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Força feminina no cafezal

Com sensibilidade, conhecimento e boa gestão, as mulheres fazem a diferença no mercado nacional de cafés especiais, do plantio ao preparo

Crédito: Istock

Pioneira Aos 63 anos, Carmen de Brito planta café há 10. “Cada vez mais, o consumidor está interessado naquilo que oferecemos na xícara, além do sabor” (Crédito: Istock)

Lugar de mulher é onde ela quiser”. A frase tornou-se bandeira do movimento feminista na busca pela ocupação de espaços na sociedade. Essa máxima chegou ao setor de cafés especiais, que produziu no ano passado 9,1 milhões de sacas de 60 quilos (15% do total cultivado no País). Boa parte dessa produção está nas mãos de mulheres. Elas conquistaram espaços em todas as etapas da cadeia, da plantação ao preparo da segunda bebida mais consumida no Brasil – a primeira é a água –, com média de 3 a 4 xícaras por dia para cada habitante. “Hoje, as pessoas já entendem o princípio do valor agregado do café”, diz Carmen de Brito, 63 anos, cafeicultora há 10. “Cada vez mais, o consumidor está interessado naquilo que oferecemos numa xícara, além do sabor.”

A família de Carmen tem uma tradição de mais de 100 anos no cultivo do grão. E o lugar da plantação não poderia ser mais apropriado. As fazendas Caxambu e Aracaçu ficam em Três Pontas, no Sul de Minas Gerais, Estado reconhecido pela excelência na produção de cafés. Carmen representa a dimensão das mulheres produtoras, um universo que vem ganhando destaque na cafeicultura, com cuidados no manejo da produção, habilidade para gerir os negócios e trabalho intenso com marketing para agregar valor. Além de produtora, Carmen é a presidente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA, na sigla em inglês para Brazil Specialty Coffee Association), entidade criada em 1991 e que tem procurado mostrar ao mundo a qualidade e o potencial da cafeicultura brasileira.

Os cafés especiais são aqueles classificados com pelo menos 80 pontos – de uma escala até 100 –, em quesitos como fragrância, uniformidade, sabor, acidez e doçura. Além de tudo isso, os grãos analisados não podem apresentar nenhum defeito. É necessário, também, cuidados no manejo, como a secagem, o colhimento na maturação adequada, a não utilização de agroquímicos e a produção do tipo arábica. Nas fazendas da família de Carmen, os cafés especiais representaram 80% da produção do ano passado. Das 10 mil sacas produzidas em 210 hectares, 8 mil ganharam o selo de especial. Nem sempre foi assim. Em 2010, os cafés especiais nas terras da cafeicultora somavam apenas 2% da produção – cerca de 100 das 5 mil sacas colhidas à época. O processo de transição foi árduo e exigiu muita disciplina. “O maior trabalho foi mudar a mentalidade das pessoas, a começar por nossos sócios, de que precisávamos investir nos especiais”, conta Carmen.

Novos Rumos A produtora Valéria Vidigal criou o Encontro Nacional do Café, realizado em Vitória da Conquista, na Bahia (Crédito:Divulgação)

Ela lembra que, após convencer os sócios da necessidade da mudança, surgiu outro desafio igualmente complexo: envolver os funcionários na transição. “Era preciso treinar a equipe da fazenda para criar uma nova identidade. Todos deveriam entender o nosso objetivo e onde queríamos chegar”, diz. Ao mudar o foco de atuação, Carmen elevou não só a qualidade da produção, mas também a renda. O faturamento saiu de cerca de R$ 2 milhões para R$ 5 milhões por ano, um crescimento de 150%. Como presidente da BSCA, uma das iniciativas para dar maior visibilidade à participação das mulheres no processo foi a parceria com o Grupo Três Corações, empresa líder nacional nos segmentos de café torrado e moído, com faturamento de R$ 3,5 bilhões ao ano.

Assim, nasceu o Projeto Florada, que incentiva cafeicultoras com trabalho diferenciado. A proposta é engajar mulheres por meio de capacitação e premiar os melhores grãos das produtoras selecionadas em todo o Brasil. No mês passado, o projeto recebeu o Prêmio Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), concedido pela ONU (leia na pág. a seguir). “A produção do café começa na plantação da muda, passa pela colheita e vai até o pós-colheita. É preciso ter cuidado para não estragar o grão em alguma etapa desse processo”, afirma Pedro Lima, presidente do Grupo Três Corações. “Por terem grande sensibilidade, desde o cuidado da seleção do grão à administração das fazendas, as mulheres são parte importante de todo o processo”, destaca.

