Economia

Mercado na corda bamba

O fechamento de fábricas de agroquímicos na China, por causa de leis ambientais mais rígidas no país, pode levar à alta de preços e a falta de insumos no mercado

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Em queda: as distribuidoras de insumos, que vinham com altos estoques de produtos nos últimos anos, agora devem trabalhar com volumes mais ajustados à demanda (Crédito: Divulgação)

O mercado de defensivos agrícolas, responsável por proteger a produção brasileira de pragas e de doenças, vem encolhendo a cada ano em valores financeiros. Para 2017, a receita estimada é de US$ 9,2 bilhões, de acordo com a consultoria Kleffmann na América Latina. A queda vem ocorrendo desde 2014, quando as vendas no País foram de US$ 12,2 bilhões, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). A queda no período foi de 24,6%. Embora o mercado de defensivos seja influenciado pela moeda americana, um fenômeno na China pode atrapalhar uma possível desaceleração de preços ao produtor. Isso porque a oferta de produtos no mercado pode cair, impedindo que isso ocorra. No país asiático, por causa de um endurecimento nas leis ambientais, as fábricas que violam os padrões de emissão de poluição estão sendo fechadas sumariamente, desde outubro do ano passado. Do total de cerca de 300 mil fábricas, 120 mil já cerraram as portas, 36% do parque industrial.

“O caso da China é preocupante para agronegócio, porque pode elevar os preços dos agroquímicos no mercado em até 40%” Fábio Torretta, CEO da Arysta América Latina (Crédito:Divulgação)

No Brasil, a indústria começa a se mexer. “O caso da China é preocupante ao agronegócio, porque pode elevar os preços dos agroquímicos no mercado interno, em até 40%”, diz Fábio Torretta, CEO da japonesa Arysta, empresa que fatura no mundo US$ 1,8 bilhão. Para evitar problemas de fornecimento às suas fábricas, a Arysta já conseguiu diminuir pela metade as matérias-primas importadas dos chineses, chegando a US$ 500 milhões no ano passado. A estratégia de diversificação começou há dois anos com a compra de moléculas da Índia, como o clethodim, herbicida para o controle de plantas daninhas. Para Torretta, outros produtos comuns no campo também têm chance de escassez, como o acefato, usado para tratamento de semente e aplicação foliar, e até mesmo o glifosato, o herbicida mais conhecido no mundo, por ser muito usado em lavouras transgênicas. Marcio Farah, diretor executivo da Kleffmann, diz que o cenário é preocupante porque metade da fabricação mundial das matérias-primas utilizadas pela indústria química é chinesa. “Somente de glifosato, a China é responsável por 75% do fornecimento do produto no mundo”, diz Farah. O Brasil importa cerca de 195 mil toneladas por ano, que em valores representa cerca de 30% de todos os defensivos comercializados no País. No mês passado, o preço de venda ao produtor era de US$ 4 por litro e para a indústria, US$ 3. “Apesar do aumento de 35% no mercado mundial, ainda é cedo dizer se o valor será repassado inteiramente ao agricultor”, afirma Farah. Mas o aumento vem, com certeza.

Os produtores rurais que acompanham o cenário chinês já estão indo às compras para a safra 2018/2019. É o caso do grupo mato-grossense Girassol Agrícola, do produtor Gilberto Goellner, de Rondonópolis. De acordo com Neusa Lopes, diretora-executiva da empresa, o grupo está cultivando 40 mil hectares de soja, milho, algodão e eucalipto nesta safra, e já antecipou a compra de 30% dos insumos para o próximo ciclo. “No restante, vamos ficar atentos para comprar sem aumento de preços”, diz ela. Na fazenda Santa Brígida, da produtora Marize Porto Costa, em Ipameri (GO), propriedade que é referência no País para o sistema de integração lavoura-pecuária, os insumos que serão usados em três mil hectares de lavouras e em mil hectares de pastagem já foram adquiridos para a atual safrinha e para a próxima safra. “Fizemos compras antecipadas praticando um malabarismo financeiro”, diz Costa. “O plano é não correr risco.”

Para Henrique Mazotini, presidente-executivo da Associação Nacional de Distribuidores, nos últimos anos, o mercado vinha desajustado entre a oferta e a demanda, com sobra de mercadoria nas prateleiras. “Houve menos praga nas lavouras, seca, alta do dólar e mais contrabando de produtos”, afirma Mazotini. “De 2014 a 2017, o estoque de defensivos esteve acima do normal, mas não estará neste ano.” Até agora, o reajuste de preços não havia chegado ao produtor, por conta do que está armazenado. Farah, da Kleffmann, diz que as reservas de defensivos, que no início desta safra eram de 25%, agora estão em 20%, estimados em US$ 1,8 bilhão em volume financeiro. “O produtor deve ir em busca desse estoque, mas o problema é saber se o que ainda está armazenado é o que o agricultor precisa”, diz ele. “O que o mercado já espera é um volume reduzido de produtos nas

“De 2014 a 2017, o estoque de defensivos esteve acima do normal, mas não estará neste ano” Henrique Mazotini, presidente da Andav (Crédito:Felipe Gabriel)

centrais de distribuição, no início da próxima safra.” Por conta disso, embora com menos produto ofertado nas prateleiras, a expectativa é que o setor de defensivos agrícolas movimente US$ 9 bilhões no País em 2018, valor muito próximo ao apurado no ano passado.