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Entrevista

Não vejo barreiras para que o Brasil se torne o maior exportador de tecnologias

Gabriel Reis

Não vejo barreiras para que o Brasil se torne o maior exportador de tecnologias

Cauê Vizzaccaro
Edição 06/04/2018 - nº 157

Neste mês, a administradora Mariana Vasconcelos, 26 anos, sócia e fundadora da Agrosmart, startup especializada em plataformas digitais para irrigação no campo, com sede em Campinas (SP), tem uma agenda marcada com potenciais investidores em sua empresa. São encontros com fundos de investimento, um da Bolívia e quatro dos Estados Unidos. Mariana e seus dois sócios já receberam, nos últimos anos, R$ 10 milhões dos fundos de investimento, como o brasileiro SP Ventures e o americano SVG Partners. Mas querem mais. Entre as parcerias da Agroesmart está a National Aeronautics and Space Administration (Nasa, na sigla em inglês), a agência americana responsável por desenvolver tecnologias e programas de exploração espacial. Em 2015, depois de uma bolsa de estudo na instituição, Mariana passou a utilizar os serviços da Nasa. “Fechamos uma parceria para transferir tecnologia”, diz Mariana. “Hoje, usamos satélites da Nasa para o monitoramento de lavouras.” Ela também tem uma parceria com a Organização das Nacões Unidas (ONU). Confira a entrevista:

O Brasil pode ser líder em transferência de tecnologia no campo?

Sim. Há dois anos só havia no mercado a Strider e a Agrosmart no País. Agora, tem mil agtechs. Antes, o mercado era disputado nos Estados Unidos e em Israel. Hoje, não vejo barreiras para que o Brasil se torne o maior exportador de tecnologias. Porque a nossa agricultura é mais complexa do que nesses dois países. O Brasil tem três safras por ano, clima tropical e a pressão de doenças e de pragas é maior do que nas lavouras americanas e israelenses. Por isso, é mais fácil testar tecnologias aqui. Enquanto isso, eles têm uma safra por ano para fazerem testes.

Mas o Brasil é importador de tecnologias desses países. Há alguma dificuldade nisso?

Sim. Porque além da barreira da língua, o clima é distinto e até a conectividade influencia nessa adaptação. Aqui, ela é falha. Isso ajudou as empresas brasileiras a se consolidarem. E agora elas que estão indo para fora. Nós já exportamos tecnologia para países como Argentina, Colômbia e México.

O que falta ao País para liderar a revolução digital que ocorre no campo?

Falta investimento privado para as agtechs. No início da Agrosmart, vendíamos um produto e o produtor rural não conseguia o financiamento bancário por ser de valor baixo. Agora, nós financiamos o produtor. Mas tem muito fundo de capital internacional interessado no Brasil, já que os daqui não olham para o agronegócio. No País até há bastante capital para um estágio pré-operacional das startups, de até R$ 5 milhões. Mas há pouco recurso para um segundo estágio, o de consolidação da empresa, já que o valor precisa ser maior.

Com quem as agtches concorrem na captação de recursos?

Com as fintechs, as empresas do setor financeiro. Mas elas educaram o mercado e têm mostrado que há dinheiro no País. Há vários casos de sucesso, como o Nubank, PagSeguro, Creditas. As fintechs mostraram consistência na geração de tecnologia para conseguir capital externo.

As agteches estão cumprindo seu papel no agronegócio?

Não tenho dúvida. Além de dar mais velocidade e flexibilidade para difundir tecnologia, elas chacoalham a indústria. As grandes empresas perceberam a necessidade de se atualizar e mudaram o foco para serviços. Hoje, todas elas já possuem as suas plataformas digitais. Por exemplo, a Monsanto comprou a Climate, a DowDupont adquiriu a Gleaner. Agora, essas empresas estão fazendo parcerias com as startups para conseguir entregar inovação ao produtor rural. Nós somos parceiros das multinacionais Syngenta e DowDupont.

Qual o papel do governo, da iniciativa privada e dos produtores para incentivar a tecnologia digital?

O papel do governo deveria ser de adotar as startups em suas políticas públicas. Por que não usar uma startup para ajudar no controle de dados e gerar inteligência? Já a iniciativa privada tem a missão de fortalecer a marca Brasil como produtor mundial e agregar mais valor à sua cadeia de suprimentos. Também necessita estar aberta a parcerias com as startups para criar e difundir tecnologia. E o produtor precisa estar disposto a testar essas novas tecnologias no campo. Ela pode ajudar até na sucessão familiar. A tecnologia pode fazer com que a nova geração fique no campo e garanta o futuro da lavoura. Ela está criando uma ponte entre as gerações. Hoje, são os filhos que levam as novas tecnologias para os pais.

O que esperar para o futuro?

O campo terá muito mais tecnologia aplicada e cada vez mais rapidamente. O movimento está sendo mais rápido do que eu imaginava. Também há empresas de telecomunicações entrando forte no segmento. A francesa Sigfox, por exemplo, está investindo em uma ferramenta para envio de dados em locais onde não há sinal de celular no Brasil. Além desse, há o projeto da CPqD, organização com foco em tecnologias da informação e comunicação, com o grupo São Matinho para montar redes 5G.

Como estão as parcerias da startup com a ONU e a Nasa?

Começamos a trabalhar com a ONU através do Thought For Food, um movimento global de jovens que pensam sobre o futuro da agricultura. Eles estudam os problemas e apresentam tecnologias para sementes, softwares. Seguimos este modelo e criamos um projeto para educar jovens. O treinamento dura um ano. Depois contratamos como estagiários. Sobre a Nasa, fomos convidados para um programa de transferência tecnológica. Até abrimos uma subsidiária nos Estados Unidos, no ano passado. Estamos focando na área de satélites para gerar recomendações de previsão de tempo, pragas e doenças.

Qual foi a base dessas parcerias?

Elas nasceram por causa de uma solução de monitoramento para crise hídrica. Colocamos sensores em plantações, monitorando as condições de solo, clima e chuva em cada talhão. Com os dados, informamos quanto o produtor precisará irrigar por dia. Com isso, a economia de água chega a 60% e a de energia a 40%, enquanto o aumento de produtividade pode ir a 20%.

Qual o foco das pesquisas de 2018?

Há algumas prioridades. Estamos focando em um modelo que gera previsões sobre doenças e pragas nas lavouras E também há outra solução para ajudar o produtor a escolher qual a melhor genética de sementes para o cultivo específico em cada região ou fazenda.

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