Tecnologia

Fazendas de luz

Suplementação luminosa com composição espectral adequada pode aumentar o potencial produtivo de hortaliças, leguminosas e culturas de alto valor agregado, como trigo e soja, em mais de 50%

Crédito: Claudio Gatti

“Estudamos as necessidades das plantas para fornecermos luz na quantidade ideal e com o espectro adequado para se desenvolverem” Mateus Delalibera, Cofundador da Pink Farms (Crédito: Claudio Gatti)

Agricultura não existe sem sol. Será? De fato, uma incidência solar correta determina a qualidade de uma lavoura. Mas, apesar de ser a principal fonte de luz, não é a única. Com o desenvolvimento de novas tecnologias, a iluminação artificial vem atraindo a atenção de pesquisadores, empresas e produtores. “Estudamos as necessidades das plantas e fornecemos luz na quantidade ideal e com o espectro adequado para se desenvolverem”, afirmou Mateus Delalibera, cofundador da Pink Farms. Dentre os motivos que a tornam uma ferramenta cada vez mais relevante estão a possibilidade de estender o fotoperíodo, ou seja, aumentar o comprimento do dia e a de torná-la a única fonte de suplementação luminosa para variadas culturas. Em outras palavras, o uso de lâmpadas LED se reverte em aumento de produtividade e economia de insumos para os produtores, além de tornar os alimentos tão ou mais saudáveis e no cultivo tradicional para os consumidores. A professora do departamento de produção vegetal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) Simone da Costa Mello explica que os estudos no País tiveram início em 2014 quando a Philips queria explorar o impacto da tecnologia na produção de tomate, pepino e pimentão em estufas agrícolas. “Utilizamos a iluminação artificial no dossel de pés de minitomates e obtivemos uma produtividade 15% maior na produção dos frutos”, afirmou Simone. Para que a iluminação colabore no processo de suplementação, no entanto, é preciso a realização de minuciosos estudos para entender qual é a composição de cores, intensidade e a duração adequadas para o cultivo escolhido. “Cada cor representa um comprimento de onda e as plantas respondem de formas diferentes às composições espectrais”, disse. Conhecer o material genético para revelar qual a maneira mais eficiente de utilização são as maneiras mais seguras para assegurar o resultado.

Divulgação

Com os primeiros testes bem sucedidos, começam a surgir empresas focadas no desenvolvimento de soluções para a plantação em estufas e fazendas urbanas, como é o caso da Signify, que detém em seu portfólio marcas como a Philips Lighting. Dedicada ao tema desde 2007, a empresa intensificou as pesquisas nos últimos anos, obtendo números que comprovam a eficiência da luz de LED em hortaliças. “Em alfaces o rendimento anual pode ser até três vezes maior em comparação com a produção em campo aberto”, afirmou Ramiro Robles, gerente comercial de agricultura na América Latina da Signify. Vale destacar que além da correta utilização da técnica, o sucesso da lavoura também depende de outros fatores. “O aumento da produtividade vai de acordo com o tipo de cultura, variedade e circunstâncias locais, como temperatura, umidade, gás carbônico, água e nutrição”, disse Robles.

Suplementação luminosa com composição espectral adequada pode aumentar o potencial produtivo de hortaliças (Crédito:Divulgação)

