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Entrevista

Muitos pecuaristas terão de mudar de atividade se não souberem controlar os custos

Marco Ankosqui

Muitos pecuaristas terão de mudar de atividade se não souberem controlar os custos

Vera Ondei
Edição 23/01/2019 - nº 164

Repletas de livros, pastas e publicações, as gavetas e as prateleiras de uma das salas da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) finalmente foram desocupadas no início de outubro. O processo de limpeza se estendeu por dois anos. Nesse espaço acadêmico, por três décadas, um dos maiores especialistas em ciência da carne no Brasil, o professor agora aposentado Pedro Eduardo de Felício, fez pesquisas, orientou centenas de alunos e mudou a visão da pecuária brasileira sobre qualidade na criação de bovinos. “Finalmente consegui dar conta do material guardado”, diz Felício, doutor pela universidade amerinacana do Kansas. Mas ele continua na ativa, embora diga que vem perdendo o passo por não acompanhar com lupa as pesquisas no setor. No dia 18 de outubro, Felício era um dos palestrantes no 8º Congresso Latino-Americano de Nutrição Animal, realizado em Campinas. “Estou encerrando minha contribuição à pecuária”, disse ele à DINHEIRO RURAL. “De agora para a frente serei somente um observador.” Felício foi pesquisador por 44 anos, entre a Unicamp e o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital), órgão do governo paulista, onde iniciou a sua carreira.

Que conselho o sr. daria para melhorar o ambiente de pesquisa na pecuária?

Aposte nos convênios internacionais para trazer professores estrangeiros ao Brasil. Eles são fantásticos. São experts em pegar um problema local e desenvolver uma pesquisa com você. Minha tese de doutorado foi através de convênio com um professor americano, Dell M.Allen, doutor na Kansas State University. Ele é um dos 50 nomes que fizeram a ciência da carne no último meio século. Mas há muitos outros, como o neozelandês Bruce Marsh, uma das maiores autoridades do mundo sobre tecido muscular. Marsh, por exemplo, fez seu doutorado em um navio que caçava baleia para os ingleses, pesquisando o rigor mortis animal.

Mas como atrair esses profissionais diante de recursos cada vez mais escassos para pesquisas nas universidades brasileiras?

De novo, a saída são os convênios, mas nesse caso com as empresas. Dá para fazer parcerias e o modelo existe. Como é o caso da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), na unidade de Colina. Há convênios com pecuaristas que levam o gado à estação de pesquisa e elas acontecem. Existem outras que podem fazer o mesmo, além da Embrapa.

Dá para comparar o volume de pesquisas com décadas atrás?

Hoje há muito mais pesquisas. Por isso a genética vem em uma evolução bárbara, com centros de processamento de dados que são espetaculares. Hoje, é de nível internacional o trabalho do professor Raysildo Lobo, da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores. Ele não fica devendo nada para ninguém. E há muito mais nomes, como a professora Lúcia de Albuquerque, da Unesp de Jaboticabal (SP), ou o pesquisador Luiz Otávio Campos da Silva, na Embrapa de Campo Grande (MS), com o programa Geneplus, que estão no mesmo patamar.

Qual o principal desafio para a pecuária?

Só vi evolução até hoje, mas o que a gente ouve é que muitos pecuaristas terão que mudar de atividade se não souberem controlar os custos. Sem isso não há lucro. Como acontece com a agricultura e a suinocultura, por exemplo.

Quem vai sobreviver nesse ambiente?

Na pecuária, vai sobrar quem dispor de capital para investir em produtividade. Dá um pouco de medo em falar, porque há gente mais qualificada para responder a essa pergunta. Mas me lembro de uma discussão na Sociedade Rural Brasileira, na qual um dos participantes dizia que era preciso investir em pastos pequenos para o gado, enquanto outro falava sobre a dificuldade de dispor de dinheiro para fazer cerca. Então, se o problema era recurso para uma cerca, imagina para o resto.

Os fundos de investimento seriam uma saída para o setor?

Nunca pensei se agentes dessa natureza investiriam fortemente no setor. Há uma tarefa muito importante em andamento, que poderia ajudar. Somente agora os sistemas de pecuária estão sendo estabelecidos, como o tipo de padrão de gado, se ele vai ser puro ou cruzado, por exemplo. Eu acredito que o cruzamento industrial vai explodir e haverá esse sistema para tudo quanto é lado. Mas é preciso acertar algumas arestas, como os touros ideais para cobrir as vacas nelore, porque em muitos casos está acontecendo de o gado crescer demais e não engordar. Conforme o sêmen usado, o animal cresce em esqueleto e a engorda não acompanha, levando a mais tempo de engorda no pasto ou no confinamento.

Então, qual a saída?

Sem dúvida é acertar a genética dentro dos cruzamentos. Aparentemente, estamos muito bem servidos de sêmen importado de raças britânicas, tanto da Argentina como dos Estados Unidos. O caminho é com as raças britânicas hereford e angus, e com as suas raças compostas, a braford e brangus porque elas permitem o uso de seus touros a campo. Para uma carne mais magra pode-se usar o canchim, embora demore mais para engordar, ou o senepol que é um gado de padrão menor. Mas não importa a escolha do pecuarista: peso e uma carcaça equilibrada são questões que não têm mais volta. E os frigoríficos vão ter que resolver essa questão, porque eles têm um limite estrutural. Não foram desenhados para gado muito grande. Não podem abater animais acima 24 arrobas, embora comprem além desse peso. Quando isso acontece precisam usar ganchos para que a carcaça não arraste no chão. Nos últimos três anos tenho visto estatísticas dos frigoríficos da Minerva e da JBS. O aumento do peso das carcaças é uma realidade. O pecuarista está engordando mais o gado para otimizar o preço do bezerro e do boi magro em alta.

Para onde vai o mercado brasileiro de carnes premium?

Existe um crescimento desse mercado, tanto é que há importação até de carne do Paraguai, além de Argentina e Austrália, porque não há produção suficiente. No caso da carne brasileira para esse mercado, mais uma vez, acho que é preciso ajustes. A carne está um pouco pálida e na grelha a sua cor não é muito agradável de ver.

Não é esse o padrão americano?

Não. Depois de grelhada a carne americana não fica pálida.
No Brasil é o abate de animais muito jovens, sem uma recria eficiente que está levando a isso. Carne pálida é sinal de menos sabor. Mas, como a carne tem que ser macia, talvez o consumidor entre numa fase em que aceite alguma falta de sabor ou cor, em troca da maciez.

Na história da pecuária, abater animais jovens não era a promessa de lucro, como um pote de ouro no final do arco-íris?

É o que todo mundo pensa para aumentar a produtividade da fazenda. E sem dúvida aumenta. Mas a pecuária precisa ser feita em função do consumidor. Vamos ver o que vai acontecer, à medida que esse mercado amadurecer. Nós já passamos por isso. No início dos programas de novilhos superprecoces, nos anos 2000, acompanhei o trabalho de um frigorífico, à época em Uberlândia (MG). O consumidor já percebia a carne muito clara e, quando consumida, a impressão era de falta de sabor.

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