Finanças

Dólar acima de R$ 5,00 quem ganha e quem perde?

A balança comercial do agronegócio registra recorde com super safra e ajuda do câmbio, mas a valorização da moeda americana frente ao Real atinge produtores brasileiros de maneiras diferentes

Crédito: Divulgação

Dois lados- Quem exporta, ganha. Já quem compra insumos em dólar ou tem dívidas na moeda, sofre (Crédito: Divulgação)

Quando o assunto é câmbio, há um consenso quase geral entre analistas: a desvalorização do real frente ao dólar fertiliza o agronegócio brasileiro. Com o preço do dólar em alta, as receitas geradas pelas vendas dos produtos ao mercado externo aumentam e, como consequência, melhoram a remuneração do exportador, a balança comercial e a formação do PIB Agro e do Brasil. Toda boa regra, no entanto, traz exceções. O mesmo câmbio que favorece uns, prejudica outros. Na lista, importadores de mercadorias, agricultores que compram produtos precificados em dólar no mercado interno e empresas com dívidas em moeda estrangeira.

No meio da balança, aqueles que fazem operações planejadas e responsáveis de hedge natural ou cambial. Para o agronegócio, a posição do País como agressivo exportador e tímido importador é favorecida pela depreciação da moeda brasileira. No acumulado de janeiro a maio deste ano, mesmo com a anomalia causada pela Covid-19 no mercado global, as exportações do agronegócio brasileiro registraram o melhor resultado da série histórica com US$ 42 bilhões movimentados, valor 7,9% superior ao mesmo período de 2019. Tire do resultado os US$ 5,4 bilhões de importação, 9,4% menor do que igual intervalo do ano passado, e o saldo fica em US$ 36,9 milhões.

Na avaliação isolada do mês de maio, quando o dólar comercial variou entre a mínima de R$ 5,29 e a máxima de R$ 5,93, o setor também registrou recorde com a movimentação de US$ 10,93 bilhões, 17,9% a mais do que mesmo mês de 2019. Já as importações, diminuíram de US$ 1,18 bilhão para US$ 835,8 milhões na comparação entre maio de 2020 e de 2019, recuo de 29,3%. Com o desempenho, o agronegócio respondeu por 60,9% do volume total exportado pelo País. O saldo da balança comercial somou US$ 10 bilhões, mantendo o desempenho superavitário que registra há 25 anos, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Desvalorização da moeda brasileira…

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… compensou queda de preços em dólar

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“Nossa safra 2019/2020 foi a melhor da história e a vendemos com um preço muito bom, graças ao efeito do câmbio”, Aurélio Pavinato, SLC (Crédito:Divulgação)

O câmbio não agiu sozinho para os bons resultados, mas teve papel fundamental. “O país está se beneficiando de uma poderosa equação que alia excelente safra, alta demanda internacional e dólar valorizado, o que remunera bem o produtor”, explica Thiago Duarte, analista do BTG Pactual. O grande impulso veio da China, historicamente o maior consumidor de commodities agrícolas brasileiras. O país aumentou sua demanda pela soja em grão, proteína animal, açúcar e celulose. “A soja foi a grande vedete da entrada de recursos no País nos primeiros meses do ano, beneficiando bastante o produtor”, afirma Bianca Moura, da Terra Investimentos. O país asiático importou 71,5% de soja em grãos do Brasil, o que corresponde a US$ 3,7 bilhões do volume total de US$ 5,2 bilhões exportados pelo setor em maio. A carne bovina foi o segundo produto com a marca Brasil mais vendido ao exterior com US$ 780 milhões, seguido do açúcar, US$ 767 milhões.

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Entre as maiores beneficiadas individuais com a alta da moeda americana, estão as empresas com vocação exportadora. Caso da SLC, produtora de soja, milho e algodão. Com 90% da produção voltada para os portos e 100% dela precificada em dólar, a empresa comemora os resultados dos primeiros meses do ano que, de quebra, também trouxeram recorde na safra de soja com 65 sacas por hectare. “Nossa safra 2019/2020 foi a melhor da história e a vendemos com um preço muito bom, graças ao efeito do câmbio”, afirma Aurélio Pavinato, diretor-presidente da SLC. No resultado do primeiro trimestre, a empresa registrou lucro líquido de R$ 156,4 milhões, alta de 40% com relação ao mesmo período do ano anterior. No acumulado de maio de 2019 a maio de 2020, as ações da empresa na B3 valorizaram mais de 50%.

“A soja foi a grande vedete da entrada de recursos no país
nos primeiros meses do ano”, Bianca Moura, da Terra Investimentos (Crédito:Divulgação)

IMPORTAÇÕES

Do outro lado da moeda, a valorização do dólar aumenta a pressão sobre os custos. Sofrem os importadores e também os produtores que compram mercadorias precificadas pela moeda americana no mercado interno. Os insumos são bons exemplos. Para dar uma dimensão do impacto, do custo operacional efetivo de R$ 2,8 mil que um agricultor de Sorriso (MT) tem para cultivar um hectare, R$ 1,8 mil estão atrelados às mercadorias precificadas em dólar, como adubos e sementes, segundo levantamento da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA). “Quem comprou o pacote tecnológico em maio quando o dólar chegou a quase seis reais terá sua rentabilidade prejudicada. Quem comprou no início do ano está comemorando”, explica Renato Conchon, coordenador do Núcleo Econômico da CNA.

