Finanças

Mais água na lavoura

O aluguel de pivôs centrais, modalidade criada pela Valley, pode facilitar a disseminação do sistema e ajudar a aumentar a área irrigada no País

Crédito: Mastamak

Plantação: no cultivo de cana-de-açúcar, o uso do pivô pode dobrar a produtividade de uma área (Crédito: Mastamak)

Escolha: Fabiano José Zillo, da Zilor, diz que o aluguel é uma opção porque pode liberar a empresa para investir em outras áreas (Crédito:Divulgação)

Depois de dez anos irrigando lavouras de cana-de-açúcar com sistema de pivô central em duas áreas arrendadas, a Zilor Energia e Alimentos, grupo sucroenergético com sede em Lençóis Paulista (SP), está mudando seu modelo de gestão da área a partir do mês que vem. Em vez de investir na troca de equipamento próprio, a Zilor acaba de entrar em um sistema de aluguel de pivôs. “A irrigação funciona muito bem para a cana-de-açúcar, a grande dificuldade é o alto preço dos equipamentos”, afirma Fabiano José Zillo, diretor-presidente da Zilor. “Isso porque eles competem com outros investimentos necessários à nossa atividade.” O grupo paulista é o primeiro a aderir ao Rental Valley, modelo inovador criado pela subsidiária brasileira da Valley, empresa americana de irrigação que está no País, com sede em Uberaba (MG). E não é de hoje. Em 1981, a empresa comercializou o primeiro pivô central no Brasil. No ano passado, a receita global da Valley, que está em cerca de 100 países, foi de US$ 3,3 bilhões.

Facilidade: para Vinicius Maia Costa, da Valley, a ideia é levar ao produtor um pacote que o ajude na gestão da fazenda (Crédito:Divulgação)

A Zilor possui 180 mil hectares de cana-de-açúcar nos municípios de Lençóis Paulista, Macatuba e Quatá. Na safra 2017/2018, a moagem foi de 10,4 milhões de toneladas, o que resultou em 559 mil toneladas de açúcar, 448 mil metros cúbicos de etanol e 509 mil megawatts de energia elétrica. No ano passado, a receita foi de R$ 1,9 bilhão. Além da área alugada já equipada com pivô de 232 hectares, em Quatá, a empresa terá mais 80 hectares por meio do Rental Valley. Denis Arroyo Alves, diretor agrícola da Zilor, afirma que a vantagem do aluguel do equipamento é a facilidade da gestão da lavoura. “Parte da produtividade do canavial pode ser utilizada para pagar o aluguel do pivô”, diz ele. “Nesse caso, o fluxo de capital é mais produtivo.”

Para Renato Pinto da Silva, 38 anos, CEO da Valley, o aluguel de pivôs centrais pode contribuir de forma sistemática na administração das usinas. “Na prática, a empresa aluga o milímetro irrigado”, diz Silva. “A medida do produtor é a água que ele utilizar.” O engenheiro agrônomo Vinicius Maia Costa, 42 anos, gerente de contas para Mercado de Cana no Brasil e América Latina da Valley, explica como o sistema de aluguel funciona. Sob demanda, a Valley monta o projeto, instala o pivô, presta assistência técnica e faz a gestão e a manutenção do equipamento. Fica por conta do contratante a sua operação diária, mas com os funcionários treinados pela Valley. “O valor do aluguel do milímetro irrigado é pago por mês e o preço varia com o custo do projeto”, afirma Costa. “Quanto mais longo o contrato, menor o custo mensal.” Segundo ele, o preço de um sistema de pivô central é estimado em R$ 6 mil por hectare irrigado, enquanto o custo de um equipamento alugado equivale a um quinto desse valor, considerando o valor do milímetro irrigado, que varia de R$ 4 a R$ 6. Cada pivô pode irrigar até 400 hectares. De acordo com o agrônomo, a produtividade de um canavial sem irrigação chega a 80 toneladas por hectare, enquanto na área irrigada ela pode dobrar.

Com o modelo de aluguel definido, agora, a Valley quer expandir o negócio para outras culturas, como grãos, e também para outros países. “Já estamos negociando projetos em outros Estados e com países da América do Sul, como Peru, Colômbia e Argentina”, diz Maia. Para o CEO da Valley, o grande desafio na expansão das áreas irrigadas no País é o da informação e de burocracia. “Primeiro, o produtor precisa entender os benefícios da irrigação”, diz Silva. “Mas há outros entraves, como as liberações ambientais, como a outorga da água, e a disponibilidade de energia.” Segundo o executivo, no caso da água, as liberações podem levar até dois anos. Elas dependem de cada Estado e da forma de captação da água: se é de rio, de superfície ou de aquífero.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, a Índia é o país com a maior área irrigada do mundo. São 66 milhões de hectares, seguida pela China com 62 milhões de hectares e pelos Estados Unidos, com 27 milhões. O Brasil está entre os dez países com maior área equipada para irrigação. De acordo com a Agência Nacional das Águas (ANA), são 6,9 milhões de hectares irrigados com os sistemas disponíveis, como pivôs, aspersão, gotejamento, entre outros. Os dados são de 2015, os mais recentes da ANA, e representam um aumento de área de 53% em uma década. No caso de pivô central são 1,4 milhão de hectares, equivalentes a 20,2% da área irrigada no País. Para Ana Catarina Nogueira, coordenadora de Estudos Setoriais da Superintendência de Planejamento de Recursos Hídricos da ANA, com o atual modelo, o Brasil poderia incorporar três milhões de hectares irrigados. “Até 2030, isso deve ocorrer, chegando a dez milhões de hectares irrigados”, diz Catarina. “Mas o potencial efetivo do País é 11,2 milhões de hectares.”