Negócios

Insumo verde sobpressão

Enquanto o Brasil bate recorde na aprovação dos agroquímicos, países do bloco europeu aumentam o tom na ameaça de importar menos alimentos brasileiros sob o pretexto do uso excessivo de defensivos. Espremida, a indústria trabalha para solucionar o dilema

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O agronegócio brasileiro e a União Europeia muitas vezes lembram os personagens de um desenho da Disney famoso nos anos 80. Tom e Jerry eram gato e rato que passaram a vida brigando, mas, de certa forma, a sobrevivência de um dependia do outro. A relação comercial entre os países do continente Europeu e do país continental é similar. O Brasil produz o alimento que a Europa precisa, e eles possuem o capital necessário para compor um volume de exportação que, no ano passado, ultrapassou os US$ 100 bilhões. Mas, os dois vivem em pé de guerra, sobretudo, quando o assunto são as boas práticas ambientais. Nessa agenda, a qualidade do pacote tecnológico – sementes, fertilizantes e defensivos – usado nos campos brasileiros, é ponto nevrálgico. De lá, chegam acusações de uso excessivo de químicos por aqui. Já as empresas de insumos locais questionam os argumentos. “O Brasil é uma potência da cultura tropical que alia alta produtividade com sustentabilidade”, disse Ithamar Prada, diretor da Compass Minerals. Já a Ministra Teresa Cristina, em uma entrevista à uma rádio sobre o impasse para a assinatura do acordo bilateral com Mercosul, afirmou que “o agro brasileiro é sustentável. Não nos conhecem, e os que conhecem usam de má-fé para difamar a nossa imagem, para fazer toda essa propaganda contra o Brasil”. A solução do impasse pode vir das mãos de cientistas e do uso da tecnologia.

“O agronegócio brasileiro é um dos mais sustentáveis do planeta. Mas, não nos comunicamos bem nem para defender que somos uma cultura tropical” DANIEL GLAT
SEEDCORP (Crédito:Divulgação)

Em 2020, a demanda por agroquímicos foi recorde 39,5 milhões de toneladas

No meio da discussão, alguns números podem fazer corar – de vergonha – os dois lados. Pela União Europeia, a informação de que no ano passado o bloco vendeu, a 85 países, 41 tipos diferentes de agrotóxicos proibidos por lá devido à problemas de saúde relacionados ao seu uso e consumo. O Brasil é o segundo maior comprador da lista. De acordo com estudo realizado pela organização Public Eye e Unearthed, foram 10 mil toneladas em 2018, e 12 mil em 2019. Cerca de 77% teriam saído da fábrica da Syngenta na Inglaterra, onde é produzido o agrotóxico paraquate. Em comunicado global, a empresa se defende apontando que os realizadores do estudo são sustentados por ONGs contrárias ao uso de produtos químicos sintéticos na agricultura e que seus produtos passam por um rígido protocolo de segurança como testes abrangentes e avaliação de riscos. “Essas medidas de mitigação garantem que os defensivos agrícolas, aprovados pelas autoridades estaduais antes da comercialização, não apresentem riscos inaceitáveis para os seres humanos ou para a natureza quando usados conforme pretendido”, disse a empresa em comunicado. Vale destacar que o uso das substâncias nos campos europeus é proibida, mas a importação de alimentos tratados com eles é permitida.

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Do lado verde-amarelo, o governo Jair Bolsonaro bateu o segundo recorde sucessivo no número de aprovações de agroquímicos na história. Em 2020, 493 novos produtos foram aprovados. Em 2019, haviam sido 474. Em uma perspectiva mais ampla, quase um terço dos mais de 3 mil produtos químicos para o agronegócio comercializados no Brasil, foram aprovados durante os dois anos do atual governo. O aumento da oferta, encontra mercado. Ano passado, a demanda por fertilizantes químicos e minerais no Brasil foi recorde com 39,5 milhões de toneladas. Deste total, 87% foram importados. Para este ano, a expectativa para o mercado de agroquímicos em geral é de crescimento de 10% na receita, percentual que pode ser ainda maior uma vez que as vendas antecipadas para a próxima safra bateram a casa de 30% em janeiro. Historicamente, o volume era de 10%.

