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Entrevista

Não somos contra a suspensão da vacinação da febre aftosa

Marco Ankosqui

Não somos contra a suspensão da vacinação da febre aftosa

Emílio Carlos Salani, vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal fala sobre as políticas para um setor que movimenta R$ 5 bilhões por ano

Vera Ondei e Béth Mélo
Edição 08/08/2017 - nº 150

O médico veterinário Emílio Carlos Salani, vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), entidade que representa 80 empresas de medicamentos veterinários que atuam no País, tem uma tarefa difícil pela frente. O setor está no centro de uma discussão quente, que polariza de um lado os defensores da continuidade da vacinação do rebanho de 217,5 milhões de bovinos contra o vírus da febre aftosa e, de outro, os que acreditam que o País está preparado para a sua suspensão. A produção de 500 milhões de doses de vacina, por ano, tem protegido o rebanho daqui, de uma doença contagiosa erradicada na maior parte dos países produtores de proteína animal. “Não somos ou seremos contra a suspensão da vacinação da febre aftosa”, diz. “Mas a aftosa tem um viés político muito forte.” Na entrevista que o executivo concedeu à DINHEIRO RURAL, ele também fala de antibióticos, bem estar e o novo papel da indústria farmacêutica animal, um setor que movimenta R$ 5 bilhões por ano, no País.

DINHEIRO RURAL – Quanto o Brasil pode perder por causa do embargo dos Estados Unidos à carne bovina brasileira?
EMÍLIO CARLOS SALANI – Em termos financeiros, o mercado é pequeno. Mas a perda de imagem é grande. Mas ela é muito intangível porque a gente não consegue mensurá-la.

RURAL – O retrocesso de uma negociação de abertura de mercado, de quase duas décadas, pode ser colocado na conta de quem?
SALANI – Não acredito que haja um culpado, tudo isso agora é aprendizado. A primeira lição é: para trabalhar com esse cliente, tenho que estar preparado. Se eu fazia 2%, agora vou fazer 6%. Se eu analisava a carne de modo visual, agora vou olhar com ultrassom. Vou retirar a vacina ou vou reduzir a dose do medicamento? É preciso investir a quatro mãos.

RURAL – O que a indústria pode fazer para modernizar a vacina, além da diminuição da dosagem de cinco mililitros para dois como ficou definido no mês passado?
SALANI – A indústria poderia encapsular ou desenvolver vacinas em organismos geneticamente modificados. Só que o setor trabalha com a visão de que essa enfermidade vai desaparecer. Comparada com a de outras enfermidades, a vacina da aftosa não tem tantas evoluções desde que foi criada, na década de 1980. Mas houve melhorias. Ela era aquosa e aplicada a cada quatro meses. Com a oleosa, o tempo passou para seis meses. Há oito anos, quando o Brasil atingiu a condição de livre com vacinação para a maior parte de seu território, o País começou a abrir as portas para a sua carne bovina. Isso porque hoje, pela composição viral da vacina, ao recolher o sangue de um bovino e constatar a presença de anticorpos do vírus da aftosa, é possível diferenciar se eles são de um animal que foi vacinado ou de um animal que foi infectado. Essa análise é decisiva para exportar carne a alguns países, porque é preciso provar que não há circulação viral.

RURAL – Se a aftosa está fadada ao desaparecimento, por que o Sindan tem se posicionado contra a suspensão da vacinação do gado?
SALANI – Não somos ou seremos contra a suspensão da vacinação da febre aftosa. Mesmo porque a vacina representa cerca de R$ 400 milhões em receita anual, do total de R$ 5 bilhões que a indústria fatura. Mas, apesar do nosso mau hábito de devedor de vacina, trabalhamos fortemente junto às autoridades do Ministério da Agricultura para que a vacinação não seja suspensa, baseada no atual calendário oficial (leia mais na pág. 24). A reintrodução da doença pode criar um impacto muito pior do que continuar vacinando. É preciso desmistificar a ideia de que ganhar mercado depende do status de livre com vacinação ou livre sem ela. O Uruguai, por exemplo, que é área livre com vacinação usando cerca de 80% de vacina brasileira para imunizar o seu rebanho, não tem restrição de exportar carne para nenhum lugar do mundo. No Brasil, a aftosa tem um viés político muito forte, é uma bandeira.

A indústria está virando o leque, baseado em dois pilares: prevenir e produzir com segurança

Evolução: nos últimos cinco anos, a indústria brasileira criou medicamentos diferenciados e expandiu a produção

RURAL – Mas a vacina também funciona como uma bandeira para as empresas farmacêuticas?
SALANI – Sim, porque é importante ter um produto compulsório, de prateleira. Quando um produtor vai adquirir a vacina, junto ele pode comprar outros produtos. Hoje, oito empresas fabricam a vacina, em um processo agressivo para um produto farmacêutico. Para produzir um lote de vacina, o equivalente a 15 mil litros, estão envolvidos US$ 3 milhões entre o dia zero e o dia 45, quando ele está pronto.

