundo levantamento da consultoria Safras & Mercado, que estimou uma supersafra de 68,1 milhões de sacas.

“A expectativa é que os preços se mantenham em alta, mas é preciso acompanhar e fazer análises contínuas de mercado” Nelson Carvalhaes Presidente do Cecafé (Crédito:Divulgação)

Um dos motivos que explicam o atraso na colheita é a pandemia, que fez com que cooperativas instruíssem produtores a restringirem o número de trabalhadores no campo, para que as chances de contágio fossem reduzidas. “Foi necessário adotar mudanças nos alojamentos, refeitórios, transporte da propriedade até a lavoura e, também, estabelecer um menor número de colhedores de café nos talhões”, explica Carlos Augusto Rodrigues de Melo, presidente da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé).

A colheita da safra 2020/2021, iniciada em abril com o café robusta, e em maio com o café arábica, recebe destaque na qualidade, muito diferente do resultado obtido na safra anterior. “Houve um período de florada uniforme e a fase de granação com período de chuva bem expressivo. O clima seco também está ajudando na colheita”, afirmou Melo. A questão climática é apontada como um diferencial para os resultados deste ano também pela produtora e conselheira de administração da Cooperativa de Cafeicultores na Região do Cerrado Mineiro (Coocacer Araguari), Evanete Peres Domingues. “Este ano o clima está colaborando. No ano passado sofremos com muita chuva, dias nublados e sem sol, isso provocou o estouro das xícaras”, afirmou.

“Com a Covid-19 foi necessário adotar mudanças nos alojamentos, refeitórios, transporte e reduzir o número de colhedores de café nos talhões” Carlos Augusto Rodrigues Melo Presidente da Cooxupé (Crédito:Laís Podestá Fotografia)

Já com relação aos preços, mesmo com a instabilidade mundial tirando o sono dos produtores, acredita-se em um mercado estável. “A expectativa é que os preços se mantenham em alta, mas é preciso acompanhar e fazer análises contínuas de mercado”, afirmou Carvalhaes, presidente do Cecafé. Se a cotação ajudar, os produtores projetam novos recordes de exportação. Mercadoria não vai faltar. Diante de uma demanda externa crescente do grão, o País poderá contar com a ajuda do estoque da safra atual para suprir os pedidos do primeiro semestre do ano-safra 2021/2022, que será mais uma vez de ciclo baixo.

Numa perspectiva de longo prazo, a demanda internacional só deve crescer. Estimativas do Cecafé, projetam consumo médio de 196 milhões de sacas no mundo até 2030, em um cenário conservador. Caso confirmado, o incremento será de 17,4% perante a safra atual. Para acompanhar o ritmo e manter sua participação no mercado global, o Brasil deveria extrapolar sua produção em mais de 70 milhões de sacas por ano.

MERCADO INTERNO Já dizia o cientista britânico Alexander King: “A necessidade básica do coração humano durante uma grande crise é uma boa xícara de café quente”. O brasileiro quem o diga. Assim que a pandemia se instalou no País, logo no início do mês de março, a corrida aos supermercados de todo o País foi grande. A população precavida invadiu as lojas em busca de produtos secos facilmente estocáveis. Um deles foi o café, que contabilizou aumento de 35% nas vendas no mês, segundo Ricardo de Sousa Silveira, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Apesar do aumento repentino nas vendas, os dois meses seguintes foram muito mais calmos. Com o estoque do produto em casa, o brasileiro não retornou aos mercados para novas compras, o que provocou queda nas vendas no segundo trimestre.

Junto com a imposição do isolamento social, o setor também foi duramente afetado pelo fechamento provisório das Horecas, como é batizado o segmento formado por hotéis, restaurantes e cafeterias. O setor, que antes da crise representava 30% do consumo da mercadoria no País, se encontra em um momento de reabertura lenta e gradual, mas longe de alcançar o patamar obtido na era pré-Covid-19. “Alguns estabelecimentos nem vão abrir mais”, afirmou Silveira. Diante do cenário, as expectativas de melhora para o setor não são de curto prazo, ao menos enquanto as Horecas não puderem retornar a rotina antes da pandemia. Além de fazer o dever de casa no campo, os produtores torcem para que a vacina seja encontrada logo e que o tal do novo normal seja parecido com o velho normal, ao menos quando se tratar de tomar um bom cafézinho sob qualquer pretexto.

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