Outro grupo que pode sair com sérios danos devido ao câmbio é formado por companhias com dívidas em dólar. O tamanho do impacto depende da situação de cada empresa, mas alguns setores podem ser especialmente prejudicados. “De maneira geral, a cadeia sucroenergética tem histórico relevante de endividamento em dólar. Em um momento em que a moeda americana tem uma supervalorização como neste ano, dependendo da estrutura da dívida, o problema pode ser bastante sério”, analisa Thiago Duarte, do BTG Pactual.

HEDGE

Para evitar exposições perigosas diante da vulnerabilidade cambial, as empresas do agronegócio costumam recorrer ao hedge. A operação, no entanto, exige planejamento e controle apurados, como afirma André Fernandes, professor de Finanças Corporativas da Universidade Mackenzie. “O uso de operações derivativas deve estar em acordo com a exposição de cada empresa ao risco. Quando passa de um instrumento de proteção para especulação financeira, a possibilidade de ir à bancarrota realmente existe”, afirma Fernandes. Felippe Serigati, coordenador do mestrado profissional em agronegócio da FGV, endossa a necessidade de planejamento no caso de hedge cambial. “Quem não tem uma gestão eficiente acaba se expondo de maneira perigosa, independentemente se o custo tem origem nas importações ou na compra de produtos com preços internacionais no mercado interno”, diz.

Mesmo empresas que tem hedge natural, quantidade importada é equivalente à exportada, correm riscos. A produtora de fertilizantes Kimberlit é um caso em que o equilíbrio é, em teoria, ideal. A empresa importa 5% de seus insumos e exporta 5%, sobretudo para o Paraguai. “A balança parece equilibrada, mas o hedge não é puro porque não acontecem ao mesmo tempo. Enquanto compramos os insumos no primeiro semestre, vendemos 80% dos nossos produtos no segundo semestre”, afirma Luciano Gissi, diretor industrial da empresa. Para minimizar impactos, a companhia investe em gerenciamento de risco. “Tentamos vender bem os produtos. Nossa safra deste ano, por exemplo, começou a ser comercializada em novembro do ano passado e vamos receber agora com o dólar em patamares mais alto”, explica. A empresa espera crescer 20% em 2020 alcançando faturamento de R$ 130 milhões.

O descasamento das operações não é um fenômeno raro segundo opinião de Eduardo Daher, diretor-executivo da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), “Tem muita gente que adora correr riscos com o câmbio e esquece que nem sempre o hedge protege o produtor. O resultado pode ser ótimo se a compra de insumos acontece com dólar baixo e a venda na alta. A situação contrária pode ser desastrosa.”

Ainda que o resultado com a balança comercial tenha agradado toda a indústria, dez entre dez produtores estão preocupados com a atípica movimentação cambial registrada neste ano. Nos primeiros cinco meses de 2020, o real valorizou mais de 30%, passando de R$ 4,01 em janeiro até a máxima de R$ 5,90, em 13 de maio. “A volatilidade é o mais alarmante para o setor, pois torna impossível se ter previsibilidade sobre o custo e sobre o retorno sobre o investimento”, destaca Lucas Nóbrega, economista do Santander. Segundo análise do banco, o preço justo para a moeda americana seria de R$ 5,00. Nóbrega, no entanto, faz uma alerta: “está muito difícil prever o que acontecerá, uma vez que há grande incerteza sobre uma possível segunda onda do Covid-19”, alerta.

VOLATILIDADE

Até setores historicamente beneficiados pela desvalorização do real estão desconfortáveis com a volatilidade da moeda. “Melhor do que dólar alto é câmbio estável”, afirma Ricardo Santin diretor-executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Atualmente, o Brasil vende aves, carnes suína e bovina para mais de 160 países, mas a falta de previsibilidade afeta o planejamento das empresas. “A maioria dos custos do setor está nos grãos que têm preços estabelecidos no mercado internacional. Quando o preço da moeda americana sobe, os preços em reais também se elevam como o caso do milho com alta de 55% e do farelo de soja, 25%, corroendo parte dos resultados”, completa.

Ainda que receosos com a instabilidade, o fato é que empresas de proteína animal que vendem ao exterior não podem reclamar. “A agenda política de abertura de novos mercados, como o Vietnã, com o consequente redimensionamento imediato dos produtores para atender a nova demanda, aliados ao real desvalorizado está contribuindo para geração de capital de giro. No longo prazo, essa estratégia contribuirá para a manutenção superavitária de balança e para a estabilidade cambial”, afirma Ricardo Conchon, CNA. Entre indas e vindas do dólar, o produtor brasileiro mira no futuro e trabalha para continuar alimentando o mundo.

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