Mais valorizado

“Por terem grande sensibilidade, do cuidado com o grão à administração da fazenda, as mulheres são parte importante em toda a cadeia do café” Pedro Lima, presidente do Grupo Três Corações (Crédito:Gabriel Chiarastelli)

No ano passado, o Brasil produziu 61,6 milhões de sacas de café, entre conilon e arábica. Entretanto, como a cultura é bianual, alternando entre uma safra de produtividade negativa e outra, positiva, a previsão para 2019 é de 51 milhões de sacas, o que representa uma queda de 17,4%. Em 2018, os cafés especiais renderam 9,1 milhões de sacas, compensando, ao menos em parte , a perda com a produtividade. “O café especial acima de 85 ou 90 pontos tem um preço muito maior do que uma bebida com até 80 pontos”, afirma Lima, da Três Corações. “O preço pode variar entre 30% a 40% a mais sobre o café tradicional. Se a qualidade do grão for muito elevada, esse valor pode dobrar.” Com base no preço mínimo do Cepea, de R$ 387,09, para o preço da saca em abril, o valor final do café especial pode chegar a R$ 774.

É nisso que aposta a produtora Valéria Vidigal, 51, que cultiva cerca de 6 mil sacas de café por ano, numa área de 280 hectares no município de Barra do Choça, no interior da Bahia. Ela calcula que 50% da sua produção (em torno de 3 mil sacas) sejam de cafés especiais. Com isso, Valéria pretende agregar valor à produção. “Hoje, nosso preço é praticamente o mesmo que era há 13 anos. Precisamos melhorar isso”, afirma ela, que comercializa a saca por cerca de R$ 370.

Além de produtora, Valéria é pintora. E todos as suas obras têm a cafeicultura como tema. Ela ainda arrumou tempo para criar o Encontro Nacional do Café, realizado na região de Vitória da Conquista (BA) e do qual participam produtores de todo o País. O evento oferece palestras e cursos, nos quais são discutidos os desafios e as novidades do setor. No mês passado, aconteceu a 13ª edição do encontro. “Eu percebi que o baiano não ia muito aos eventos de café em outros Estados. Isso dificultava ver resultados práticos sobre o que acontecia fora da região”, declara Valéria, explicando como surgiu a ideia de criar o encontro.

Mas ela entendeu que era preciso fazer ainda mais para transformar os debates entre cafeicultores em resultados práticos. Foi então que, há cinco anos, a produtora e pintora decidiu levar o evento para a sua fazenda, a Vidigal. “Na fazenda, podemos trabalhar com pesquisas, em campo. E as empresas podem apresentar resultados científicos”, diz. Este ano, o Encontro Nacional do Café passou a oferecer cursos de barista e gastronomia, além de aulas já presentes nas edições anteriores, como classificação e degustação de café. “Agora, a nossa região fala cada vez mais sobre cafés especiais”, afirma.

Projeto premiado pela ONU

Divulgação

Para incentivar a produção de cafés especiais por mulheres, proporcionar a capacitação das produtoras e construir uma rede de relacionamento, o Grupo Três Corações criou, em março de 2018, o Projeto Florada. Deu tão certo, que, no mês passado, a Rede Brasil Pacto Global, braço da ONU que reconhece o trabalho de empresas socialmente engajadas, condecorou a iniciativa com o prêmio ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável). “Queremos desenvolver a cadeia do café como um todo. Isso passa por um trabalho intenso de valorização das mulheres no campo”, afirma Patrícia Carvalho, líder do Projeto Florada na Três Corações. Os melhores grãos cultivados por cafeicultoras são avaliados num concurso, em parceria com a BSCA. Na primeira edição, foram 650 produtoras inscritas. Toda a comercialização da produção do evento é revertida para as 50 melhores produtoras selecionadas. Uma dessas cafeicultoras é Tainá Peixoto, da Chácara Vista Alegre, na Chapada Diamantina, na Bahia. Para ela, é importante ressaltar exemplos de mulheres com sucesso no segmento. “Há uma onda crescente de empreendedoras. Isso nos dá coragem e confiança para continuar”, diz.

Ela brilha fora do campo

GLADSTONE CAMPOS

A atuação das mulheres no segmento dos cafés especiais vai além da lavoura. Prova disso é o trabalho da barista Martha Grill. Com duas graduações – ela é formada em Teatro e em Marketing –, a gaúcha de 33 anos trocou Porto Alegre por São Paulo, para investir na carreira de atriz. Mas o talento para preparar bebidas a base de café falou mais alto. Hoje, ela é considerada uma das melhores profissionais do mundo. Em fevereiro deste ano, Martha venceu o Campeonato Brasileiro de Baristas. Dois meses depois, ficou entre os 15 melhores baristas do mundo, disputando com homens e mulheres de 55 países, numa competição realizada em Boston, nos Estados Unidos.