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Em busca da horta perfeita

O mercado de sementes para hortaliças atrai produtores, cresce 12% ao ano e coloca o setor no radar de grandes empresas. Saiba por que elas estão apostando tanto na expansão do Brasil

Crédito: Thiago Mesquita de Freitas

Tomate Premium: Ezequiel Machado, da fazenda Agromaringá, diz que hortaliças de qualidade têm demanda garantida em grandes centros de consumo (Crédito: Thiago Mesquita de Freitas)

N os arredores do distrito de Martinésia, a 35 quilômetros de Uberlândia, um dos municípios mais ricos de Minas Gerais, o cultivo de hortaliças chamou a atenção de uma centena de produtores rurais, de várias partes do País, em um encontro realizado em agosto. Viçosos e atraentes, tomates, cenouras e cebolas enchiam os olhos de produtores como Gilmar Freire, 50 anos, dono da fazenda Ilha Grande, de 120 hectares no município de Belém do São Francisco (PE), na região do Vale do Rio São Francisco, que se tornou polo de cultivo de hortaliças e de frutas. O produtor, que planta maracujá e manga, estava interessado na cebola, hortaliça à qual ele já dedica 50 hectares de sua propriedade. “Aqui tem algumas variedades que podem aumentar a minha produtividade”, afirma Frei­re. O interesse de Ezequiel Rodrigues Machado, 38 anos, gerente de cultivo da fazenda Agromaringá, do empresário Paulo Sérgio Durante, de Sorocaba (SP), era saber onde estavam as biotecnologias mais a­van­çadas daquela horta. A Agromaringá, que no ano pas­­sado faturou R$ 1,5 milhão, quer crescer atendendo a demanda do mer­cado consumidor por uma variedade de tomate com melhor aspecto visual e de frutos uniformes. A fazenda cultiva 3,5 hectares de tomates em estufas e tira uma safra anual de 740 toneladas. Segundo o técnico agrícola, o tomate premium tem espaço garantido em grandes centros como São Paulo e cidades polo de região. “A procura é constante, chegando até a faltar produto de qualidade”, diz Machado. “Isso é um negócio que dá dinheiro ao produtor.” Mas que encontro foi esse que mostrou aos produtores uma plantação com diferentes atrativos?

Caminho: Sebastian Langbehn, diretor global da Seminis,
braço da Monsanto para sementes, diz que investir em genética é a melhor saída para as empresas (Crédito:Divulgação)

O grupo de agricultores estava em Martinésia para conhecer a super horta da alemã de biotecnologia Bayer, a primeira estação de pesquisa e melhoramento genético de hortaliças da empresa no País. “A ideia é prover os produtores de uma genética de plantas cada vez mais produtivas”, diz o agrônomo Daniel Labarda, diretor da unidade de sementes de hortaliças e ve­­ge­tais da empresa para a América do Sul. “Além disso, oferecer plantas com mais sabor e variedade, como os tomates, bem mais doces dos que estão hoje no mercado.”

Embalado pelo estilo de vida mais saudável, o consumo de hortaliças está em expansão no País. Com ele, cresce um mercado que interessa à agroindústria: o das sementes melhoradas, cuja demanda tem aumentado 12%, em média, ao ano para atender a cadeia produtiva de hortaliças, um setor que movimenta R$ 55 bilhões, se­­gun­do a Associação Brasileira do Comércio de Sementes e Mudas (Abcsem). Além da Bayer, outras gigantes disputam uma fatia do mercado de R$ 800 milhões de sementes de hortaliças, entre elas a suíça Syngenta, a americana Monsanto, a japonesa Sakata Seeds Sudamerica, e empresas brasileiras de peso, como a Agristar. No mundo, o mercado de biotecnologia de sementes é estimado em € 3,4 bilhões. O Brasil, um país de vocação agrícola, corre para ganhar posição na disponibilidade de biotecnologia de ponta. É com ela que a horticultura brasileira pode avançar e tirar o País de uma tímida participação global.

Herança: Cássio Gobb quer implementar novidades para perpetuar a Gobb Saladão, do Espírito Santo, um negócio iniciado por seu pai, Antonio (Crédito:Thiago Mesquita de Freitas)

A estimativa mundial da área de hortaliças é de 61,2 milhões de hectares, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês). Os maiores produtores são a China, a Índia, a Nigéria, a Turquia e os Estados Unidos. No Brasil, o cultivo de 837 mil hectares representa 0,5% da área plantada, de onde são colhidos 63 milhões de toneladas de folhosas, tubérculos e frutos para saladas, segundo dados da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Com poucas exceções, essas áreas se concentram nos chamados cinturões verdes ao redor de grandes cidades nos Estados de São Paulo, Goiás, Minas Gerais, Bahia, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. De modo geral, por aqui é a oferta restrita e o custo elevado de produção que leva ao baixo consumo. A média anual é de 27 quilos por pessoa. Na Itália, são 160 quilos e nos Estados Unidos, 98,5 quilos, segundo dados do IBGE.