COMPOSIÇÕES Neste modelo de cultivo, a cor dos feixes é ponto crítico. Enquanto o olho humano é mais sensível ao verde e amarelo, as plantas são ao vermelho e ao azul, que são os comprimentos de ondas mais absorvidos pelas clorofilas A e B. Não é por outra razão que a Pink Farms, considerada a maior fazenda vertical urbana da América Latina, utiliza essas lâmpadas a seu favor. Localizado em São Paulo, o galpão de 750 m² da empresa é dedicado às hortaliças no sistema aeropônico – mantidas suspensas no ar apoiadas pelo colo das raízes – e hidropônico. Para elevar a produção e aumentar a qualidade, a propriedade utiliza 20% de luz azul e 80% da vermelha, índices que são ajustados caso haja necessidade. “A composição funciona muito bem. Temos capacidade para produzir cerca de 4 toneladas por mês”, afirmou Geraldo Maia, sócio-fundador da empresa, que destaca que a iluminação fica ligada de 18 a 20 horas por dia. Além da produtividade elevada, o ambiente controlado permite uma economia de 95% do consumo de água e uma redução de 60% no uso de fertilizantes, além do zero uso de agrotóxico e aproveitamento de 100% de tudo que é produzido.

Mesmo a combinação do vermelho com o azul sendo a mais utilizada, outras alternativas podem gerar bons resultados. A Fazenda Cubo, usa a luz branca para a produção de alguns tipos de hortaliças hidropônicas em espaço de 70 m², com volume mensal que chega a 900 kg. Em sua produção, utiliza tons que variam também entre o laranja, amarelo e verde, que são recebidos por outros fotorreceptores. “Mantemos um pico no azul e no vermelho que são as de alta absorção, mas as plantas também aproveitam outros comprimentos de onda que são importantes para seu bom desenvolvimento”, afirmou Paulo Bressiani, fundador da empresa. O contato com diferentes tons pode fazer com que o sabor e até o aroma de algumas plantas sejam ressaltados. “Conseguimos entregar um produto de qualidade, fresco, saboroso e livre de agrotóxico”, disse Bressiani. Além da possibilidade da iluminação artificial ser usada como a única fonte no caso dos cultivos indoor, ela também pode ser utilizada em ambientes abertos.

O Grupo Fienile, formado por produtores e pesquisadores com experiência em cultivos agrícolas, desenvolve há mais de cinco anos um projeto voltado para a criação do primeiro pivô central com iluminação artificial para o aumento do fotoperíodo. Há dois anos, a primeira propriedade recebeu a tecnologia para testes. Localizada na região do Triângulo Mineiro e Alto Parnaíba, a iniciativa está instalada em uma área irrigada de 100 hectares, onde são trabalhadas 14 culturas, entre elas cana-de-açúcar, algodão, trigo, milho, soja além de flores, tubérculos e legumes. As plantas recebem irrigação de iluminação e água durante a noite e em períodos nublados. A inovação nomeada como Irriluce, ainda em fase piloto, já registra incremento médio de produção de 66%, com variações de acordo com a cultura. “Precisamos de mais um verão para validar. Então quando tivermos resultado de três verões e três invernos, teremos conclusões mais certeiras”, afirmou Gustavo Grossi, engenheiro-agrônomo e sócio do grupo. Além das luzes vermelha e azul, estudam também a aplicação do amarelo e verde. “Cada cultura, em cada lugar do Brasil, tem suas especificidades, então a gente precisa saber qual o melhor espectro de luz para cada região”, disse.

CUSTO-BENEFÍCIO Para que a tecnologia ganhe escala, o caminho passa por esforços em pesquisa e desenvolvimento, além de redução do investimento necessário. “O valor da energia elétrica, por exemplo, encarece a produção, mas com a popularização do LED na agricultura, a tendência é diminuir”, disse Simone. Como toda tecnologia disruptiva, os desafios existem. O segredo é colocar os prós e contras na balança, pois além da melhora da colheita e da economia gerada, há ainda aspectos de sustentabilidade que precisam ser considerados. “Conseguimos reduzir em 35% o uso de agrotóxicos e 18% a aplicação de lâmina d’água por hectare/ano a céu aberto, além de utilizar quantidades menores de recursos hídricos”, disse Grossi. Assim como qualquer inovação que chega ao campo, o uso de luzes artificiais não é saída milagrosa, mas uma ferramenta a mais para o produtor brasileiro que está em busca de soluções que sejam boas para o consumidor e para os negócios.

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