RURAL – Então, quais bases fundamentam a posição do Sindan?
SALANI – Nós analisamos 114 questões para suspender a vacinação. São tarefas que precisam ser executadas, como a formação de um banco de antígenos, proteção de fronteiras, estruturação das barreiras sanitárias, alinhamento de equipes de veterinários e zootecnistas. Se o início da suspensão da vacinação ficar para 2019, estamos juntos. Porque a pergunta é: caso haja algum problema, teremos doses suficientes da vacina em estoque? Precisamos investir US$ 500 milhões no embarque dessa tecnologia e hoje temos somente cerca de 100 milhões de doses em estoque.

RURAL – Do ponto de vista financeiro, se a aftosa representa tão pouco, o que tem sustentado a indústria brasileira de produtos veterinários?
SALANI – A possibilidade de expansão do mercado. É fato que o Brasil vai continuar sendo um grande produtor de proteína vermelha e branca para o mundo. Embora no ano passado, o mercado tenha retraído 1% em seu faturamento, já temos sinais de retorno de crescimento em até 7% ao ano, que é a média histórica do setor. Um programa sanitário completo é inferior a 3% do custo total de uma criação. Então, por que negligenciar nesse cuidado? Hoje, não há a possibilidade de abater um boi, um frango ou um suíno sem lançar mão de produtos veterinários.

RURAL – Por isso, o consumidor brasileiro tem a impressão de que consome carne com hormônios e antibióticos?
SALANI – Essa imagem é complicada. No Brasil é proibido o uso de anabolizantes hormonais para crescimento. Nós não usamos nenhum produto para aumentar o ganho de peso de um animal. O que usamos são os antibióticos permitidos para melhorar o desempenho do animal.

RURAL – O Brasil não está na contramão da história? Nos Estados Unidos, onde os dois produtos são liberados, os laticínios estão pagando prêmios aos produtores de leite que não utilizam mais a somatotropina (bST, na sigla em inglês).
SALANI – Não vejo problema no uso desse hormônio natural, produzido pelo próprio organismo do animal. As duas maiores empresas que comercializam bST, hoje, são as americanas Elanco e Merck. É quase inimaginável pensar que essas companhias teriam algum produto inseguro em sua linha. A função da bST é ajudar o animal a produzir mais leite, no nosso caso, aumentar a oferta de proteína animal para que todos possam ter acesso a ela.

RURAL – Qual o foco atual da indústria veterinária?
SALANI – A prevenção, justamente para que resulte em menos uso de antibióticos, maior produtividade e bem-estar animal. A indústria está virando o leque, baseado em dois pilares: prevenir e produzir com segurança. Para um País que tem bilhões de aves e milhões de suínos e bovinos, não dá para ficar fazendo nada curativo.

RURAL – A indústria veterinária tem passado por um processo de fusões e de aquisições. Esse movimento continua?
SALANI – Nos últimos três anos, importantes fusões e aquisições foram consolidadas. Mas a fase de euforia passou, inclusive de negócios envolvendo grandes grupos estrangeiros no mercado internacional. Acredito que deve ocorrer daqui para a frente apenas negócios pontuais.

RURAL – Quais os países que tem realizado pesquisas de ponta em sanidade animal?
SALANI – Isso é bastante difuso. Alguns países têm um regulatório forte em fármacos, outros, em biológicos. Os Estados Unidos, por exemplo, são fortes em fármacos. Já os países europeus, puxam mais a parte biológica.

É preciso desmistificar que o mercado depende do status de livre com vacinação ou livre sem ela

Custo: a vacina de aftosa representa R$ 400 milhões do total de R$ 5 bilhões da receita da indústria

RURAL – O Brasil não está nesse jogo?
SALANI – Com os tamanhos dos nossos rebanhos, tivemos que puxar essa carroça. Um dado importante foi a descentralização da pesquisa. Nos últimos cinco anos, o parque industrial brasileiro evoluiu bastante. Elevamos o patamar, criando linhas de produtos diferenciados e expandindo nossa capacidade de produzir. As empresas nacionais investiram pesadamente, enquanto as multinacionais se realinharam com aquisições.

RURAL – Há exemplos de pesquisas nas quais o Brasil se destaca?
SALANI – A vacina contra leishmaniose é um caso. Ela foi desenvolvida no Brasil. Outros exemplos são as vacinas de de circovirose, para suínos, e as gumboro e marek, para aves, feitas também nos Estados Unidos. O setor também trabalha com os marcadores moleculares para avaliar o desempenho bovino, ou seja, se um bezerro vai gerar carne com marmoreio, por exemplo.

RURAL – Quanto as empresas estão investindo?
SALANI – Uma empresa saudável aplica até 5% de sua receita em pesquisa e desenvolvimento. Os desafios são o tempo e o ritmo dos investimentos. São necessários até dez anos para se descobrir uma nova molécula, além de milhões de dólares para o seu desenvolvimento e licenciamento. Uma solução seria mais parcerias entre os centros de excelência em pesquisa e o setor privado.

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