Edição nº 172 03.09 Ver ediçõs anteriores

Entrevista

Não tem dinheiro fácil na agricultura

Não tem dinheiro fácil na agricultura

Pedro Barreto Fernandes, o novo diretor de Agronegócios do Itaú BBA, fala sobre as oportunidades e os desafios do setor

Béth Mélo
Edição 18/07/2017 - nº 149

Nos últimos anos, o Itaú, maior banco privado do País, com ativos da ordem de R$ 1,4 trilhão, passou a intensificar sua atuação no agronegócio por meio do Itaú BBA, a operação voltada ao atacado. A ordem é estreitar relacionamento com todos os setores do agro e não concentrar esforços apenas no segmento de cana-de-açúcar, onde sempre teve uma forte presença. Prova disso é que a instituição financeira criou, no mês passado, uma diretoria voltada exclusivamente ao agronegócio. O responsável por ela é o engenheiro de produção Pedro Barreto Fernandes, 37 anos, profundo conhecedor do campo. “Para ser agricultor, tem que acordar cedo e trabalhar muito para ganhar algum dinheiro”, disse Fernandes à DINHEIRO RURAL. O executivo chegou ao banco em 2002 e se tornou um dos maiores especialistas em bioenergia. Agora, vai comandar uma carteira rural de R$ 14 bilhões. A presença ainda é tímida se comparada ao estatal Banco do Brasil, que encerrou 2016 com R$ 178,9 bilhões. Mas o Itaú BBA quer mudar essa história. “Assim como temos nosso grande atendimento de clientes nos centros urbanos, estamos desenvolvendo uma metodologia para atender ao público rural”, diz Fernandes.

DINHEIRO RURAL – O sr. acaba de assumir a recém-criada diretoria de Agronegócios, um setor que deve ter recorde de produção. Como vê esse cenário de superoferta de commodities?
PEDRO BARRETO FERNANDES – O aumento do volume de grãos faz com que os preços nominais das commodities não sejam tão atrativos. Mas é preciso olhar caso a caso. Para o milho, vimos cenários antagônicos de preços entre a safra passada, com preços elevados, e a safrinha que está sendo colhida. Os preços atuais não são remuneradores em algumas regiões, embora não estejam tão negativos. Já na soja, no ciclo passado, o preço bastante elevado capitalizou os produtores. Neste ano, a comercialização está mais lenta e o preço mais baixo, mas ainda assim é remunerador. A oscilação no preço da soja ainda está no campo do azul e não do vermelho.

RURAL – O que o banco fará para atingir os 700 maiores produtores do país?
FERNANDES – Temos escritórios em dez praças, em dez pólos de produção, focados em grandes produtores de grãos, café e frutas, sendo um em Minas, um no interior de São Paulo e os outros na região do cerrado. Montamos uma estrutura para atender esses produtores. Assim como temos nosso grande atendimento de clientes nos centros urbanos, estamos desenvolvendo uma metodologia para atender ao público rural.

RURAL – Como o sr. analisa os impactos do escândalos políticos da Lava Jato e a delação dos irmãos Batista?
FERNANDES – Para ser agricultor tem que acordar cedo e trabalhar muito para ganhar algum dinheiro. Não tem dinheiro fácil na agricultura. Obviamente, há uma pressão no preço da arroba de boi, pós-delação da JBS, mas esta, talvez, seja a única influência da operação Lava Jato. No nosso caso, em operações de longo prazo, não há nada que vá alterar a nossa estratégia de financiamento para os pecuaristas.

RURAL – E especificamente em relação aos confinamentos?
FERNANDES – Sobre os confinadores, em parte, a gente volta àquilo que chamamos de gestão de risco. Os confinadores que travaram o preço de arroba conseguiram um bom resultado e estão preparados para enfrentar a turbulência. Já os que não cuidaram tanto da precificação, terão uma menor atratividade, reduzindo bastante o volume de confinamento. A única certeza é que os bois serão abatidos e a carne será consumida. Uma eventual diminuição da escala na produção de algum player vai ser compensada por um aumento de turno em outra planta, ou seja, o boi vai ter que andar um pouco mais e a rentabilidade desse ciclo pode ficar comprometida para o pecuarista, caso o preço da arroba fique deprimido por um tempo mais longo. Mas, com exceção do preço da arroba, não existe nenhuma contaminação ou diminuição do apetite dos bancos, do apetite por produtos brasileiros por parte dos compradores ou dos consumidores da carne brasileira. Esse é um setor que anda de uma forma muito independente do governo.

A oscilação no preço da soja ainda está no campo do azul e não do vermelho

indústria: as usinas vêm trabalhando para ter sobra de caixa, visando investimentos no setor da cana-de-açúcar o País caminha para uma safra recorde, com a soja em primeiro lugar entre as commodities produzidas

RURAL – O que deve ocorrer no campo, com o Plano Safra 2017/2018 que começou a valer a partir deste mês?
FERNANDES – Não vemos grande efeito que o plano agrícola possa trazer a uma parte importante do agronegócio. A agricultura empresarial é pouco dependente dos recursos subsidiados. Estes têm um limite por Cadastro de Pessoa Física, o CPF, que vai até R$ 3 milhões. Para a nossa clientela, na safra passada o crédito rural teve um peso inferior a 10% do total captado. O plano impacta pequenos e médios produtores, dada a preponderância do crédito rural no total financiado.

