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Entrevista

José Simas

Eu acredito demais na pecuária a pasto do Brasil

Claudio Gatti

Eu acredito demais na pecuária a pasto do Brasil

Vera Ondei
Edição 04/05/2017 - nº 147

As Américas terão, daqui para frente, um protagonismo cada vez maior no desenvolvimento do agronegócio mundial e na capacidade de superar desafios. E o Brasil terá um papel de destaque. Essa é a crença do zootecnista português José Simas, diretor global de Operações da Elanco para a América Latina, empresa que pertence à multinacional americana Eli Lilly, uma gigante que fatura US$ 20 bilhões por ano. À frente da farmacêutica animal desde janeiro, sediado nos EUA,Simas, que está na empresa há 16 anos, conhece muito bem a realidade do País e acompanha com lupa o que ocorre no mundo. No Brasil, ele viveu entre os dez anos de idade e a formatura na Universidade de São Paulo. Como executivo, ele tem participado das decisões da Elanco em várias partes do mundo. Acompanhe:

Qual o papel da pecuária brasileira hoje?
O Brasil tem muita tecnologia e vai ter cada vez mais um papel de liderança no destino das Américas, junto com os Estados Unidos. Estou bastante confiante do seu papel na América Latina. O País tem um modelo de criação de gado que é sustentável e que nenhum outro lugar alcançou o mesmo patamar. Eu acredito demais na pecuária a pasto do Brasil. Sim, houve muitas mudanças nos últimos 30 anos, apesar de às vezes as pessoas acreditarem que mudou pouco. Qualquer índice de produtividade que se pegar hoje é muito diferente. Há seis anos o Brasil produzia seis milhões de toneladas de carne bovina e hoje são quase dez milhões, para um rebanho praticamente igual.

O País dará conta de ser protagonista?
A economia tende a reagir. É dado como certo o retorno do crescimento do PIB daqui para frente. Há uma relação muito forte do agronegócio na sua composicão que, creio, é único no mundo. O mundo vê o Brasil como um celeiro. Isso é uma realidade, olhando para a frente de 2020.

Nos Estados Unidos, qual o principal desafio do agronegócio?
Mesmo antes do evento Trump, eu diria que a dor de cabeça número um é a mão de obra, é o capital humano, a qualificação. Um pouco como ocorre no Brasil. O desafio é como reter a mão de obra qualificada. Outro ponto é o comércio internacional. O grande celeiro do mundo são as Américas, embora nos acordos entre países a sua agropecuária acabe ficando envolvidas em acordos, por exemplo, sobre aço ou carros. O terceiro ponto é como o consumidor está se tornando um protagonista ao ditar práticas e modelos de produção. É preciso ouvir as suas demandas.

O presidente Trump está dificultando as relações na agropecuária americana?
Eu diria que as opiniões estão divididas entre sim não. Nos Estados Unidos, o que está em jogo é o trabalho, porque o campo depende da mão de obra da imigração. Ainda não está definido qual modelo e qual processo de imigração o país terá, associado com a mão de obra. O Brasil não tem esse problema. Mas Trump escolheu como secretário de agricultura um personagem do meio rural, um veterinário. Sonny Perdue foi governador do Estado da Geórgia, entende muito de agricultura e de pecuária. Por isso, diversas associações têm tido uma posição positiva em relação à sua nomeação.

Em relação ao acordo Transpacífico, colocado no chão pelo governo Trump, existe a possibilidade de retorno?
É público que o governo americano tem a intenção de desenvolver acordos bilaterais. Esse é o modelo. O governo vai sim colocar freios em acordos multilaterais.

Qual a saída para países exportadores que têm apostado em blocos?
Não vejo dificuldade nas commodities. O mundo precisa de soja e de milho. Nos próximo anos, o aumento do consumo per capita vai ser alimentado pela produção dos Estados Unidos, do Brasil e da Argentina. Acordos passarão por esses países.

Gente de fora: empresas de hortaliças que operam na Califórina precisam da mão de obra de imigrantes mexicanos

“Nos Estados Unidos, o campo depende da mão de obra da imigração. No Brasil, não”

O Brasil tem alguma chance com países como, por exemplo, o México?
O México é um grande importador de proteína animal e vegetal, mas é quase um Estado americano. Se houver a falência do Nafta, o Brasil estará preparado para mandar carne e grãos para lá.

Como as multinacionais, entre elas a Elanco, se inserem nesse contexto?
Ficando do lado da produção Nós, historicamente, temos um portfólio focado na saúde animal, que se reflete em produtividade. E queremos crescer. Recentemente fizemos muitas aquisições. A Novartis foi comprada por US$ 5,4 milhões. Compramos também o centro de pesquisa da Boehinger. Basicamente, o que move o agronegócio é o conjunto das pesquisas. São elas que precisam responder aos desafios. Nós criamos, por exemplo, a Unidade de Nutrição focada na saúde de monogástricos. Mas as pesquisas vão avançar para ruminantes, para os bovinos.

Qual o focos dessas pesquisas?
O que temos como horizonte é exatamente como as tecnologias e as ciências impactam a sociedade e o consumidor. Daí surgiu a plataforma Human Health. Como ajustamos nossas estratégias e como as inovações impactam o meio ambiente, o bem estar e a saúde animal, e qual o impacto em saúde pública. É um caminho sem volta. Hoje, já existem produtos que reduzem a emissão de amônia, a emissão de gases de efeito estufa. São as tecnologias que responderão a uma crítica severa que a sociedade faz ao campo. Por isso, sob todos os pontos de vista, os espaços de inovação devem ser associados com o produtor.

Essa resposta, em forma de tecnologias, chegará em quanto tempo?
Em breve e algumas já estão adiantadas. Atualmente, temos 50 projetos em fase de desenvolvimento, dos quais oito estão progredindo para a fase experimental, e 21 projetos estão em provas de conceito.

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