Negócios

Nova ordem nas gôndolas

As redes globais de varejo entram na onda da sustentabilidade para atender a um consumidor cada vez mais conectado com termos como saudabilidade e sensorialidade

Crédito: Claudio Gatti/AG. ISTOé

Em mutação: as redes varejistas, entre elas a francesa Carrefour, correm em busca de um modelo de negócio para satisfazer clientes cada vez mais exigentes em suas escolhas alimentares (Crédito: Claudio Gatti/AG. ISTOé)

Pergunte a um millennial, também chamado de geração Y ou geração internet – gente nascida entre o início dos anos 1980 e meados de 1990, segundo os sociólogos – o significado de saudabilidade e sensorialidade, palavras que não existem na língua portuguesa, mas que estão cada vez mais presentes no vocabulário do dia a dia. Esse jovem pode até não responder em termos técnicos, mas sabe o que elas significam quando vão às compras. Não por acaso, grandes indústrias como Pepsico, Unilever, Coca-Cola, Ambev e Nestlé têm revisto suas estratégias e mudado formulações de produtos, por exemplo, com menos adição de açúcares e de gorduras. Essa mudança, que vai impactar todas as cadeias do agronegócio, também está chegando com força nas grandes redes de varejo. Elas começam a aderir a esse movimento, revendo estratégias e imagem. Como a rede francesa Carrefour, o americano Walmart e o brasileiro Pão de Açúcar, controlado pelos grupos Êxito, da Colômbia, e Casino, da França. Eles estão em busca de uma nova ordem de valores para o que colocam em suas gôndolas e dependem dos produtores rurais para que isso aconteça. “No nosso caso, oferecemos produtos com muito sabor e qualidade”, diz o agrônomo Arnaldo Johannes Eijsink, 65 anos, diretor das fazendas de outro grupo francês, o JD, que produz 28 mil toneladas de uvas de mesa, no Nordeste, e no Centro-Oeste 6,9 mil toneladas de carne bovina, por safra. Quase tudo vai para o Carrefour.

Em produção sustentável, o JD é um modelo a ser seguido em qualquer parte do mundo, assim como há outros produtores de ponta no grupo de 650 fornecedores brasileiros da rede francesa. São produtores de frutas, verduras, legumes e carnes bovina e de peixes. No caso da rastreabilidade, a rede tem 100 fornecedores no sistema, mas o plano é chegar a todos eles. Para isso, a rede francesa avança sobre outra área, de forma pioneira. Ela foi a primeira a testar a plataforma digital blockchain para o agronegócio e não deve ficar somente nisso. Isso porque, daqui para frente, entregar a produção não bastará: será preciso mostrar ao consumidor como o alimento foi produzido. É o que está escrito no plano “Carrefour 2022”, um documento de intenções para os próximos anos, que pretende acompanhar de perto essa mudança de hábito de boa parte da população.

Noel Prioux, presidente do grupo Carrefour Brasil (Crédito:foto: AFP/JACQUES DEMARTHON)

Chamada de transição alimentar, ele indica um consumidor mais afoito por produtos menos industrializados e mais naturais. Apresentado na Europa no início do ano, embora os executivos do grupo não mostrem dados para o País, equipes brasileiras já trabalham em uma versão nacional. “Vamos continuar a diferenciar nossa oferta por meio de alimentos de qualidade”, disse o executivo Noël Prioux, CEO do grupo Carrefour Brasil em janeiro deste ano, durante a apresentação dos resultados de 2017. “Especialmente pela revitalização das nossas marcas próprias e pelo desenvolvimento da oferta de produtos locais e orgânicos.” No ano passado, a empresa faturou no Brasil R$ 49,7 bilhões, a segunda maior cifra no mundo. Globalmente, a companhia faturou cerca de R$ 320 bilhões.

Arnaldo Eijsink, diretor do grupo JD

No País, de acordo com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), o varejo movimentou R$ 353,2 bilhões no ano passado, 4,3% acima de 2016. Para este ano, a estimativa é 3% acima. Já o mercado de alimentos saudáveis se aproxima de R$ 100 bilhões por ano, segundo pesquisas da Euromonitor Internacional, publicada em fevereiro deste ano. Em valores, até 2021, o País deve ultrapassar a Alemanha, ficando atrás de Estados Unidos, China, Japão e Reino Unido. Nesse movimento, o Walmart Brasil, por exemplo, tem se comprometido com a sustentabilidade em suas gôndolas, como provar que não compra produtos de áreas desmatadas ilegalmente, por exemplo. Já o Pão de Açúcar vem promovendo alimentos de fazendas comprometidas com o bem-estar animal, como é o caso de ovos de galinhas livres de gaiolas. E também certificando frutas, verduras e legumes através do programa de Rastreamento e Monitoramento de Agrotóxicos (Rama), promovido pela Abras.

Nesse movimento, interessa, justamente, o reforço de imagem das cadeias de alimentos e cabe ao varejo essa tarefa. É o que afirma Stephane Engelhard, vice-presidente de Relações Institucionais e de Sustentabilidade do Carrefour. “Na última década, o consumidor buscava basicamente por produtos industrializados”, diz ele. “Agora não. E é preciso acompanhar esse movimento, inclusive no Brasil.” Eijsink, do grupo JD, estava na apresentação pública do plano “Carrefour 2022” e tem uma opinião formada sobre esse tema. “Nós temos uma parceria longa, de quase três décadas, fornecendo alimentos para a rede varejista”, diz ele. “Nesse tempo, aumentamos a produtividade a cada ano, mostrando que é possível produzir mais, sem derrubar uma árvore sequer e isso importa.” No caso do JD, são 32 mil hectares, dos quais 15 mil são pastos para 40 mil bovinos, e 800 hectares são de parreirais, com toda a produção rastreada. O restante é de mata nativa.