Finanças

Moeda que dá em árvore

As instituições financeiras estão cada vez mais dispostas a oferecer condições mais atrativas de créditos atrelados aos títulos verdes ou sustentáveis, mercado que já movimenta mais de US$ 1 trilhão no mundo

Crédito: Evandro Rodrigues

Do latim sustentare, a palavra sustentabilidade significa sustentar, apoiar, cuidar. É uma pena que, de tanto ser usada, tenha perdido sentido. Agora, repaginada na sigla ESG (ambiental, social e de governança), deixa as sutilezas dos significados quase poéticos de lado para se tornar ferramenta de negócios, com especial interesse do mercado financeiro, que criou um produto específico para a agenda. Os Títulos Verdes (Green Bonds, em inglês) compõem um mercado em plena ascensão e que deve movimentar US$ 1,2 trilhão no mundo este ano, segundo o banco sueco Skandinaviska Enskilda Banken (SEB). No Brasil, o setor engatinha com US$ 8 bilhões movimentados entre 2019 e 2021. Desse total, mais de US$ 4,6 bilhões foram executados somente no primeiro trimestre deste ano, de acordo com levantamento das emissões públicas realizadas pela Sitawi.

No brasil, entre 2019 e 2021, os Títulos Verdes movimentaram US$ 8 bilhões

movimentados entre 2019 e 2021. Desse total, mais de US$ 4,6 bilhões foram executados somente no primeiro trimestre deste ano, de acordo com levantamento das emissões públicas realizado pela Sitawi.

“Estamos em um ciclo virtuoso com produtores mais conscientes, investidores engajados e bancos criando novas alternativas de soluções verdes” Amaury Oliva Febraban (Crédito: Luiz Michelini)

Mais do que uma seara repleta de números, os títulos verdes representam uma grande oportunidade para o mercado agropecuário brasileiro. É um dinheiro novo que surge com apetite para financiar atividades ligadas à economia sustentável. Além disso, promete ser uma alternativa real para o cada vez mais escasso recurso do Plano Safra. Segundo estimativa da Climate Bonds Initiative (CBI), a agricultura brasileira tem potencial para movimentar R$ 700 bilhões até o fim do ano somente em papéis temáticos. “O Brasil pode protagonizar a economia verde, em boa parte, devido à agricultura”, disse Leisa Souza, head da entidade para América Latina.

Os trabalhos de estruturação do mercado estão a todo vapor. O Banco Central (BC) anunciou, para julho, o início do Bureau Verde. Neste sistema, a entidade ligará operações com características verdes à tecnologia de georreferenciamento para evitar concessão de crédito a projetos em áreas protegidas. Em outra iniciativa, o BNDES divulgou seu Framework de Emissão de Títulos Sustentáveis (SBF). O documento organiza as categorias elegíveis para acesso às finanças sustentáveis em dois grupos. O de ‘categorias verdes elegíveis’, composto por projetos de energia, gestão sustentável da água e dos recursos naturais vivos, uso da terra, entre outros. E ‘categoria sociais elegíveis’, para projetos de saúde, educação e financiamento de micro a médias empresas. Para Amaury Oliva, diretor da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a articulação mostra o amadurecimento do mercado. “Estamos em um ciclo virtuoso com produtores mais conscientes, investidores engajados e bancos criando novas alternativas de soluções verdes”, disse.

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O Brasil pode protagonizar a economia verde, em boa parte, devido à agricultura

INICIATIVA PRIVADA Em paralelo aos esforços da esfera pública, instituições privadas também se movimentam. Com pouca tradição no agronegócio – ainda que da carteira de R$ 60 bilhões de crédito, o setor participe com R$ 10 bilhões – o BTG Pactual quer mudar essa história e usará os títulos verdes como ferramenta. Oportunidade existe, afirma Rogério Stallone, sócio responsável pela Carteira de Crédito Corporativo do banco. “Esse setor, que era quase 100% dependente do governo federal, já vê no mercado de capitais e em bancos privados fontes de alternativas de crédito”, disse. Além de ter conseguido autorização para licenciar créditos de descarbonização (CBio) há poucos meses, em janeiro o banco realizou captação de US$ 500 milhões por meio de um título verde aderindo ao Sustainable Bond Network (SBNS) da Nasdaq. Patrícia Genelhú, head de Investimentos Sustentáveis e de Impacto da instituição, olha o futuro com otimismo. “A agenda ESG está atrasada no Brasil, mas estamos passando por uma fase de aceleração muito forte”, afirmou. De acordo com a executiva, entre 2016 e 2020, o banco distribuiu US$ 2,4 bilhões em finanças sustentáveis, valor superado no primeiro trimestre de 2021 com US$ 2,7 bilhões. Além disso, dos R$ 73,7 bilhões que o BTG tinha em carteira em dezembro, cerca de R$ 6,5 bilhões eram elegíveis para o framework de financiamento social e sustentável do Global Bond.

“A Agenda ESG está chegando muito atrasada no Brasil, estamos passando por uma fase de aceleração muito forte” Patrícia Genelhú BTG Pactual (Crédito:Divulgação)

Em outra operação financeira inédita, as empresas Produzindo Certo, Traive Finance e Gaia Impacto anunciaram a emissão de um Certificado de Recebíveis Agrícolas Verde (CRA Verde.Tech) no valor total de R$ 63,3 milhões. Os recursos permitiram que sete agricultores independentes buscassem recursos diretamente no mercado de capitais para o financiamento de suas operações. Para Fabricio Pezente, CEO da Traive Finance, essa transação é de especial relevância porque o acesso ao mercado ainda é caro, o que favorece os grandes players. “É normal que qualquer tipo de inovação aconteça em pequena dimensão para depois escalar, mas com o maior interesse do investidor externo e interno, vamos popularizar o acesso”, afirmou. Os compromissos assumidos pelos produtores permitirão a preservação de 24.667 hectares de áreas protegidas.

SEGURO O CRA Verde.Tech trouxe também o ineditismo da inclusão de seguros agrícolas na operação, ajudando a quebrar a falta de cultura do uso do instrumento no Brasil – menos de 10% da área agricultável de 152,5 milhões de hectares são cobertas. O seguro rural atrelado às finanças verdes é uma das principais demandas da proposta feita pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura ao governo. De acordo com a líder da Força-Tarefa da Coalizão, Leila Harfuch, o programa pode elevar em cerca de 50%, para algo em torno de R$ 3,7 bilhões, os recursos para o financiamento da agricultura sustentável no próximo Plano Safra. “Um dos pilares do plano de agricultura de baixo carbono é que as seguradoras possam usar o Bureau Verde (BC) para se conectarem com produtores que usam a tecnologia para minimizar os impactos climáticos e ambientais”, afirmou. Com recursos equalizados cada vez mais escassos, o mercado de capitais pode subverter o velho ditado popular e mostrar que, finalmente, o dinheiro dá em árvores.