Negócios

Laranja tipo exportação

A venda da fruta para o exterior pode ser mais atraente e lucrativa do que o mercado de suco. Essa é a aposta da Alfacitrus para 2019

Crédito: Claudio Gatti

De são paulo para o mundo: Com 1 milhão de pés de laranjas e tanjerinas, a Alfacitrus quer levar suas frutas para o exterior. “Estruturamos nossa operação para exportarmos com eficiência”, diz Emílio Fávero, sócio-diretor da companhia (Crédito: Claudio Gatti)

Trafegar pelo Entreposto Terminal São Paulo (ETSP), na zona oeste da capital paulista, não é tarefa simples, mesmo para um pedestre. Já pela manhã, o pátio da maior unidade da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) do Brasil está praticamente lotado de caminhões. No meio desse engarrafamento, centenas de carregadores de frutas, legumes e verduras disputam espaço, em ritmo frenético. Para garantir o descarregamento dos alimentos vindos direto das fazendas, os transportadores têm de chegar antes mesmo do amanhecer. O caminhão da produtora e beneficiadora de laranjas e tangerinas Altacitrus, com sede no município de Engenheiro Coelho (SP), por exemplo, costuma chegar por volta das 3h da madrugada. “Apesar do sufoco, conseguimos fazer um bom trabalho”, afirma o analista de sistemas Emílio Fávero, 54 anos, sócio-diretor da empresa. “Aqui, comercializamos boa parte da nossa produção.”

Crescimento: Com oito fazendas em São Paulo, a empresa produziu 61 mil toneladas e faturou R$ 72,6 milhões em 2018, alta de 5% em relação a 2017 (Crédito:Divulgação)

A partir deste ano, o ambiente comercial do produtor será diversificado. É que a Alfacitrus passará a exportar a fruta fresca. No final do ano passado, a empresa recebeu o certificado Global GAP, a certificação mais importante para o comércio internacional de alimentos. Com isso, levará sua produção a locais bem maiores e mais importantes, como o Porto de Santos, no litoral paulista, e os aeroportos de Guarulhos e de Campinas, ambos em São Paulo. “Quem sabe, experimentemos o embarque aéreo”, diz Fávero. “É caro, mas é uma forma mais rápida para saber como a nossa laranja foi recebida, fora do País, pela primeira vez.” Com oito fazendas espalhadas pelo interior de São Paulo – nos municípios de Botucatu, Engenheiro Coelho e Mogi Mirim -, a Alfacitrus soma 1,6 mil hectares de pomares. Metade disso é de terras próprias. Ao todo, são cerca de 1 milhão de pés entre laranjas e tangerinas, rendendo 61,2 mil toneladas por ano. E o negócio vem crescendo.

No ano passado, o faturamento da empresa foi de R$ 72,6 milhões, alta de quase 5% em relação a 2017. Para este ano, a expectativa é de que esse número chegue a R$ 75 milhões, o que representará uma alta de 3,4%. Entre as variedades produzidas pela Alfacitrus, estão as laranjas pêra, lima, natal, valência e baia, e as tangerinas poncã e tangor murcote. “Estamos planejando, também, variedades especiais, mais doces e diferentes”, destaca Fávero. Aos poucos, o produtor introduz em sua área de produção as laranjas sanguíneas, de polpa avermelhada, e a cara cara, que, apesar de não ser considerada uma variedade sanguínea, possui a polpa avermelhada e um suco de coloração mais intensa. “São ótimas opções para fazer drinks”, diz Fávero. Além disso, devem fisgar o gosto dos mercados internacionais. “O produtor sempre cultivou a laranja para a indústria. Isso limitou as opções para outros mercados. Estamos mudando isso.”