O tomate, por exemplo, é uma das hortaliças mais consumidas e também uma das mais caras para se produzir. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), de Pi­­ra­ci­ca­ba (SP), a média de custo da lavoura por hectare foi de R$ 99,47 mil no ano passado, isso equivale a 40 vezes o custo da soja no Paraná. “Nosso foco é ajudar o produtor a cortar os custos de produção e trazer variedades mais resistentes e adaptadas ao Brasil”, afirma Labarda, da Bayer. Era atrás de novidades como essa que Cássio Berçan Gobb, 19 anos, estava interessado na visita ao centro da multinacional. Cássio é filho do produtor Antonio Geraldo Gobb, da marca Gobb Saladão, que cultiva 250 hectares de tomate no município de Afonso Cláudio (ES). “Quero dar continuidade ao trabalho do meu pai e manter a marca no futuro”, diz ele Hoje, a empresa fatura cerca de R$ 4,5 milhões com o tomate.

A americana Monsanto é outra que está bem interessada em fomentar o desenvolvimento de negócios como o da Gobb Saladão. Segundo o agrônomo argentino Sebastian Langbehn, diretor global da empresa para a marca Seminis, com sede em Saint Louis (EUA), o crescimento do consumo de hortaliças no País vai depender justamente de variedades que garantam qualidade. “É esse o caminho”, diz Langbehn, em entrevista exclusiva à DINHEIRO RURAL. Quando a Monsanto comprou a Seminis, em 2005, ela adquiriu uma base genética de 152 anos de mercado. Hoje, estão no radar culturas como o tomate, a cenoura, a cebola, o pepino e o milho doce. Neste ano, por exemplo, a Monsanto lançou uma variedade de cebola que rende 100 toneladas por hectare, ante a média de 28,2 toneladas por hectare no País, segundo o IBGE, e a tecnologia brilliant white para couves-flores que garante um produto mais branco do que as variedades convencionais.

Rainha da salada: Marcello Takagui, presidente da Sakata, diz que um dos focos é a alface. De cada dez pés da variedade crespa colhidos, sete são de genética da empresa (Crédito:Divulgação)
Cebola: com a variedade da Bayer, o produtor Gilmar Freire quer turbinar sua lavoura em Belém do São Francisco (PE)

Para as empresas, a conta é simples: investir naquilo que está em falta. Por isso, o Brasil é uma imensa terra de oportunidades. Segundo o agrônomo Joachim Schneider, diretor global de sementes de hortaliças e vegetais da Bayer, a horta experimental é parte da estratégia de crescimento nesse setor. “Para nós, o mercado de hortaliças é relativamente novo. Tem apenas 17 anos”, diz ele. “Por isso confiamos no crescimento que ele tem registrado.” Com o campo mineiro, a alemã totaliza 26 unidades de desenvolvimento de genética de hortaliças no mundo, com unidades no México, nos Estados Unidos, na Holanda, na Espanha e na Índia. Os recursos para o setor fazem par­te de um total de € 4,7 bilhões aplicados em pesquisa e desenvolvimento no ano passado, ou seja, 10% da receita mundial da companhia. Outra empresa que aposta no segmento é a Monsanto, que faturou globalmente US$ 801 milhões no mercado de hortaliças. A empresa investiu US$ 4,8 milhões em melhoramento genético no País. “É o mai­or investimento quando comparado ao das demais empresas”, diz Langbehn. Isso correspondeu a 17,6% de seu faturamento no País, que é da ordem de US$ 27,6 milhões.

A japonesa Sakata, com sede em Bragança Paulista (SP), também não poupa investimento. Segundo o agrônomo Marcello Takagui, presidente da empresa no Brasil, de sua receita local de R$ 150 milhões no ano passado, R$ 21 milhões se destinaram às pesquisas. “A alface está entre as nossas prioridades”, diz o executivo. “No Brasil, grande parte da folhosa consumida vem da nossa genética.” Hoje, de cada dez pés de alface crespa colhidos, sete têm genética da Sakata. A variedade é a campeã nos campos, representando metade dos 1,6 milhão de toneladas colhidas no País. A empresa tem apostado em tecnologias de ponta, algumas delas para o cultivo hidropônico, sistema no qual a planta recebe água diretamente na raiz, e também em novidades para atrair o consumidor. A mais recente é a alface de cor roxa. “Foi com a pesquisa que conseguimos uma variedade de cor mais intensa”, diz Takagui. “Ela tem tudo para atrair mais consumidores.”