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Nasce uma gigante

em uma transação bilionária, a Suzano compra a Fibria e cria a maior empresa global de celulose de fibra curta. Saiba o que essa aquisição significa para o mercado

Crédito:  Shutterstock

Alto rendimento: a produtividade de empresas como a Fibria e a Suzano chega a atingir 60 m3 de toras por hectare, índice cinco vezes maior que a média nos Estados Unidos (Crédito: Shutterstock)

Eram 23 horas da quinta-feira, 15 de março, quando o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciou a conclusão da venda da Fibria, empresa controlada pela família Ermírio de Moraes e pelo banco de fomento estatal. Do outro lado do balcão, em um negócio avaliado em R$ 35 bilhões, estava a Suzano, da família Feffer. Com a transação, nasce a maior empresa global de celulose de eucalipto. “O Brasil deve ficar orgulhoso pelo nível de competitividade que a nova empresa terá”, disse Walter Schalka, presidente da Suzano. “É uma aquisição estratégica que resulta em uma empresa maior e melhor, preparada para competir no exterior.”

As sinergias dessa fusão são estimadas entre R$ 10 bilhões e R$ 15 bilhões para a Suzano, obtido com as operações florestais, de logística e de suprimentos da Fibria. Mas não é somente isso. Dos 58 milhões de toneladas de celulose produzidas globalmente, cerca de 20% são da Fibria e da Suzano. De acordo com João Comério, CEO da consultoria Innovatech, a nova empresa se torna campeã em celulose de fibra curta de eucalipto. Essa fibra é o segmento que mais cresce no mundo.

“O Brasil deve ficar orgulhoso pelo nível de competitividade que a nova empresa terá”, Walter Schalka, Presidente da Suzano

Ela é ideal para papéis de impressão e de higiene pessoal, e também pode vir de árvores como álamo, bétula ou acácia. A celulose de fibra longa, originária de pinheiros, por exemplo, é para produtos que demandam maior resistência. “A nova Suzano deterá 30% da oferta global de celulose de fibra curta”, afirma Comério. “E 50% da produção mundial de celulose de fibra curta a partir de eucalipto.” No País, a nova empresa está à frente da Eldorado, comprada pela holandesa Paper Excellence por R$ 15 bilhões, em setembro no ano passado, e das nacionais Klabin, do grupo Monteiro Aranha, e a Lwarcel, do grupo Lwart.

A nova Suzano nasce com valor de mercado, somadas as duas empresas, acima de R$ 70 bilhões e se torna a quinta maior empresa não-financeira do Brasil, atrás de Ambev, Petrobras, Vale e Telefônica. Muito por causa da receita combinada das empresas, de R$ 22,3 bilhões em 2017, sendo R$ 18 bilhões resultado de exportações. Para elas, o maior mercado é o asiático, para onde são embarcadas 4,6 milhões de toneladas de celulose por ano. O foco continua lá e o desafio é imenso: como impor-se nessa seara para referenciar preços? Para Andreas Mirow, consultor da Mirow & Co., essa será uma missão hercúlea, em um mercado no qual a atualmente a Fibria oferta a tonelada de celulose por US$ 830. “Há diversas empresas celulose no mundo, como a sueca-finlandesa Stora Enso, a finlandesa UPM, a chilena CMPC, além da Eldorado, Klabin, entre outras”, afirma Mirow. “Essas empresas ofertam celulose de eucalipto, de outras fibras curtas, longas e recicladas.”

Mas há outro mercado onde a nova empresa pode ter sucesso ditando o preço do produto. Nos países europeus, nos quais o consumo de fibras a partir de eucalipto é de 24 milhões de toneladas por ano, a gigante pode melhorar sua fonte de lucro. Comparado com o total de celulose de eucalipto adquirido pelo continente, as duas empresas produzem 45% do volume. Assim, caso direcione suas vendas para lá, o poder de negociação da Suzano pode fazer com que haja redução nos descontos concedidos sobre o preço, que, desde o início do ano, está em cerca de US$ 1 mil por tonelada. Para Comério, esse cenário deve de fato se concretizar. “É natural imaginar uma fonte de ganho com o maior poder de precificação da nova gigante”, diz ele. “Além de regular a oferta, ela pode escolher o melhor momento para apresentar novas tecnologias.”

Para Elizabeth de Carvalhaes, presidente-executiva da Indústria Brasileira de Árvores, associação representante da cadeia produtiva de árvores plantadas, outro resultado da fusão para o setor é o incentivo à produtividade e ao desenvolvimento sustentável. “Agora, a expectativa é de ampliação de ganhos de produção e de escala”, diz Elizabeth. “A produtividade no País chega a 40 metros cúbicos (m³) por hectare em um ano, mas entre algumas empresas, como a Fibria e a Suzano, atinge até a 60 m³ por hectare por ano.” E nesse terreno o Brasil não possui concorrentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, a produtividade é de 12 m³ de madeira por ano. Já entre os países escandinavos, que possuem um inverno rigoroso, são 10 m³ por ano. No caso da Suzano, para melhorar ainda mais a sua produtividade, ela está investindo em pesquisas de sementes geneticamente modificadas. Em 2010, a empresa comprou a israelense de biotecnologia FuturaGene para estudar cultivares de eucaliptos. Há três anos, obteve a primeira autorização regulatória para o plantio de sementes geneticamente modificadas. “Segundo informou a Suzano, esses clones apresentam ganhos de até 20% em relação aos convencionais”, diz Comério. “O impacto das sementes geneticamente modificadas seria muito positivo para a empresa e o setor.” Elas permitiriam produzir mais, em menores áreas, e usando poucos recursos naturais.