MAIORES GANHOS A aposta na exportação de laranjas frescas faz muito sentido e tem tudo para dar certo, já que se trata de um oceano pouco navegado pela citricultura brasileira. Para se ter uma ideia, a produção nacional de laranja fechou o ano de 2017 com 17,5 milhões de toneladas. Parte disso foi esmagada para somar um embarque de 2,1 milhões de toneladas de suco. No mesmo ano, a fruta fresca totalizou apenas 32,3 mil toneladas vendidas para fora do País, o que representou ínfimos 0,2% da produção nacional. “A exportação da fruta é um mercado extremamente atraente”, afirma o agrônomo Marcos Fava Neves, consultor de mercado e professor titular da Faculdade Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), em Ribeirão Preto. “Porém, é complicado e inclui muitos riscos, por ser um produto altamente perecível”. Segundo ele, no entanto, vale a pena encarar o desafio, desde que a negociação seja certeira.

Em 2017, por exemplo, houve casos em que o quilo da fruta fresca superou o do suco. A Argentina, prejudicada pela quebra da safra por lá, pagou inacreditáveis US$ 7,59 pelo quilo da fruta, quando o preço médio naquele ano foi de US$ 0,47 – pouco mais de 6% do valor pago pelos argentinos. “Fomos procurados por tradings, interessadas em levar nossa laranja para a Argentina”, diz Fávero. “Na época, nossa fruta já estava bem madura e achamos que não era o momento ideal.” Pelas contas
de Fávero, a projeção, mesmo que inicial, é de uma valorização de até 50% sobre o índice de preço do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq). Se tivesse exportado em dezembro, quando a média da caixa de 40,8 quilos de laranja foi de R$ 26,96, Fávero teria recebido R$ 40,44.

ESTRUTURAÇÃO A pressa jamais fez parte da estratégia da Alfacitrus. Tanto que a empresa levou 15 anos se estruturando, antes de buscar a certificação internacional, um projeto encampado por Fávero e seus três sócios – seus dois irmãos, o administrador Pedro Luis, 63 anos, e o economista José Eduardo, 59 anos, e seu cunhado, o contador Nelson de Campos, 73 anos. A ideia de buscar o certificado global surgiu em meados de 2003, quando Pedro Luis visitou uma fazenda de citros no Uruguai.

“A propriedade era bem estruturada e com certificação para exportar. Tínhamos de fazer o mesmo”, lembra Fávero. De lá para cá, a empresa investiu em equipamentos, na estrutura de beneficiamento das frutas e na adequação das fazendas, especialmente no armazenamento de defensivos agrícolas. “Nesses 15 anos, nos estruturamos para exportarmos com eficiência”, diz. O trabalho foi tão bem feito, que a Alfacitrus se tornou fornecedora de laranja de grandes redes, como Carrefour, Pão de Açúcar e Walmart. Em 2017, a laranja lima da companhia se tornou o único citros licenciado da Maurício de Sousa Produções (veja box). Agora, a meta é fazer suas laranjas chegarem ao frio do Canadá e ao calor dos Emirados Árabes. As portas do mundo estão abertas.

Divulgação

Da fazenda para a Turma da Mônica

A Alfacitrus acaba de inaugurar a linha de citros da Maurício de Souza Produções (MSP), empresa do mais célebre cartunista do Brasil, criador da Turma da Mônica. Agora, além das maçãs da gaúcha Rasip, os melões e as melancias da piauiense Itaueira, e as bananas da mineira Brasnica, a laranja lima da Alfacitrus tem o selo da Turma da Mônica. O plano da companhia é ampliar o acordo de licenciamento para sua produção de tangerinas. O acordo com a laranja lima foi firmado no final de 2017 e os primeiros pacotes da fruta chegaram às lojas em setembro do ano passado. Foram cerca de 100 mil pacotes de 1,5 quilo, vendidos em redes de supermercados, especialmente nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A expectativa para este ano é comercializar, no mínimo, o dobro desse volume, levando para os demais Estados do País. Atualmente, a MSP trabalha com 150 empresas que utilizam seus personagens, em cerca de 4 mil itens. Entre os alimentos vindos direto das fazendas, também estão mini folhas, mini alface, mini tomate, mini cenoura, pera, uva e kiwi.

Divulgação