Economia

A hora do girassol

Como esse grão, uma cultura sem tradição no País, pode ganhar espaço nas lavouras

Crédito: Divulgação

“Nos últimos meses, a paisagem mais bonita da fazenda era fazer a curva da estrada e dar de frente com a plantação de girassol”, diz Marize Porto Costa, da fazenda Santa Brígida. Na propriedade de 900 hectares, no município de Ipameri (GO), 600 hectares de girassol foram cultivados na safra 2016/2017. “Na próxima, vamos plantar de novo.” A decisão de investir no girassol veio depois da experiência em uma pequena área, no ciclo 2015/2016, que deu certo. Nesta safra, a produtora colheu uma média 38 sacas por hectare, 45% acima da média nacional. Na safra encerrada, mas ainda sem os dados finais, a média do País deve ficar em 26,2 sacas, de acordo com a Conab.

Estreia: Marize Porto Costa, de Goiás, colheu sua primeira safra do grão (Crédito:Divulgação)

O girassol ainda é uma cultura minúscula por aqui. Neste ciclo foram apenas 62,3 mil hectares, com uma produção de 30 mil toneladas de grãos. Quase nada se comparado à Rússia, com 3,4 milhões de toneladas anuais, e à Ucrânia com 2,3 milhões, os dois maiores produtores mundiais. Para o pesquisador João Kluthcouski, o João K, da Embrapa Cerrados, em Planaltina (DF), há um futuro promissor para o girassol no País. “É uma cultura antiga no Brasil, mas ainda não havia chegado o seu momento”, diz João K, que, no mês passado, foi homenageado no congresso da Associação Brasileira do Agronegócio ao receber o prêmio Norman Bourlag, em referência ao americano que é considerado o pai da revolução verde. “Agora, chegou a vez do girassol porque ele entra na gestão da lavoura para substituir o milho, dependendo das condições de mercado.”

Essa possível substituição se refere à segunda safra de milho no Centro-Oeste, onde a cultura cresceu aceleradamente, mas nem sempre é rentável para o produtor. Foi exatamente o que fez Porto, na Ipameri. Ela faz parte de uma leva de produtores que estão aderindo ao girassol, como alternativa ao milho.

A Santa Brígida, que emprega há 11 anos o sistema de Integração Lavoura-Pecuária, e é uma referência nesse modelo, sempre cultivou o milho e o sorgo como culturas anteriores ao plantio de capim para o gado. “Hoje, há mais biotecnologia de girassol disponível”, diz Porto. “Em alguns talhões chegamos a 46 sacas por hectare, 20% acima da média da fazenda.” No País, do total cultivado, 49,7 mil hectares estão no Centro-Oeste. O Mato Grosso, com 31,8 mil hectares e 50,1 mil toneladas, é o campeão nacional, com destaque para a região da Serra do Parecis. Mas para João K, outros Estados, como Goiás e Minas Gerais, que na safra cultivaram 16,6 mil hectares e 9,3 mil hectares, respectivamente, podem entrar definitivamente nessa briga. “Os Cerrados Goiano e Mineiro têm potencial imediato para 27 mil hectares”, afirma ele. “Apenas a Caramuru precisa de 100 mil toneladas de girassol.”

“Agora, chegou a vez do girassol porque ele entra na gestão da lavoura para substituir o milho” João Kluthcouski,
pesquisador da Embrapa Cerrados (Crédito:Divulgação)

O pesquisador se refere à unidade esmagadora de óleo do município de Itumbiara, a 220 quilômetros de Ipameri. Isso sem contar a demanda de outras indústrias, como a ADM e a Bunge, por exemplo. O Brasil não importa o grão, mas é comprador de óleo. Em 2016 importou 26,8 mil toneladas, por US$ 21,9 milhões. Neste ano já foram 30,2 mil toneladas, por US$ 23,6 milhões. Quem mais abastece o Brasil é a Argentina, país que está ávido por mais vendas.