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Os preços favoráveis da soja e do milho na safra 20/21 devem favorecer o mercado de insumos de alto desempenho com impactos positivos na próxima colheita

INICIATIVAS É neste contexto, somado ao recrudescimento de boas práticas ESG (ambiental, social e governança), que a indústria de sementes, fertilizantes e defensivos (pacote tecnológico) trabalha para entregar ao produtor brasileiro soluções que sejam responsáveis tanto para o meio ambiente, como para o trabalhador rural e para o negócio. “Hoje o produtor já sabe que se fizer tudo igual, provocará um gasto massivo dos recursos naturais e não terá futuro”, afirmou Thiago Miqueleto, gerente de Marketing e Inteligência de Mercado da Ajinomoto Fertilizantes. “Por isso, há uma preocupação cada vez mais crescente com microbiologia de solo e eficiência do uso de água pelas plantas”, afirmou. Ainda que exista a preocupação dentro da porteira, a pressão externa continua. Um abaixo assinado de consumidores europeus pede o fim das importações de alimentos brasileiros sob o argumento de uso exagerado de químicos. Para Daniel Glat, sócio-executivo e diretor de Operações da Seedcorp I HO, o problema está na falta de uma narrativa mais contundente por parte do Brasil, o que abre espaço para desinformação. “O agronegócio brasileiro é um dos mais sustentáveis do planeta. Mas, não nos comunicamos bem nem para defender o fato de que somos uma cultura tropical e por isso precisamos de produtos que a Europa não utiliza”, disse.

“No fim do dia, nós queremos um produto menos químico e mais biológico, que tenha um custo atrativo para uso em alta escala e melhore a produtividade’’ RICARDO BERNI
RAIZEN (Crédito:Divulgação)

Enquanto o Palácio do Planalto permanece mudo quando o assunto é a defesa do agronegócio brasileiro, grandes empresas estão agindo para melhorar as boas práticas da cadeia. Na Raízen, que produz 50% da cana-de-açúcar e compra a outra metade de produtores, o programa Cultivar – criado para dar apoio financeiro, de gestão e produtividade aos parceiros – ganhará, ainda neste semestre, um capítulo sobre biotecnologia e bioinsumos. “No fim do dia, queremos um produto menos químico e mais biológico, que tenha um custo atrativo para uso em alta escala. Nossa aposta é que os bioinsumos trarão sustentabilidade e redução de custos”, afirmou o diretor de Negócios Agrícolas da empresa, Ricardo Berni. Na Cargill, a estratégia foi outra. O grupo – que enfrenta pressões na Europa por uma alegada venda de mercadorias produzidas em áreas desmatadas – pagou um prêmio de 0,23% por tonelada a 95 agricultores que comercializaram soja sustentável certificada na safra 2018/2019.

“A agricultura do futuro será feita com produtos químicos e biológicos de alta eficiência, associadas às tecnologias de aplicações inteligentes” ROBERSON MARCZAK ADAMA (Crédito:Divulgação)

Dos mais de 3 mil agroquímicos vendidos no País, cerca de um terço foram aprovados nos dois últimos anos

TECNOLOGIA Ainda que os problemas com relação aos agroquímicos existam e sejam reforçados por uma política de aumento de químicos autorizados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Fabrício Simões, presidente da Ubyfol, defende que haverá uma rápida transformação do mercado, impulsionado por uma nova geração para a qual as práticas ESG serão pré-requisitos básicos. “Eles querem rentabilizar o negócio com produtividade, foco no ambiente com crescimento de biológicos e adoção de tecnologias de alta performance”, disse.

