Economia

JBS: como fica a maior produtora de proteína animal do mundo?

Depois das delações dos irmãos Joesley e Wesley Batista, o setor da pecuária entra em estado de alerta sobre o que pode acontecer daqui para a frente

Crédito: Julio Bittencourt

Passada a tormenta da Operação Carne Fraca, veio a tempestade política provocada pela delação dos empresários Joesley Batista e seu irmão Wesley, arrastando o agronegócio para dentro da Lava Jato. O que eles disseram ao Ministério Público Federal e à Procuradoria-Geral da República sobre propinas pagas pela holding J&F e a formação de uma gigantesca rede de influência parlamentar da companhia da família Batista mergulhou o País em uma crise que abala os alicerces do governo, questiona os fundamentos da Lei das Organizações Criminosas, coloca em xeque o modelo de decisão sobre os benefícios aos delatores e deixa o setor da pecuária em sobressaltos sobre o futuro dessa cadeia de proteína animal. Junto com o irmão José Batista Júnior (o Júnior do Friboi), os Batista transformaram o negócio iniciado pelo pai José Batista Sobrinho, em Goiás, na década de 1950, na maior companhia privada do Brasil e na principal processadora de carne do mundo. Desde a abertura de capital em 2007, a empresa ampliou o faturamento em 40 vezes, investindo em companhias americanas, como Swift e Pilgrim’s, e europeias, como a Moy Park. No ano passado, a receita da JBS foi de R$ 170,4 bilhões no Brasil e em outros países (confira o quadro na pág. 22). Wesley, presidente da companhia e comandante das operações, continuava no cargo até o fechamento desta edição. Joesley, presidente do conselho de administração, cedeu o posto para Tarek Farahat, mas manteve-se no comando da J&F.

Joesley Batista e Wesley Batista (Crédito: Claudio Belli/Valor/Agência O Globo)

A JBS é a maior das dez empresas da holding, formada por Banco Original, Eldorado Celulose, Flora, Alpargatas, Vigor, Âmbar Energia, Canal Rural, Oklahoma Pecuária e Floresta Agropecuária. Mas ela se transformou, também, na maior financiadora de campanhas políticas no Brasil. Os irmãos admitem ter pago propinas de R$ 400 milhões a políticos, em troca de favores. Essa bomba explodiu no colo de políticos como Michel Temer, Aécio Neves, Luis Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, citados nas delações, mas também estremeceu o campo.

No dia da notícia sobre a delação de Joesley, no exato momento em que comprava bois em Caçu, no sudoeste de Goiás, para seu projeto de recria na fazenda Mundo Novo, no município goiano de São Simão, o pecuarista Fernando Saltão, CEO da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon), ficou estarrecido. “A gente ainda não sabe o tamanho da consequência dessa delação”, diz Saltão. “Mas o setor já amargava os efeitos do consumo retraído de carne e foi pego de surpresa.” Entre março, mês da Operação Carne Fraca, e o início de maio, o preço da arroba do boi gordo despencou 5%. Depois das delações da JBS, passou para quase 9% no período. Saiu da média de R$ 144,72 para R$ 131,89, segundo o Cepea/Esalq, da USP. O preço do bezerro também veio abaixo, para R$ 1 mil, depreciado em 6,9% nesse período. De acordo com Saltão, a redução geral na escala de abates do grupo JBS causou excesso de oferta no mercado e o consequente achatamento de preços. No setor de confinamento de gado, desde o início do ano havia a perspectiva de aumento dos animais no sistema a partir do início de junho, basicamente por causa dos preços baixos do milho, o principal insumo na ração animal. O cenário agora é outro e o confinador já trabalha com a hipótese de redução da engorda de gado. “No mercado futuro, os indicadores estão em baixa e muita gente não fecha a conta se confinar”, diz Saltão. A Assocon estima que no ano passado foram confinados abaixo de quatro milhões de animais.

O Brasil tem um rebanho de 215 milhões de bovinos e, desde meados do mês passado, há dúvidas sobre como tocar a boiada nessa encruzilhada. No País, há poucas regiões de produção de gado na qual a JBS não esteja presente. No Estado de Mato Grosso, por exemplo, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) tramita na Assembleia Legislativa desde o final do ano passado, na qual o principal tema é concentração do abate nas mãos da empresa. Segundo o documento, a JBS detém 56% da indústria frigorífica local. Em 2015, abateu dois milhões de bovinos, sendo que o segundo maior frigorífico de Mato Grosso abateu cerca de 500 mil animais. Desde os anos 2000, a JBS passou a operar 25 unidades no Estado, das quais 18 são próprias. Muitas foram compradas e depois fechadas, como as de Cuiabá e Vila Rica. Em maio, a JBS mantinha somente 11 frigoríficos em atividade, embora a pecuária tenha voltado a se expandir desde 2014. Mato Grosso tem o maior rebanho de gado de abate do País, segundo o Instituto de Defesa Agropecuária (Indea). No ano passado, o rebanho cresceu 3,3% totalizando 30,2 milhões de bovinos nos pastos.

Para Luciano Vacari, diretor da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), a JBS é um problema político e deve ser tratado como tal. “Queremos que as indústrias que operam em Mato Grosso, e não apenas a JBS, tenham uma relação justa com o pecuarista”, diz ele. De acordo com o executivo, nos dias que seguiram a delação, os frigoríficos se aproveitaram da situação para baixar o preço da arroba em cerca de R$ 6. “Na Operação Carne Fraca houve um abalo de imagem. As exportações caíram, mas foram restabelecidas e hoje não temos nenhum embargo por conta disto”, afirma Vacari. “O que não podemos aceitar é que um problema político interfira no nosso negócio. O Brasil é o maior exportador de carne bovina mundo, e com ou sem JBS essa condição precisa ser preservada.” A orientação da Acrimat aos pecuaristas é que a venda do gado seja feita com pagamento à vista, em vez dos tradicionais 30 dias de prazo. Além disso, até a tormenta passar, a entidade quer que o governo do Estado suspenda o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que hoje é de 7%, para o pecuarista abater os animais em outro Estado.