RURAL – Qual é o perfil dos produtores que utilizam os serviços do Itaú BBA?
FERNANDES – A cadeia de açúcar e álcool é a segunda principal em termos de exposição para o banco, depois de energia. Nosso foco são produtores e empresas que processam a partir de três milhões de toneladas. Temos uma exposição de crédito ao redor de R$ 11,5 bilhões. Há três anos, o banco vem se aproximando dos produtores rurais, com foco na soja, no milho, no algodão, no café e na pecuária. Com isso, o banco já tem uma exposição superior a R$ 2,5 bilhões, com uma carteira de 180 clientes ativos. Mas queremos atender os 700 maiores produtores rurais do País até 2022.

RURAL – No setor da cana, no qual o Itaú BBA tem uma presença consolidada, como o sr. analisa a situação das usinas?
FERNANDES – Neste início de safra, olhando a amostra de clientes com os quais trabalhamos, formada por 60 grupos econômicos que processam cerca de 400 milhões de toneladas de cana, vemos uma boa fixação de preço para o ciclo, de até 80% do açúcar a ser produzido. Isso deve garantir boas margens. A safra encerrada em março deste ano, por exemplo, possibilitou uma diminuição de 10% no estoque de dívida e um aumento de geração de caixa de 50%. Nessas usinas, existe uma preocupação grande sobre a geração de caixa nos próximos ciclos, mesmo que os fundamentos do mercado nos leve a acreditar em preço internacional de equilíbrio muito acima do preço atual de mercado.

RURAL – Mas continuam na iminência de serem fechadas ou estão em situação econômica ruim.
FERNANDES – De modo geral, os preços atuais não são remuneradores para os grupos em dificuldade financeira, o que pode levar a uma deterioração ainda maior dos ativos e culminar com o fechamento de mais unidades, em especial as de menor eficiência industrial. No geral, a saúde do setor é boa. As boas usinas têm sido capazes de gerar caixa para renovar o canavial, servir a dívida e ter alguma sobra para remunerar o acionista, ou para investir em novos projetos. Mesmo com o fechamento de usinas, a disponibilidade de cana permaneceu estável nos últimos cinco anos, com as variações que o clima impõe a esse volume. O Brasil deve colher nesta safra 647,6 milhões de toneladas de cana.

Mesmo com o fechamento de usinas, a disponibilidade de cana permaneceu estável nos últimos cinco anos

Indústria: as usinas vêm trabalhando para ter sobra de caixa, visando investimentos no setor da cana-de-açúcar

RURAL – Mas o etanol não é fator de desequilíbrio?
FERNANDES – Sim, por isso aguardamos com apreensão as medidas que o governo tomará para regular a sua importação. Especificamente no Nordeste, a entrada de produto estrangeiro tem prejudicado a performance das usinas e o preço do etanol, com reflexos no Centro-Sul pela remessa entre essas duas regiões. Esse desequilíbrio gera volatilidade, diminuindo a rentabilidade, a previsibilidade de preços e traz riscos ao atendimento da demanda. Porque enquanto o preço é vantajoso ao produtor brasileiro, o governo está trazendo o etanol de milho dos Estados Unidos.

RURAL – Qual o futuro do setor?
FERNANDES – Podemos ter dois cenários. Sem o RenovaBio, programa que visa atender uma demanda futura de combustíveis para veículos leves (leia mais na pág. 30), a moagem de cana do Brasil deve ficar estável ou crescer até 3% nos próximos anos. Isso é inferior a 10 milhões de toneladas por ano, com produção mais voltada para o açúcar. No outro cenário, com uma política de longo prazo, as empresas podem retomar os planos de expansão, através da ampliação e da construção de novas unidades.

RURAL – Como o sr. analisa a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, que versa sobre o clima do planeta e que por isso afeta o agronegócio?
FERNANDES – Acredito que o governo americano, no futuro, voltará a seguir uma série de obrigações ambientais. Isso porque o país é o segundo maior emissor de gases de efeito estufa. O Estados Unidos haviam assumido o compromisso de reduzir 25% de suas emissões até 2025, além de contribuir com US$ 3 bilhões até 2020, dos quais liberou só US$ 1 bilhão. O governo brasileiro ratificou o acordo, mesmo com o anúncio do presidente Donald Trump. Para o Brasil, é importante a participação nesse acordo, para mostrar ao mundo a preservação de sua cobertura vegetal.

RURAL – Trump teria força para barrar esse tratado do clima, como fez com o acordo comercial multilateral, o chamado Transpacífico, anulado por ele?
FERNANDES – Uma das poucas certezas com relação ao governo do presidente americano Donald Trump é a sua imprevisibilidade. Acredito que teremos que aguardar novos eventos para avaliar os efeitos de sua política no campo da sustentabilidade. Trump havia, por exemplo, assumido em campanha o compromisso de incentivar o mercado de etanol, mas parece que já abandonou a ideia.

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