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Novidade no galinheiro

Redes de varejo se organizam para vender apenas ovos de galinhas livres de gaiolas. O problema é que os produtores não conseguem suprir a demanda

Crédito:  Claudio Belli

PIONEIRO Maior produtor de ovos da América Latina, Leandro Pinto foi o primeiro empresário do Brasil a investir na criação de galinhas livres de gaiola (Crédito: Claudio Belli)

Há dois anos, o grupo mineiro Mantiqueira, maior produtor de ovos da América Latina, deu início a um projeto de criação de galinhas livres de gaiolas. Até agora, o resultado é uma produção de alto custo e de pouca demanda. Mas esse cenário deve mudar nos próximos anos. “O compromisso do varejo é vender apenas esse tipo de produto a partir de 2025”, declara Leandro Pinto, presidente da Mantiqueira, que fatura cerca de R$ 550 milhões por ano. “Quando isso acontecer, vai faltar esse tipo de ovo, porque o produtor não atingirá o volume esperado.” Pelas estimativas do setor, dos 44,5 bilhões de ovos produzidos no País anualmente, apenas 5% vêm do sistema de criação sem gaiolas, que inclui a produção orgânica e caipira.

No entanto, as maiores redes de varejo do País, como Carrefour e Grupo Pão de Açúcar (GPA), acreditam que esse tipo de ovo, que tem forte apelo sustentável, possa se tornar uma realidade em larga escala. O GPA, que faturou R$ 53,6 bilhões no ano passado, não revela seus números de vendas de ovos, mas afirma que, hoje, 25% das unidades comercializadas já vêm desse tipo de sistema. “Para nós, esse tipo de produto já deixou de ser nicho”, diz Paulo Pompilio, diretor de Sustentabilidade do GPA. Há dois anos, esse número era de apenas 5%. Nas fazendas, porém, a realidade é outra. Para os produtores, ovos de galinhas livres de gaiolas ainda é visto como um nicho e não há, hoje, no Brasil capacidade de produção que consiga atender à eventual demanda que as grandes redes podem exigir.

Problemas à parte, o fato é que há uma forte tendência nesse mercado e que não pode ser ignorada: a busca por mais qualidade de vida das galinhas, de acordo com as diretrizes de bem-estar animal. Esse movimento está transformando a produção agropecuária no mundo: já é empregado na criação de bovinos e vai se aproximando cada vez mais da produção de suínos e aves. Em todas as granjas da Alemanha e em muitas dos Estados Unidos, a criação de galinhas sem gaiolas já é uma sólida realidade. “Mas nesses países, a renda per capita é muito superior à do brasileiro”, observa Leandro Pinto, da Mantiqueira. “Vai demorar muito para o Brasil chegar a esse patamar.”

A empresa de Pinto, que tem a matriz em Itanhandu (MG) e unidades em Primavera do Leste (MT) e Paraíba do Sul (RJ), produziu 2,4 bilhões de ovos no ano passado – 5,4% de toda a produção nacional. Dos seus 11,5 milhões de galinhas, 575 mil são criadas livres de gaiolas e produzem 120 milhões de ovos por ano, o que representa apenas 5% da produção da empresa. E, por enquanto, deve ficar nisso. “Não penso em aumentar. Vou esperar o mercado amadurecer”, diz Pinto. Ele afirma que investiu cerca de R$ 10 milhões desde o início do projeto, em 2016, com instalações, equipamentos e mão-de-obra. O custo no sistema de criação de galinhas livres é fator preponderante, chegando a ser 40% superior ao sistema tradicional de criação. Para criar uma galinha em gaiola, o produtor gasta, em média, R$ 12 por mês. No sistema em liberdade, esse valor pode chegar a cerca de R$ 20. “O ovo é a proteína animal mais barata que existe, além de ser a mais nutritiva, só perdendo para o leite materno”, destaca Pinto. “Por isso, pela economia do País, é uma conta que ainda não fecha”.

Estímulo à demanda Segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o mercado interno absorve praticamente toda a produção nacional de ovos: 99,7%. Apenas 0,3% é exportado. Outro fato interessante: nunca se comeu tanto ovo no Brasil como em 2018. Foram 212 unidades por pessoa, contra 192 em 2017, alta de mais de 10%. Para Paulo Pompilio, do GPA, é crescente também o gosto pelos ovos do sistema livre de gaiolas. Há dois anos, a empresa anunciou que, até 2025, só venderia esse tipo de produto. “Pelo crescimento que observamos, acreditamos que estamos no caminho certo”, afirma o executivo.


Para ele, quanto maior o consumo de ovos no País, melhor será a receptividade desse tipo de produto. O nó a ser desatado está, segundo ele, justamente na produção. “É um desafio não só das grandes redes de varejo, mas também do sistema produtivo e do próprio governo”, diz Pompilio. Com linhas especiais de financiamento, os produtores poderão estruturar as granjas e reduzir os custos. “Temos consciência de que o ovo é a proteína animal mais barata que há. Por isso, não deixamos de lado a nossa responsabilidade de oferecer um produto que o consumidor possa comprar”. Atualmente, cinco granjas atendem à demanda do GPA por ovos de galinhas livres de gaiolas.

No ano passado, o Carrefour anunciou postura semelhante à do GPA. A empresa, que faturou R$ 56,3 bilhões em 2018, espera vender exclusivamente esse tipo de ovo até 2028. Diretor de Sustentabilidade do Carrefour Brasil, Paulo Pianez destaca o apelo sustentável dos ovos de galinhas criadas fora de gaiolas. “Cada vez mais, o consumidor quer saber de onde vem o alimento que consome, se sua produção respeitou as questões ambientais, sociais e de bem-estar animal”, destaca Pianez. Para ele, é um caminho sem volta. Inclusive, para os fazendeiros. “Os produtores podem não estar investindo agora, mas vão investir, porque a demanda vai crescer.”