Para Carlos Viacava, pecuarista com fazendas de gado no interior paulista, a queda de preços do boi gordo foi geral. Mas, embora os rumos para a carne brasileira ainda sejam incertos, para ele é possível vislumbrar uma luz no fim do túnel. “Poucos produtores correrão o risco de vender gado para a JBS, para receber com prazo de 30 dias, e poucos compradores confiarão na entrega de produto do frigorífico”, afirma Viacava. O fato é que em razão dos desdobramentos da operação policial envolvendo a JBS, a indústria frigorífica, como setor, terá que se adaptar a uma nova situação de mercado que vai se consolidar somente daqui alguns meses. Os irmãos Batista fecharam no final de maio um acordo de leniência que prevê o pagamento de multas de R$ 10 bilhões em 25 anos e devem vender ativos em outras áreas para fortalecer o caixa e focar em seu principal negócio, a JBS. Procurada pela Dinheiro Rural, a empresa não comentou.

“O que não podemos aceitar é que um problema político interfira no nosso negócio” Luciano Vacari,diretor da Associação dos Criadoresde Mato Grosso (Crédito:Fabio Fatori | divulgação)

O presidente do conselho da empresa deixou o cargo

Segundo José Vicente Ferraz, diretor técnico da IEG-FNP, daqui para a frente é possível que empresas concorrentes da JBS sejam até beneficiadas com a ocupação de espaços que eventualmente ela venha a perder. No país, as principais são os grupos Marfrig e Minerva. “Mas isto só ficará mais claro daqui alguns meses. Agora, qualquer opinião sobre os rumos para a JBS seria mera especulação”, diz Ferraz. Para ele, o tamanho do impacto negativo vai depender da capacidade de se isolar as empresas, as pessoas jurídicas, da figura dos delatores, as pessoas físicas. “Quanto mais o mercado conseguir fazer esta segregação, menores serão os prejuízos.” De acordo com Ferraz, passados os efeitos iniciais da turbulência é que se saberá qual a capacidade de financiamento que o grupo conseguirá mobilizar junto aos agentes financeiros e ao mercado.

O Brasil, como grande exportador de carne para 137 países, entra no foco de investidores internacionais. No ano passado, o mercado de proteína animal vendeu lá fora US$ 13,7 bilhões, valor equivalente a 7,4% das exportações brasileiras. Foram US$ 5,95 bilhões em frango, US$ 4,34 bilhões em carne bovina, US$ 1,35 bilhão em suínos e US$ 2,13 bilhões em subprodutos, como carnes diversas, tripa, bucho, conservas, entre outros. O maior freguês da carne brasileira foi a China, com compras no valor de US$ 1,75 bilhão, 13% do total. Em seguida está Hong Kong, com US$ 1,51 bilhão, relativos a 11,2% das exportações.

“Poucos produtores correrão o risco de vender gado para a JBS, para receber com prazo de 30 dias” Carlos Viacava, pecuarista (Crédito:Fabio Fatori | divulgação)

Viacava afirma que no curto e médio prazos, o escândalo envolvendo a JBS é péssimo para as exportações. “O impacto está em toda a cadeia”, diz Viacava. “Aos poucos, se a JBS deixar vazios no mercado, eles serão preenchidos.” Para Saltão, da Assocon, uma das probabilidades é a JBS diminuir o tamanho, o que abriria espaço para outros frigoríficos. “Os estrangeiros já estão sondando o mercado.” No ano passado, o Produto Interno da Indústria Frigorífica foi de R$ 55,6 bilhões. O de toda a pecuária foi de R$ 200,4 bilhões. Há nomes fortes na indústria internacional da carne, como a americana Cargill, que está no Brasil desde 1965. No País, embora tenha feito alguns ensaios na área de confinamento de gado, ela jamais se aproximou do mercado frigorífico. No entanto, nos Estados Unidos mantém uma indústria forte, por exemplo com frigoríficos nos Estados do Colorado e do Kansas. Nos últimos dois anos, a empresa tem se mostrado disposta a investir. No início de 2016, somente para os Estados Unidos, a Cargill anunciou investimentos da ordem de US$ 560 milhões para reforçar o negócio de proteína animal.

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O responsável pelas operações negociou para ficar no cargo

Francisco Turra, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), afirma que a delação premiada da JBS deixa uma lição para o setor, principalmente em relação aos cuidados que se deve ter em um mundo globalizado. “Não pode haver nada errado, nem cometer deslizes, nem cometer alguma prática irregular, nem descumprir normas”, diz Turra. “Superamos as dúvidas em relação à operação Carne Fraca respondendo que, tecnicamente, não devíamos nada a ninguém e que agimos com toda correção”, afirma. “Temos que respeitar o consumidor, seja ele brasileiro ou de qualquer outro país.” E agora, como fica o mercado? “O escândalo é dos donos da JBS e não há questionamento sobre a lisura da pecuária como setor”, conclui Turra.

No mundo: depois de 2007, a JBS comprou empresas como a americana Pilgrim’s. Abaixo, à direita, a sede da JBS nos Estados Unidos (Crédito:Divulgação)