Dentre as alternativas que chegaram com a Agricultura 4.0, está a aplicação dirigida de fertilizantes e defensivos, seja por veículos terrestres ou por aeronaves agrícolas. Empresas como a Adama querem criar uma realidade em que a imagem de um avião jogando químicos na lavoura inteira fique nos álbuns de fotografia. “A agricultura do futuro será feita com produtos químicos e biológicos de alta eficiência, associadas às tecnologias de aplicações inteligentes”, disse Roberson Marczak, gerente de Inovação da empresa.

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No Brasil, porém, algumas características podem deixar o processo de adoção mais lento. A primeira são as dimensões do País que exigem dos agricultores de grandes áreas a aquisição de várias máquinas para atender a demanda. A segunda, que de certo modo se relaciona com a primeira, é o Custo Brasil que torna o preço de tecnologias como os sensores para aplicação direcionada quase proibitivos para o pequeno e médio produtor. “É muito poético fazer a adoção de uma nova tecnologia em uma área de 100 hectares. Mas, quando vamos calcular a manutenção de sua aplicação na propriedade inteira, o projeto quase sempre se mostra inviável”, afirmou Marczak.

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A utilização de aviões agrícolas está em extinsão. No seu lugar emergem uso de máquinas com sensores que identificam pragas e daninhas

Uma alternativa encontrada por um nicho de empresas foi apostar na genética das sementes e híbridos de milho. Em Centros de Pesquisa e Desenvolvimento de empresas, como o da Corteva que investe US$ 1,2 bilhão por ano, estão sendo criadas sementes mais resistentes a pragas, ao estresse hídrico e com mais capacidade de absorção de nutrientes. Dessa forma, garante a produtividade da planta, com menos uso de recursos, sejam eles do pacote tecnológico ou do ambiente. “Pelas características de uma produção tropical como a nossa, o agricultor tem necessidades de controle e manejo que aceleram a velocidade de adoção de novas tecnologias no pacote tecnológico”, afirmou Frederico Barreto, líder de Marketing da Plataforma de Sementes da Corteva Agriscience para Brasil e Paraguai. A melhoria da genética traz mais eficiência para toda a cadeia. De fertilizantes aos defensivos. Uma consequente redução da quantidade de insumos comprados não assusta a indústria. Na Mosaic, que fabrica fertilizantes especiais, o cenário é visto como oportunidade, uma vez que as sementes de alta performance exigirão uma nutrição diferenciada. “Na medida em que eles investem na melhoria genética da semente, o produtor fica com o desafio de tirar o máximo da planta que crescerá. Aqui entram os insumos de alta-performance”, disse o diretor de Marketing Christian Pereira.

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Recuperação de pastagens e vocação para produção de bioinsumos poderiam levar o Brasil à liderança da economia verde

Sem tapar o Sol com a peneira, o mercado, de fato, precisará continuar trabalhando para que a percepção de seus produtos mude. Os constantes ataques da União Europeia contra o agronegócio brasileiro devem se fortalecer como uma forma de barreira não tributária. Enquanto isso, o tempo para uma nova biotecnologia chegar ao mercado é de aproximadamente 10 anos. Para novidades em genética de soja e milho, varia de cinco a seis anos, considerando desde a descoberta até sua comercialização, contando o tempo regulatório de aprovações. Os custos também aumentam. Enquanto o gasto médio do pacote tecnológico regular variam entre R$ 3 mil e R$ 3,5 mil por hectare, o gasto com sementes, fertilizantes e defensivos especiais sobe para algo entre R$ 3,5 mil e R$ 4 mil por hectare. Mas, neste caso, é preciso fazer as contas para decidir o caminho a ser seguido. Para comparar o retorno sobre o investimento (ROI) do uso dos insumos, há que se levar em conta não só a produtividade, mas a construção da reputação da empresa e do próprio agronegócio brasileiro.